Curso prepara jornalistas para enfrentar os perigos da guerra

Gregg Zoroya

Woodstock, Virginia -- Tudo sai errado no momento em que tento tirar o capuz negro que cobre a minha cabeça. Enquanto estou deitado com a face contra o solo, a aposta que faço é que o som dos veículos retrocedendo na pista de cascalho indique que os seqüestradores partiram.

Mas o ato de levantar cuidadosamente o capuz com a minha mão esquerda gera uma reação instantânea.

Primeiro, um tiro. Depois, mãos grosseiras empurram a minha cabeça de volta para baixo e colocam o capuz novamente sobre ela. Uma voz sussurra ao meu ouvido.

"Você está morto!".

Eu permaneço quieto após a punição, tomado por uma sensação de impotência, sem saber o que vem a seguir, os olhos encarando uma grande escuridão. O único alívio é saber que tudo não passa de um curso sobre como agir quando se é seqüestrado. O curso é dirigido a jornalistas, e ministrado por ex-membros do Corpo Real de Fuzileiros Navais Britânicos.

Sinto ainda um pouco de vergonha -- sabendo que estou aqui, no Vale Shenandoah, fingindo passar por aquilo que Daniel Pearl, repórter do The Wall Street Journal realmente experimentou, com um resultado terrível, no Paquistão, apenas algumas semanas antes.

"Eu pensava mais no incidente envolvendo Pearl do que em qualquer outra coisa", afirma o aluno do curso, Brian Winter, 24, um correspondente da Reuters que espera ser enviado para fazer cobertura em áreas de guerra em um futuro próximo. "É apavorante ficar sentado com uma máscara negra sobre a cabeça e pensar que, na vida real, esses caras podem realmente ter a intenção de cometer uma violência".

"Algo como isso", Winter acrescenta com um toque de esperança, referindo-se ao curso incomum que estamos fazendo, "talvez aumente um pouco a sua possibilidade de ficar vivo".

Especialistas que monitoram e defendem a liberdade de expressão em todo o mundo ficaram chocados com as conseqüências letais sofridas pelos jornalistas que cobrem a guerra contra o terrorismo: nove jornalistas foram mortos em seis meses. Joel Simon, vice-diretor do Comitê de Proteção aos Jornalistas, com sede em Nova York, diz que esse número "é, sem dúvida nenhuma, extremamente alto".

E, na última quarta-feira, em uma outra guerra, o conflito entre israelenses e palestinos, no Oriente Médio, o fotógrafo italiano Raffaele Ciriello foi morto a tiros por tropas de ocupação israelenses.

Tentando responder, pelo menos de forma limitada, ao assassinato de tantos jornalistas, organizações noticiosas têm enviado números cada vez maiores de funcionários para cursos como esse, ministrados pela firma Centurion Risk Assessment Services, com sede no Reino Unido.

Turmas maiores

Paul Rees, de 42 anos, que fundou a empresa sete anos atrás, afirma que o tamanho das turmas aumentou desde o 11 de setembro em mais da metade. Antes, cada turma tinha uma média de 15 jornalistas. Após os atentados, esse número subiu para algo em torno de 25. O currículo é variado, incluindo treinamento em guerra química e biológica e direção de automóveis 4x4. Esta matéria que estou fazendo tem a duração de uma semana e inclui táticas de sobrevivência a seqüestros, evasão de perigos mortais no campo de batalha e o aprendizado de técnicas para o tratamento de ferimentos que podem causar risco de vida.

"Nove jornalistas mortos na cobertura de um conflito em um período de tempo tão curto é algo que se constitui em um fenômeno notável. Para fins comparativos, basta lembrar que 60 jornalistas morreram no decorrer de toda a Guera do Vietnã (entre 1954 e 1975)", afirma Susan Bennet, diretora do Freedom Forum Journalists Memorial, em Arlington, Virginia, onde quase 1,4 mil jornalistas que morreram no exercício da profissão nos últimos dois séculos têm os seus nomes listados.

"Algo como isso poderia ajudar", diz Bennett. "Até agora, a tendência foi no sentido de assumir que, caso um jornalista seja voluntário ou deseje pegar esse tipo de trabalho arriscado, ele já contaria automaticamente com a preparação para a tarefa".

A Centurion oferece cursos de cinco dias, uma vez por mês, aqui em Virginia, em uma velha fazenda de propriedade da Academia Militar Massanutten, uma instituição privada. O curso também é ministrado na Inglaterra, semanalmente. O preço é de US$ 2.100 por jornalista (algo em torno de R$ 4.927).

A lista de clientes de Rees inclui o The New York Times, o The Washington Post, a Associated Press, a ABC News e a Time Magazine. Quando dois jornalistas do USA Today fizeram o curso nas instalações de Virginia, seis dos sete outro alunos eram da Reuters. Dentre os quatro jornalistas mortos a tiros em 19 de novembro do ano passado, na estrada que liga Jalalabad a Cabul, no Afeganistão, dois eram da Reuters.

"Hoje em dia a vida não é mais segura para todos", afirma o instrutor-chefe, Tim Hollera, no primeiro dia de aula.

Portanto, para aqueles de nós que manuseiam uma câmera ou escrevem uma história para ganhar o pão de cada dia, há novas lições a ser aprendidas. Por exemplo, saber como um fuzil AK-47, a arma predileta no Afeganistão, dispara projéteis à velocidade de 2.600 km/h. E, caso um colega seja atingido por uma dessas balas de altíssima velocidade e você encontrar o pequeno ferimento de entrada do projétil, procure rapidamente pelo buraco de saída. É quase certo que você o encontrará e que ele será grande e devastador. Você precisará aplicar rapidamente pressão sobre ele, para conter a hemorragia.

Aprendemos ainda como fósforo incandescente no interior do corpo só pode ser extinto privando-o de oxigênio (por meio da imersão na água). Caso contrário ele simplesmente vai reacender e continuar queimando. Também aprendemos como o ar que passa através das aletas de estabilização de um projétil de morteiro de 81 mm produz um barulho semelhante a um assovio -- o que talvez seja o único aviso que você receba sobre a explosão iminente do artefato. Ou ainda porque as pequenas minas terrestres espalhadas pelo Afeganistão (entre as pelo menos 650 mil minas que ainda estão instaladas no país) são apelidadas de "minas borboletas". Elas parecem esvoaçar quando são despejadas por uma aeronave, afirma o instrutor Jan Hosking. "São como folhas de plátano caindo de uma árvore".

No decorrer da semana de instrução, nós às vezes assistimos a aulas em uma sala, com o olhar turvo de tanto decorar tipos de armamentos e métodos de combate elaborados para matar ou incapacitar um ser humano. Aprendemos que os coletes à prova de bala disponíveis no mercado são, ou pesados e desajeitados, ou leves e ineficientes. E também que quase todos os dias são criadas novas munições capazes de perfurar até os mais eficientes coletes.

"Não podemos dizer aos nossos alunos que, caso ajam de uma forma determinada em uma certa situação, tudo vá dar certo", explica Holleran. "Mas, se conseguirmos desenvolver uma certa consciência de treinamento, se os jornalistas forem capazes de fazer um certo planejamento antes de realizarem seus trabalhos, então creio que teremos atingido o nosso objetivo. A pergunta é, será que vale a pena arriscar a vida por uma determinada tarefa? Bem, isso é o que vocês terão que aprender a responder por si próprios".

Paradoxalmente, o curso não desencoraja instantaneamente os alunos.

Denise Duclaux, de 29 anos, que cobre Wall Street para a Reuters, diz que o curso faz com que a cobertura de matérias no estrangeiro seja ainda mais estimulante.

"Eu estaria mentindo se dissesse que o curso não faz com que eu sinta um certo medo de trabalhar em tal ambiente", confessa Evelyn Sayan, de 34 anos, que trabalha na editoria da Reuters Television, e que fez uma viagem a trabalho ao Paquistão logo após o 11 de setembro. "Eu ainda voltaria correndo. É claro que dou valor à minha vida. Mas também dou valor àquilo que é importante na minha vida, que é o meu trabalho".

Simon, do Comitê de Proteção aos Jornalistas, diz que os repórteres simplesmente encaram a guerra como algo muito importante para ser evitado.

"Eles estão sempre dispostos a cobrir as guerras", afirma Simon. "E fazem tudo que podem para cobri-las de forma segura, ou, pelo menos, da forma mais segura possível. Creio que todos entendem que não é possível eliminar os riscos, que esses riscos sempre estarão presentes, mas que, dentro de uma certa escala, vale a pena correr um risco calculado, já que pode estar em jogo uma matéria crítica".

Além dessas sessões de instrução sobre seqüestros, há treinamento de campo sobre uma variedade de riscos. Guardas belicosos em barreiras militares fazem com que nos atrasemos para chegar a uma entrevista marcada. Subimos uma trilha íngreme em uma colina cheia de esconderijos de franco-atiradores e armadilhas letais, e tentamos localizar esses perigos. (Um colega do USA Today foi considerado "morto", por ter tropeçado no fio que teria disparado uma dessas armadilhas). Tivemos que inspecionar um Ford Explorer com duas bombas ocultas (achamos apenas uma). E aprendemos ainda como rastejar para fugir do fogo cruzado.

Maxine collins, de 28 anos, operadora de câmera da ITN Broadcasting, de Londres, lidera uma equipe de estudantes encarregada de estabilizar duas vítimas de acidentes automobilísticos. Ela repete o mantra médico que tivemos que recitar durante toda a semana -- passagem do ar, respiração, circulação. No último dia, fomos com nossas sacolas de ataduras em um campo de refugiados cheio de "vítimas de explosões". Fazendo o papel de vítimas, os instrutores jaziam no chão, cobertos por horríveis ferimentos simulados com poliuretano e sangue de mentira espalhado pelo corpo. Eles gritavam como se estivessem realmente agonizando.

Após a aula sobre seqüestro, os repórteres reclamaram de que tiveram que lutar para respirar com as máscaras sobre a cabeça. Os instrutores aproveitaram a oportunidade para ensinar uma outra lição. O gás carbônico exalado se acumula no interior das máscaras. Segundo eles, sempre que possível coloque a boca junto ao capuz e exale através do tecido, a fim de conseguir um pouco de ar fresco.

Perda de um jornalista
A morte de Pearl nas mãos de radicais muçulmanos, confirmada alguns dias antes do início do curso, foi uma espécie de nuvem negra que pairou sobre as nossas cabeças durante essa parte do curso. Algumas das dicas dadas pelos instrutores soavam quase que como fatalistas, como se fossem pequenos fiapos de esperança.

Tente estabelecer uma conversa com os seqüestradores, disse Hosking. Se não tiverem sucesso, deixem que se passe um tempo e tente de novo.

"Sei que não é algo de agradável para ser mencionado neste momento em particular, mas é bem mais difícil que alguém que te conhece e goste de você, pelo menos um pouco, te mate", afirmou.

Se você decidir fazer algum movimento -- como foi o meu caso, quando tentei remover o capuz -, ensina Hosking, faça-o bem devagar, com gestos pequenos, que não chamem atenção.

"Pequenos movimentos, ou pequenos 'crimes' aos olhos dos seqüestradores, causam pequenas punições", diz ele. "Se alguém te der uma coronhada na cara com um rifle, a sua face poderá ser esmagada".

Dê valor a pequenas vitórias, aos pequenos atos de desafio: manter algo de valor escondido dos seqüestradores -- um anel de casamento ou óculos de leitura; ou se comunicar de alguma forma com outros reféns. Alguns membros de nossa turma fizeram isso tossindo, ou, quando enfileirados juntos, com as mãos nos ombros uns dos outros, beliscando o colega.

"São essas pequenas coisas que vão permitir que você se recupere e volte a assumir o controle de sua vida", afirma Hosking. "As pessoas que sobreviverem a tal experiência serão indivíduos que recuperaram a sua dignidade da melhor forma que puderam. Aqueles que não sobrevivem são os que perdem toda a esperança".

Simon e outros dizem que é difícil de avaliar se a opinião pública quanto à imprensa, que é historicamente negativa, sofreu alguma alteração com a cobertura da guerra e as mortes de tantos jornalistas em um período de tempo tão curto. Certamente, segundo ele, os leitores e telespectadores estão mais conscientes quanto aos perigos da profissão.

Em janeiro, na base militar norte-americana de Candahar, no Afeganistão, um capitão do exército dos Estados Unidos, ao receber um grupo de jornalista que chegara para assistir a uma declaração à imprensa, advertiu a todos para não reclamarem quanto ao ritmo glacial das inspeções de segurança. Ele disse aos repórteres que os soldados tinham ordens para revistar com calma todos os recém-chegados.

"Aqui, os alvos não são vocês", esbravejou. "Os alvos somos nós". Os jornalistas deram de ombros. Mas, minutos depois, o capitão se desculpou. "Não quis sugerir que todos vocês não sejam alvos", disse ele, reconhecendo o número de baixas entre os jornalistas, que, na época, estava na casa dos oito mortos. "O que falei não é verdade. Vocês também podem ser alvos".

Tradução: Danilo Fonseca

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