Pesquisa revela que os EUA são odiados nos países muçulmanos

Chuck Raasch

Washington, EUA -- Se os Estados Unidos algum dia quiseram obter uma evidência de que a sua popularidade no mundo islâmico é tênue, tal prova acaba de ser fornecida pelo Kuait.

Onze anos após a coalizão militar montada e liderada pelos norte-americanos ter libertado o reino rico em petróleo de uma brutal ocupação pelo vizinho Iraque, uma nova e perturbadora pesquisa do Gallup revela como os Estados Unidos e a sua guerra contra o terrorismo são pouco apreciados no Kuait e nos países muçulmanos vizinhos.

As vitórias militares não estão conquistando os corações e mentes nesses países. A solução para esse problema pode depender dos muçulmanos moderados, da criação de canais de acesso com líderes moderados no ocidente e do aumento dos esforços governamentais no sentido de diminuir a disparidade entre ricos e pobres, que alimenta o anti-americanismo entre a população destituída do mundo muçulmano.

A pesquisa Gallup, feita com 9.924 adultos em nove países muçulmanos, revelou que a imagem dos Estados Unidos nesses países equivale aos índices de popularidade dos executivos da companhia Enron entre a população norte-americana. Segundo o Gallup, somente 20% dos moradores da Indonésia, do Irã, da Jordânia, do Kuait, do Líbano, do Marrocos, do Paquistão, da Arábia Saudita e da Turquia têm opiniões favoráveis sobre os Estados Unidos, enquanto que 53% possuem uma visão desfavorável da potência norte-americana.

Menos de 10% dos entrevistados disseram que a ação militar dos Estados Unidos no Afeganistão foi justificada, e menos de 20% afirmaram acreditar nas notícias da imprensa que afirmam que os ataques de 11 de setembro foram realizados por árabes.

Este último fato é irônico, já que Osama Bin Laden, nascido no Iêmen e membro de uma família saudita, fez declarações auto-incriminatórias em uma gravação de vídeo, onde se vinculou aos eventos de 11 de setembro.

A pesquisa não deveria se constituir em uma surpresa para os norte-americanos, já acostumados com o clamor constante por uma jihad e o pedido de morte contra os Estados Unidos, por parte de líderes religiosos extremistas no Irã, no Paquistão e em outras nações muçulmanas.

Mas os sentimentos anti-americanos no Kuait -- brutalizado pelo Iraque e salvo pelos Estados Unidos -- é mais difícil de engolir. O Gallup revelou que somente 28% dos kuaitianos vêem os Estados Unidos com bons olhos. Somente 17% dos cidadãos do Kuait crêem que a ação dos Estados Unidos no Afeganistão foi justificada.

Isso nos leva a pensar em qual seria o percentual de kuaitianos que teria essa opinião, caso o Iraque ainda estivesse em controle dos campos petrolíferos do país, se os soldados iraquianos ainda estivessem enforcando pessoas na cidade do Kuait, ou se os oficiais iraquianos estivessem enviando comboios de bens saqueados para Bagdá. Essa era a realidade do país 11 anos atrás.

O embaixador kuaitiano nos Estados Unidos questionou a precisão da pesquisa Gallup. Salem al Sabeh disse à rede MSNBC que o governo do seu país tem apoiado vigorosamente os Estados Unidos desde 11 de setembro. Segundo ele, se tantos kuaitianos fossem realmente tão anti-americanistas, o governo do seu país teria ouvido um número bem maior de protestos do que foi detectado.

Mas a mensagem básica da pesquisa é clara: enquanto os corações e mentes não forem sensibilizados e as vozes muçulmanas moderadas forem suplantadas pelos extremistas e propagadores do ódio, ocultos sobre o manto do islamismo, os sucessos ostensivos e dissimulados das forças armadas norte-americanas podem não ser suficientes para diminuir o sentimento negativo com relação aos Estados Unidos.

Alguns países, especialmente o Paquistão, teriam fechado escolas religiosas que fomentavam o ódio mais intenso contra os Estados Unidos. Mas a solução pode estar na abertura de novos diálogos, e não no fechamento de escolas.

Toneladas de alimentos e remédios foram enviados ao Afeganistão através de instituições religiosas ocidentais, mas os líderes muçulmanos e não muçulmanos não organizaram encontros importantes que poderiam atenuar as diferenças entre os dois mundos.

Sobram conselhos -- inclusive do Presidente Bush -- pedindo aos norte-americanos não muçulmanos que aceitem o islamismo como sendo uma religião de paz, que foi destorcida por um punhado de militantes extremistas. No entanto, os pronunciamentos infelizes de figuras religiosas norte-americanas podem ter aprofundado a divisão entre o ocidente e o mundo islâmico.

O mais recente desses pronunciamentos foi um outro ataque ao islamismo, feito pelo tele-evangelista de direita, Pat Robertson, que inflamou os críticos e os norte-americanos muçulmanos ao descrever o islamismo como sendo uma religião violenta, dedicada ao domínio do mundo.

Bush não se mostrou abalado pelos resultados da pesquisa, afirmando que os sucessos militares vão conquistar corações e mentes nos países islâmicos.

"Se os Estados Unidos demonstrarem uma liderança forte na luta contra organizações terroristas, o mundo vai nos seguir", disse Bush durante uma visita à Carolina do Norte. "E se estivermos determinados e resolvidos a eliminar os assassinos, as pessoas que desejam desestabilizar governos legítimos, o mundo respeitará essa nossa atitude, não importando qual seja a natureza religiosa das populações envolvidas".

Esse aspecto da doutrina de Bush pode estar correto. O mundo pode nos seguir. O sucesso militar pode gerar respeito. Mas se o presidente não estiver correto, ele não achará apoio moral para a causa norte-americana no mundo muçulmano sem um programa sério de relações públicas do qual participem, inclusive, os líderes das religiões mundiais.

Tradução: Danilo Fonseca

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