Escândalos sexuais da Igreja estimulam discussão sobre celibato

Cathy Lynn Grossman

Acusações de que a liderança da Igreja Católica dos EUA teria sido incapaz de impedir que crianças sofressem abusos sexuais de padres estão sendo manchetes de jornais de todo o país. Enquanto isso, cardeais de Boston à Califórnia divulgam nomes de padres acusados há décadas.

O jornal Hartford Courant afirma que o cardeal de Nova York, Edward Egan, permitiu que 17 padres acusados de cometer abuso sexual continuassem exercendo as suas atividades paroquiais durante anos, enquanto ele era arcebispo de Bridgeport, em Connecticut, de 1988 a 2000. O jornal mencionou documentos de tribunais envolvendo o caso de 12 paroquianos que acusaram um padre de tê-los molestado, estuprado e espancado.

Segundo o Courant, a diocese teria pago uma quantia não especificada para abafar as acusações contra seis padres, em março do ano passado.

Em Boston, o cardeal John Law é criticado à medida que os promotores examinam acusações contra vários padres, muitas delas sepultadas depois de terem sido feitos acordos secretos com as vítimas.

No final da semana passada, o jornal oficial da Arquidiocese de Boston, The Pilot, questionou se a natureza do celibato sacerdotal deveria ser discutida.

Segundo os teólogos, as controvérsias a respeito de padres que romperam os seus votos em condutas sexuais criminosas, sexo consensual com adultos ou escolhendo abandonar o sacerdócio para se casar, têm centenas de anos. Os dissidentes do catolicismo há muito tempo pedem a Roma que reavalie a exigência do celibato.

Os ensinamentos católicos sobre o celibato afirmam que o sacerdócio se constitui em uma vida de castidade e de dedicação a servir o povo em nome da Igreja. Alguns dizem que tal prática se baseia em passagens do Novo Testamento, tais como Coríntios 7:32, onde Paulo escreve: "Um homem solteiro se preocupa com as questões do Senhor -- e em como pode agradar o Senhor. Mas um homem casado se preocupa com as questões deste mundo -- em como pode agradar a esposa -- e os seus interesses estão divididos".

No entanto, o papa Paulo 6º escreveu na sua encíclica de 1967, Sacerdotalis Caelibatus, que o Novo Testamento "não exige abertamente o celibato dos ministros sagrados" e que Jesus não exigiu a observância de tal prática por parte dos apóstolos.

Conforme o cristianismo buscava estabelecer uma identidade teológica diferente dos judeus e dos pagãos, ele introduziu a idéia de que o sacerdócio seria uma graça divina, e não uma distinção de classe passada de pai para filho.

O celibato se tornou pela primeira vez uma parte da disciplina pregada pela Igreja Católica em 306, quando um conselho local em Elvira, na Espanha, "proibiu bispos, padres, diáconos e outros ministros de ter esposas". Durante o papado de São Gregório 1º (590-604), ele criou a forma e o estilo do Sumo Pontífice que prevaleceu durante a Idade Média, incluindo o forte apoio ao celibato clerical, segundo o Almanaque Católico.

Por volta do século oito, após a cisão entre a Igreja Católica do Ocidente e a Igreja Ortodoxa do Oriente, a igreja oriental passou a permitir o casamento, mas proibiu que os sacerdotes voltassem a se casar no caso da morte da esposa. No Ocidente, a norma do celibato foi consolidada por volta do século 12, sendo adotada como disciplina oficial no Conselho de Trento, em 1563.

Nos últimos séculos, segundo o Almanaque Católico, "um número de clérigos protestantes e anglicanos episcopais que se converteram e que, a seguir, foram ordenados na Igreja Católica, receberam permissão para continuar casados".

A encíclica de 1967 do Papa Paulo 6º reiterou os argumentos sobre uma "grande questão" que há muito ocupa as nossas mentes. Ele levantou -- e questionou em muitos dos seus ensinamentos oficiais -- muitos pontos sobre o celibato que, atualmente, ainda são objeto de polêmica: "Seria possível e apropriado nos dias de hoje observar tal obrigação? O tempo não teria rompido os laços entre o celibato e o sacerdócio na igreja?".

Décadas depois, essas questões continuam atuais. The Pilot é o veículo mais recente a debater o assunto. Mas a discussão nos Estados Unidos e em outros países (os jornais católicos da Irlanda fizeram um mesmo questionamento em 1995) não podem fazer muito mais do que limitar-se a debater o problema. O papa é a autoridade máxima e não existe algo como "votação" na doutrina católica.

Tradução: Danilo Fonseca

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