Mau comportamento de Russel Crowe pode dar Oscar a Denzel Washington

Scott Bowles

A energia e a emoção garantiram a ele o Oscar de melhor ator em "Gladiador", mas desta vez o temperamento de Russel Crowe pode lhe custar a estatueta.

As suas explosões temperamentais na semana passada, na entrega do prêmio Bafta, na Grã-Bretanha, aliadas às críticas de que os eleitores da Academia ignoram os atores negros, são fatores que têm feito com que vários analistas afirmem que haverá uma disputa acirrada para melhor ator, entre Crowe e Denzel Washington.

Crowe e o seu filme, "Uma Mente Brilhante", surgiram como competidores de primeira linha para o Oscar após a premiação do Globo de Ouro. Na ocasião o filme ganhou o prêmio de melhor roteiro, ator e atriz coadjuvante (Jennifer Connely).

"Se tudo tivesse corrido normalmente, eu diria que o Oscar de Crowe estaria garantido", afirma Jeffrey Wells, crítico de cinema do site reel.com. "Mas o comportamento grosseiro do ator provavelmente fez com que ele perdesse alguns votos".

Tal conduta em público pode ter sido um erro crítico, já que os membros da Academia ainda podem votar até 19 de março.

Já Washington, que interpreta um policial corrupto em "Training Day", enfrenta os seus próprios problemas. O Oscar não reconhece papéis de vilões desde que Anthony Hopkins ganhou a estatueta pela sua interpretação em "O Silêncio dos Inocentes", em 1992.

"A disputa pelo Oscar de melhor ator está focalizada em um bom ator fazendo o papel de um vilão (Washington) e um ator encrenqueiro que interpreta um personagem de bom caráter", afirma o crítico de cinema da Associated Press, David Germain.

A controvérsia teve início na semana passada, quando Crowe se recusou a aceitar o prêmio Silver Heart, do Variety Club, uma instituição de caridade britânica, após ter sido informado que Joan Collins tinha recebido o prêmio no ano anterior. Collins afirmou publicamente não achar que o ator tenha "boa aparência", e Crowe se recusou a subir ao palco após ter recebido o prêmio, tendo dito aos membros do clube para "enfiarem o Silver Heart naquele lugar".

Dois dias depois, Crowe bateu no produtor de TV do Bafta, após ter descoberto que parte do seu discurso havia sido cortado da edição colocada no ar. Crowe agrediu Malcom Gerrie por este ter editado o discurso, que incluía a declamação de um poema de Patrick Kavanagh.

Crowe defendeu o seu comportamento intempestivo, e disso que o incidente não deverá repercutir negativamente sobre as suas chances de ganhar o Oscar. "Ele não ficou arranhado nem marcado, mas tenho certeza de que seus ouvidos ainda estão zunindo", disse Crowe aos jornalistas, referindo-se ao incidente, durante o lançamento de "Uma Mente Brilhante" em Sydney. "O critério para o Oscar deve se restringir à performance do ator em questão. Não creio que vou ser avaliado para o Oscar com base na minha briga com um executivo da TV Britânica".

Enquanto isso, a interpretação de Washington vem ganhando impulso para o Oscar. A sua indicação, juntamente com as possibilidades de Will Smith, em "Ali", e Halle Berry, em "Monster's Ball", desencadeou uma onda de reportagens por parte da mídia sobre a tradicional escassez de concorrentes membros de minorias étnicas.

O Oscar especial deste ano, que rende homenagem a Sidney Poitier, vai funcionar como um lembrete aos eleitores da Academia de que Poitier é o único afro-americano a ter ganho o prêmio de melhor ator.

"O histórico da Academia a esse respeito é lamentável", diz Tom O'Neil, autor de Movie Awards. Este ano eles estão fazendo um esforço genuíno para remediar essa situação.

No entanto, Washington afirma que o progresso não é medido com base no número de indicados ou de vencedores do Oscar. "Eu só espero que, quando chegue o momento, nós possamos ser julgados com justiça pelo nosso trabalho, e que a cor da nossa pele não nos beneficie nem prejudique", disse ele na semana passada. Esse comportamento educado só pode aumentar ainda mais as suas chances junto aos eleitores da Academia.

Quase obscurecidos por essa polêmica estão os três outros atores que disputam o prêmio de melhor ator. A atuação de Sean Penn, que faz o papel de um pai mentalmente retardado em "I Am Sam" pode se constituir em uma surpresa na premiação, afirma o cineasta Howard Fine.

"Esses papéis são difíceis de ser interpretados, e a Academia gosta de dar o seu reconhecimento", diz Fine, que trabalhou com os indicados ao Oscar, Connelly e Brad Pitt. Devido ao fato de "Ali" ter sido atacado pela crítica e "In the Bedroom" ser um filme tão sombrio, Smith e Tom Wilkinson têm menos chances, afirma Fine.

Thelma Adams, crítica de cinema da US Weekly, afirma que a disputa "depende do fato de a Academia estar pronta ou não para colocar Crowe entre aqueles poucos atores, como Tom Hanks e Spencer Tracy, que conquistaram dois Oscars seguidos. Dar outro Oscar a Crowe não significaria nada, mas concedê-lo a Washington seria realmente um fato de peso".

Segundo Ty Ingram, do site de entretenimento zap2it.com, o que tem sido ignorado nessas disputas são as atuações em si.

"Infelizmente, o Oscar gira cada vez mais em torno de marketing e imagem", afirma. "Mas o prêmio deveria na verdade se restringir ao trabalho feito nas telas".

Tradução: Danilo Fonseca

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