Com personalidade, Linkin Park se consagra com o estilo rap-metal

Edna Gundersen

O Linkin Park não faz concessões.

E talvez por essa razão todas as grandes gravadoras rejeitaram o sexteto do sul da Califórnia até que a Warner Bros finalmente abocanhasse a isca, após ter dito não para a banda por três vezes.

Quando o Linkin Park começo a buscar um contrato em meados da década de 90, o rap-metal havia explodido, e era o estilo híbrido de maior sucesso, com seu perfil jovem e seus chiados de rádio. O fato de que campeões de venda como Limp Bizkit e Kid Rock quisessem mais decibéis do que pontos de QI não impediu o desenvolvimento do gênero, mas tornou-se um obstáculo na busca do Linkin Park por uma gravadora.

"De início, nos agradava a idéia de que o rap-rock fosse um gênero, pois ele era novo e recente, e ninguém o fazia", afirma o rapper Mike Shinoda. "Isso foi há alguns anos. Depois vieram Kid Rock, Limp Bizkit e outros manos para o gênero, e nós deixamos de gostar do título. Muitos caras de gravadoras que nos ouviam reclamavam que nós não entrávamos no estereótipo. Eles diziam: 'As letras não são animadas, vocês não falam palavrões e não falam de garotas se divertindo'. Aquilo pegava mal para nós".

Vejam só quem se diverte agora. Embora o rap-rock ainda responda por uma boa parcela das vendas de discos, o Linkin Park, que concorre a três Grammys, transcendeu a fórmula. O vocalista Chester Bennington recorda que a mistura de hip-hop, rock e música eletrônica do Linkin Park já havia amadurecido antes da ascensão do gênero. "Nós começamos a fazer esse som antes que outras bandas estourassem, e isso nos ajudou a manter nosso estilo e nosso som", ele disse. "Muitas bandas aproveitam elementos do hip-hop e do rock e os vulgarizam" nós transitamos por diferentes estilos, mas não vamos dar atenção a algum empresário que diga: 'olha só, a sua música só vai dar certo se voce começar a falar de festas e de carros de luxo'. Estamos interessados numa música mais profunda e que atinja as pessoas emocionalmente".

Aparentemente este também é o interesse dos fãs, para grande surpresa de uma indústria que se desdobra para vender um machismo recheado por palavrões. O álbum de estréia "Hybrid Theory", lançado em outubro de 2000, vendeu 47.000 em sua primeira semana, em grande parte graças à força de sua campanha na Internet. As rádios vieram depois, e a banda passou a fazer inúmeros shows (foram 325 no ano passado) e o álbum chegou ao topo das vendas. Foi o mais vendido do ano passado, com 4,8 milhões de cópias, superando pesos-pesados do mundo pop como 'N Sync, Enya, Alicia Keys, Britney Spears e Destiny's Child. Ocupa o 4º lugar da Billboard, após registrar na semana passada 119.000 das 6,2 milhões de cópias vendidas em todos os Estados Unidos.

A vitória do Linkin Park, obtida durante a primeira queda de vendas da indústria ocorrida nos últimos dez anos, é pálida diante dos números de 2000, ano em que sete álbuns ultrapassaram a marca dos cinco milhões.

"Isso não reduz em absolutamente nada o fato de que o Linkin Park vendeu mais álbuns do que qualquer outro", afirma Geoff Mayfield, um dos diretores da Billboard. "É deles o álbum mais vendido do ano, e mesmo assim eles não chegaram nenhuma vez entre os cinco mais vendidos. Isso é inédito. Muitas pessoas referem-se a 2001 como o ano do ressurgimento do rock. O sucesso do Linkin Park durante todo ano, e o sucesso do Creed no final do ano, reforçam este argumento".

O lento avanço do Linkin Park "foi uma vantagem para eles", afirma Bob Coburn, que apresenta o programa de rádio "Rockline". Percebida como a criadora de um trabalho original de base com uma visão independente, a banda escapou do rótulo de cópia conferido a outras bandas surgidas após o Limp Bizkit e encontrou seu próprio nicho.

"Foi preciso que algumas pessoas mais ousadas dentro das rádios lhe dessem uma chance", afirma Coburn. "O nome do álbum já diz tudo. Eles combinam metal, rap e elementos do jazz, do blues e do rock, e lançam-nos numa mistura palatável que fala para muitos garotos. A beleza da banda está no equilíbrio entre um som agressivo e melodias suaves. Shinoda é um bom rapper, e Bennington faz bons vocais. No final, você tem duas música na mesma faixa".

As influências da banda vão desde Ministry e Nine Inch Nails até Slick Rick e Chuck D ou Depeche Mode e Earth, Wind & Fire. "Se voce reunir todos os nossos discos, verá uma loja bizarra de música", afirma Bennington. "Nós crescemos ouvindo muito hip-hop, rock e música eletrônica, e fazia sentido para nós escutar tudo ao mesmo tempo".

Shinoda, que passou para os teclados após dez anos estudando piano erudito, chamou inicialmente dois amigos de colégio, o guitarrista Brad Delson e o baterista Rob Bourdon. Mais tarde vieram o guru dos sampler Joseph Hahn e o baixista David "Phoenix" Farrell. Bennington viria mais tarde do Arizona para completar a formação.

Os primeiros experimentos "eram uma versão ainda crua do que somos hoje: um grande caldeirão de misturas", afirma Shinoda, que faz questão de frisar que a abordagem do Linkin Park não é nova. "Já se fez muita coisa a partir do cruzamento de influências. Não é nada de mais. Combinar tipos afastados de música é algo que já ocorre há décadas, mas eu duvido que Led Zeppelin ou Elvis se colocassem as mesmas questões que nós".

Eles também ficam aturdidos por saber que a lisura de suas letras surpreende os ouvintes.

"Nós fizemos essa escolha para fugir daquelas recomendações para faixa etária", afirma Bennington com uma risada. "Isso não quer dizer que nós não falamos palavrões normalmente. Eu gosto de falar. Acho que é uma boa forma para se sintetizar um sentimento. Quando voce escreve uma letra, a última coisa que voce deve fazer é baratear a música e resumir a mensagem numa única frase. Nós queremos nos expressar da forma mais abrangente, e a vulgaridade não acrescenta nada de especial. Nós descobrimos exatamente o oposto disso. Se não usarmos a vulgaridade, nossas intenções são melhor veiculadas".

Bennington ­ cuja esposa, Samantha, dará à luz seu primeiro vilho em maio ­ sente agora com mais força a responsabilidade de "lidar com os filhos dos outros e com a forma como eles entendem nossa música. Nós nos expressamos de forma otimista. É preciso botar para fora aqueles sentimentos de angústia e depressão, mas também é preciso falar sobre a alegria".

Shinoda rejeita a palavra amaldiçoada ­ "hubbbub" ­ e a classifica como mais um equívoco da mídia e dos não-iniciados. Classificada anteriormente como uma banda de nu-metal ou herdeira do Limp Bizkit, o Linkin Park ainda encontra repórteres que esperam "caras de cabelo comprido e sujo, calças de couro e um rap inteiramente misógino que fale sobre pessoas que se detonam nas ruas. Depois eles ouvem o disco e se surpreendem".

De algum modo, o Linkin Park escapou da má sorte que condena roqueiros bem informados e bem comportados à terra dos nerds. A banda sabe que seu estilo de vida saudável e a falta de controvérsia dificultaram sua ascensão.

"Ninguém publica manchetes sobre o presidente de um grêmio que adora o Linkin Park", ele diz. "E voce não encontra cartazes nossos em um clube do lado de uma garrafa de Jack Daniel's".

Mesmo assim, é possível encontrar o Linkin Park na capa da "Rolling Stone", nas marquises das grandes arenas do mundo pop. A banda acaba de preparar seu esperado "Revolution Tour with Cypress Hill". Um novo DVD, "Frat Party at the Pankake Festival" (pistas do DVD podem ser encontradas no web site www.linkinpark.com), registra boas vendas até o momento. Um remix de "Hybrid Theory", com novas interpretações feitas por heróis do underground, será lançada provavelmente no segundo semestre. A banda começa a gravar um novo álbum de estúdio daqui a alguns meses.

Linkin Park não é um estouro criativo absoluto ou um fracasso comercial. Quando muito, o grupo teme que seu sucesso possa frustrar os fãs que surgiram na Internet e formaram uma equipe de divulgação de 500 pessoas.

"Fico preocupado com a transformação de nossos primeiros fãs", afirma Shinoda. "Os outros caras riem da minha cara, mas eu fico intrigado com o desafio que os fãs enfrentam quando um outro público começa a gostar da música que eles gostam. Quando eu estava no colégio, sempre que minha banda favorita começava a fazer sucesso, eu ficava desconfiado. Quando LL Cool J estourou, ele mudou de estilo. Este público secundário não fica com voce para sempre. Mas eu quero que os nossos primeiros fãs permaneçam conosco. Nós pertencemos a esses caras".

Tradução: André Medina Carone

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