Batalhas tendem a se intensificar no Afeganistão

Jonathan Weisman

Washington, EUA -- Foi um simples ato falho ao falar sobre o mais mortífero dia para as tropas norte-americanas no Afeganistão. Quando o comandante da guerra iniciou o seu discurso do dia à imprensa, na última segunda-feira, ele ofereceu orações às famílias dos soldados mortos "em nossas atuais operações no Vietnã". Ao se dar conta do erro, o general Tommy Franks disse logo depois: "A Guerra do Vietnã aconteceu há muito tempo, e não se parecia em nada com aquilo que estamos presenciando atualmente".

Ainda assim, a batalha contra as forças do grupo Al Qaeda, de Osama Bin Laden, que começou na última sexta-feira, é a mais feroz até o momento, e sugere que a campanha dos Estados Unidos será mais longa e sangrenta do que se imaginava há apenas uma semana:

- As tropas norte americanas, que vinham desempenhando um papel de apoio às forças nativas em batalhas anteriores, estão agora liderando os combates.

- Um inimigo determinado está enfrentando um poder de fogo muito superior com armamentos de pouca tecnologia mas, ainda assim, surpreendentemente eficazes.

- A população civil parece estar dando abrigo e apoio aos adversários dos Estados Unidos.

- Novas evidências sugerem que a Al Qaeda estaria planejando utilizar táticas de guerrilha para derrubar o governo apoiado pelos Estados Unidos e minar a determinação norte-americana.

"Eles são determinados e perigosos. São combatentes que não vão desistir sem luta", disse o secretário de Defesa Donald Rumsfeld.

Apesar da gafe cometida por Frank, os oficiais do Pentágono negam que haja qualquer paralelo com o Vietnã. As forças comunistas no Vietnã do Sul e o exército norte-vietnamita eram tropas nativas, enquanto que os guerreiros árabes e da Ásia Central que compõe a Al Qaeda são considerados estrangeiros pelos afegãos. Os comunistas vietnamitas contavam com o apoio da União Soviética e da China, enquanto que a Al Qaeda está praticamente solitária nesta guerra. E a determinação do público norte-americano desta vez não se baseia na geopolítica da Guerra Fria, e sim no sangue derramado em 11 de setembro.

É por isso que o Pentágono acredita que a população norte-americana vai continuar unida e paciente, apoiando o esforço de guerra. "A defesa contra o terrorismo requer que adotemos a ofensiva e que levemos a batalha até o inimigo", afirmou Rumsfeld.

"Não existe canto na Terra suficientemente distante ou escuro para protegê-los. Não importa quanto tempo isso leve, mas a hora da justiça chegará para eles", acrescentou Rumsfeld, repetindo a ameaça do presidente Bush.

Mas a justiça tem um preço. Os sete soldados norte-americanos mortos em combate na segunda-feira, mais uma oitava fatalidade no sábado, se constituem em um grande número de baixas, quando comparado aos apenas dois norte-americanos que morreram em combate nos últimos cinco meses. Um soldado morreu na segunda feira, após ter caído do seu helicóptero do exército ou ter sido inadvertidamente deixado para trás, durante um tiroteio. Os outros seis soldados do exército foram abatidos pelo fogo inimigo cerca de três horas depois, quando abandonavam um helicóptero que fora derrubado.

Os oficiais do Pentágono esperam que a "Operação Anaconda" -- cujo nome é uma alusão à cobra que estrangula a sua presa -- continue por pelo menos dois dias.

Ainda que o foco de resistência da Al Qaeda e do Taleban seja desbaratado rapidamente, espera-se que o inimigo se reagrupe em outros locais, gerando novas ofensivas norte-americanas.

Em suma, uma guerra que parecia estar chegando ao fim no mês passado, aparenta agora ter entrado em uma fase nova e mais letal, onde os atores não são mais os pilotos de bombardeiros, mas as forças terrestres dos Estados Unidos. "Esta não será a última batalha do Afeganistão", assegurou Rumsfeld.

Os oficiais do Pentágono afirmam que têm observado as forças de Bin Laden se agrupando em uma acidentada região ao sul de Gardez há pelo menos três semanas. A elas se juntaram combatentes uzbeques, tchetchenos e de outras nacionalidades, que vinham lutando ao lado do Taleban, antes que a milícia fosse neutralizada no final do ano passado. E, segundo os oficiais, membros muçulmanos devotos das tribos pashtun do sudeste do Afeganistão receberam de braços abertos os seus companheiros muçulmanos da Al Qaeda.

Os líderes militares norte-americanos apresentaram um plano de batalha para o general Richard Myers, comandante da Junta de Chefes do Estado Maior, quando esse visitou o Afeganistão, duas semanas atrás. Eles esperaram até que o inimigo tivesse formado um agrupamento suficientemente grande para que um ataque com força total valesse a pena. Mas, se por um lado as forças da Al Qaeda deram ao Pentágono o alvo substancial pelo qual os norte-americanos estavam aguardando, o Pentágono também deu a Al Qaeda a luta que eles queriam havia tanto tempo: uma batalha direta contra os "infiéis": as tropas de combate dos Estados Unidos.

Em dezembro, quando as forças afegãs apoiadas pelo poderio aéreo dos Estados Unidos atacaram as tropas da Al Qaeda em Tora Bora, que fica a nordeste do local da atual batalha, os combatentes leais a Bin Laden simplesmente bateram em retirada -- talvez em companhia do saudita, que é o principal suspeito de ser o mentor dos ataques de 11 de setembro.

Desta vez, os oficiais do Pentágono dizem que as forças da Al Qaeda decidiram ficar e lutar contra os norte-americanos.

Autoridades norte-americanas especularam em batalhas anteriores que a feroz resistência oferecida pela Al Qaeda seria um indicador de que essas tropas estariam defendendo Bin Laden ou outros líderes da organização. Já as fontes de inteligência dos Estados Unidos afirmam não acreditar que Bin Laden ou o supremo líder do Taleban, o Mulá Mohammed Omar, estejam com as tropas que lutam ao sul de Gardez. Acredita-se que Bin Laden esteja escondido ao longo da fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão. Quanto a Omar, especula-se que o seu último paradeiro tenha sido a região central do Afeganistão. As fontes de inteligência afirmam que a ferocidade desta luta pode advir do fato de os combatentes da Al Qaeda estarem finalmente enfrentando o seu verdadeiro inimigo, os Estados Unidos.

Tradução: Danilo Fonseca

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