Afeganistão tenta recuperar patrimônio cultural destruído pelo Taleban

Tom Squitieri

Bamiyan, Afeganistão -- Primeiro é a névoa da manhã que aparece e, a seguir, a fumaça dos fogões a lenha, à medida que o céu passa de um amarelo pálido para uma tonalidade rósea e, finalmente, para o azul. Lentamente, a cortina de névoa se abre, revelando a montanha banhada em uma luz matinal que ilumina a alma.

No coração da cadeia de montanhas Hindu Kush deveria estar o testamento de uma das maiores realizações do ser humano, os Budas Colossais. Mas, quando o sol atinge diretamente a montanha, os seus raios iluminam apenas os buracos escuros onde outrora ficavam os Budas. Esculpidos na rocha íngreme entre os séculos quatro e sete da nossa era, as estátuas foram pulverizadas pelo Taleban com explosivos em pleno século 21.

"Eles demoraram apenas 17 dias para destruir os dois grandes Budas", lamenta Sayed Qiam, 46, que trabalhou durante cinco anos no gerador instalado aos pés das estátuas. Qiam afirma que dois operários locais morreram de medo ao descer, por meio de cordas, a partir do topo dos Budas, para fazer buracos onde seriam colocadas as bananas de dinamite. "Os seus corações simplesmente pararam de bater", conta. "E, quando a dinamite explodiu, tudo foi tomado por uma poeira branca, e depois por um outro pó, denso e negro, proveniente do explosivo".

A destruição dos Budas foi o mais intenso ataque da jihad do Taleban contra a história e a cultura do Afeganistão. Antes de o Taleban ter assumido o controle do país, em 1996, e antes da guerra civil que tomou conta da nação a partir do início da década de 90, arqueólogos e historiadores vinham sempre até aqui para catalogar os tesouros e a história do local. Atualmente, os mesmos acadêmicos estão desolados, pensando na melhor maneira de catalogar a destruição feita pelo Taleban.

Cultura na UTI

A salvação da história e da cultura do Afeganistão é um esforço que se estende desde as partes mais remotas do país, tais como Bamiyan, até a capital, Cabul, a cidade que costumava ser o centro artístico da nação. Sobre a entrada do atualmente destroçado Museu de Cabul há uma placa, colocada depois que o Taleban bateu em retirada, onde se lê: "Uma nação se mantém viva quando a sua cultura permanece viva".

Se isso for verdade, então o Afeganistão está na UTI.

"O processo de destruição durou mais de 22 anos", afirma Abdullah Wassay Ferozi, diretor geral do Centro de Arqueologia do Afeganistão. "Ao saque da guerra civil se seguiu a fúria fanática do Taleban. Eles destruíram tudo o que puderam, todos os objetos relativos aos primórdios da história do país".

Ferozi foi designado pelo novo governo afegão para avaliar os estragos e elaborar um plano para restaurar o que for possível, e preservar o que restou. Ele está melancólico quanto aquilo que tem que encarar: "Pelo menos 75% dos objetos foram destruídos e saqueados durante os últimos dez anos", diz Ferozi. Até mesmo o equipamento necessário para a condução das pesquisas e da escavação foi inutilizado.

Da pedra ao pó

O Taleban chegou a Bamiyan no dia 13 de setembro de 1998, e a primeira providência tomada pelos membros do movimento fundamentalista foi apagar as luzes que iluminavam os Budas à noite. Cinco dias depois, eles dinamitaram a cabeça do menor dos dois Budas Colossais. A seguir eles dispararam foguetes militares contra as estátuas, danificando as esplendorosas dobras das vestimentas das figuras e destruindo afrescos próximos.

Os dois Budas foram lavrados com os traços clássicos de todos os Budas subcontinentais, mas as figuras estavam envoltas em túnicas gregas. Essa combinação representava a fusão única entre a clássica arte indiana e o helenismo, introduzido na região pelos exércitos de Alexandre, o Grande.

As estátuas eram uma das maravilhas do mundo antigo, visitadas por peregrinos da China e da Índia. A sua existência foi registrada pela primeira vez no ano 632, por Hiuan Tsang, um monge chinês que visitou Bamiyan, que, à época, era um grande centro de estudos budistas. Ele descreveu o Buda maior como "cintilante de ouro e de ornamentos preciosos". As estátuas sobreviveram a incontáveis invasões, incluindo aquelas de Gêngis Khan, ainda que o maior dos Budas tenha sido atingido pela artilharia do comandante mongol do século 17.

Mas as magníficas obras de arte nunca antes haviam enfrentando um inimigo como o Taleban. Em janeiro de 2001, o Taleban arrasou um complexo budista do século 2 A.C., em Ghanzi. Depois, em 26 de fevereiro de 2001, o líder Taleban, o mulá Mohammed Omar, baixou um decreto determinando que os Budas Colossais deveriam ser destruídos porque violariam a lei islâmica que proíbe imagens humanas e a idolatria. Vários governos e museus se ofereceram para remover as estátuas e até para comprá-las, a fim de ajudar o falido governo do Taleban, mas Omar se mostrou irredutível.

"No primeiro dia o ministro da Defesa do Taleban e outros indivíduos chegaram de Cabul, de helicóptero", conta o general Haji Mohammed Jawhari, comandante militar em Bamiyan. "Eles leram uma ordem escrita em um papel pelo mulá Omar. Através do documento o mulá Omar ordenava aos soldados que destruíssem os Budas. Ele afirmou que o povo afegão é muçulmano e que não deveria deixar as estátuas intactas. Segundo Omar, algumas vezes os habitantes locais as adoravam como deuses".

Jawhari nega a acusação de que a população local adorasse as estátuas. "Não, isso nunca aconteceu. Eles nunca as amaram como deuses, e sim como acervo histórico. Os Budas faziam com que Bamiyan fossem uma província importante, famosa e orgulhosa do seu passado, em todo o mundo".

Museu de Cabul vira história

A mesma sanha destruidora caiu sobre o Museu de Cabul.

A entrada do complexo era ladeada por leões de pedra, semelhantes aqueles que adornam a entrada da Biblioteca Pública de Nova York. Os leões foram destruídos com explosivos e, atualmente, duas pesadas metralhadoras estão colocadas no seu lugar. Restam somente alguns pedaços do telhado do prédio sem janelas que abrigava o museu. A instituição já chegou a possuir o mais completo acervo de história da Ásia Central. Várias das suas peças remontavam à pré-história.

O curador do museu, Yehya Mohibzada, se recorda de quando os talebans chegaram com martelos e pedras, gritando, "Alá é grande!", e começaram a destruir os tesouros do museu. A barbárie durou três dias, tendo sido liderada pelo mulá Qadradullah Jamal, ministro da Cultura do Taleban.

"O material não era muito resistente. Não foi difícil destruí-lo", conta Mohibzada.

A primeira obra a ser destruída foi a estátua de Kanishka, o rei Kushkani que governou no século 2 uma região que se estendia do norte da Índia à Ásia Central. A estátua era a única representação física existente do rei.

Mohibzada calcula que cerca de 70% da coleção tenha sido destruídas e outros 20% tenham se perdido ou desaparecido. Há cerca de 2,5 mil peças que eles esperam poder restaurar. No momento, as peças estão embrulhadas em um grosso papel marrom, etiquetado e numerado para os reparos e a restauração.

A confusão prevalecente no Taleban impediu que alguns dos trabalhos do museu fossem destruídos. Em uma sala dos fundos se amontoam dezenas de vasos antigos, coletados pelo Taleban para serem vendidos no Paquistão.

Algumas peças raras do museu foram retiradas em sigilo e ocultas. Elas continuam escondidas, como parte de um bem sucedido esforço de uma guerrilha cultural composta de artistas, curadores, funcionários do museu e observadores simpáticos à causa, que salvaram parte da herança afegã. "Não queremos explicar como eles conseguiram retirar os itens daqui, mas posso garantir que as peças estão em lugar seguro", afirma Mohibzada.

Ignorância do Taleban

Tal esforço foi muitas vezes facilitado pela ignorância do Taleban. Por exemplo, membros do corpo de funcionários do museu viraram para a parede algumas molduras com trabalhos budistas elaborados, deixando a parte de trás dos quadros exposta. A seguir, esses funcionários rabiscaram alguns versos islâmicos nas costas dos trabalhos e alegaram que se tratava de raros tratados islâmicos.

Um esforço mais elaborado para salvar a coleção foi realizado na Galeria Nacional.

A instituição foi inaugurada em 1983, com 200 quadros. Esse número aumentou para 800, no início da guerra civil, em começos da década de 90. Cerca da metade desse acervo foi destruído durante a guerra civil. O Taleban destruiu aproximadamente 200 outros quadros que traziam pinturas de animais e do corpo humano. A seguir a guerrilha cultural entrou em ação. Yousef Asefie, um funcionário da galeria, salvou a maior parte dos trabalhos.

Em um esforço concentrado de três meses, trabalhando cerca de 90 minutos por dia, Asefie, um artista, pintou aquarelas sobre 122 pinturas de seres humanos e de animais. Quando os quadros tinham uma cobertura de vidro, ele simplesmente pintava as suas aquarelas sobre o vidro, cobrindo as figuras satanizadas pelo Taleban. Caso contrário, a aquarela era aplicada diretamente sobre a pintura a óleo original, transformando mulheres em flores, pescadores em pedras e água, e gansos em lilases.

"Eu levava os quadros até uma outra sala da galeria, sob o pretexto de fazer trabalhos de restauração", conta Asefie, de 40 anos.

"Fiquei amedrontado quando o Taleban examinou os quadros, mas eles eram incapazes de identificar a diferença nas pinturas. Eu tremia de medo". Conta Asefie. Caso o seu estratagema fosse descoberto, ele teria sido executado.

Agora, Asefie passa os dias restaurando os quadros danificados e removendo as aquarelas que aplicou sobre as obras de arte.

Mas resgatar outros setores da história perdida do Afeganistão não será uma tarefa tão simples. Quase todo invasor ou comandante de batalha local levou a sua parte da pilhagem. Mas a história também fornece inspiração. "Esta nação sempre foi capaz de se reconstruir", diz Raheem Makhdoom, ministro da Cultura e Informação. "Quando Gêngis Khan atacou Herat, ele arrasou aquela que era provavelmente a melhor e culturalmente mais rica cidade do mundo. Ele destruiu completamente a cidade, queimando tudo e matando a todos. Somente 16 moradores sobreviveram, porque estavam fora da cidade. Eles retornaram e a reconstruíram, e Herat passou por uma renascença das artes plásticas, da música e da poesia.

"Vamos começar do zero", afirma Makhdoom. "Temos que resgatar a confiança nacional. Precisamos fazer tal coisa. Eu quero fazê-lo".

Tradução: Danilo Fonseca

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