Cientistas buscam novos planetas e vida estraterrestre

Dan Vergano

E.T. -- O Extra-Terrestre está de volta às telas de cinema, em um momento no qual os cientistas afirmam que a detecção de planetas distantes compatíveis com a vida alienígena parece a cada dia ser um acontecimento mais provável.

Uma nova era na história da exploração humana começou na década passada, quando os cientistas descobriram quase 80 planetas que não pertencem ao nosso sistema solar orbitando em torno de estrelas próximas. Até o momento, todos eles são massivos "gigantes gasosos", planetas cujas dimensões são comparáveis às de Júpiter. A maioria não gera otimismo quanto às chances de serem capazes de abrigar a vida. Segundo os cientistas, tais planetas são ou muito quentes, ou muito frios ou muito grandes para que a vida prospere em sua superfície.

Mas os astrônomos estão se aproximando da descoberta de planetas como a Terra, dotados daqueles elementos que podem ser as condições fundamentais para a existência da vida em outro planeta. Alguns deles podem possuir atmosferas que contenham dióxido de carbono, água e metano que, segundo os cientistas, seriam os precursores dos ingredientes da química orgânica que foi fundamental para a vida na Terra. Estão sendo projetadas sondas espaciais que vão detectar indícios da vida, incluindo o ozônio e o óxido nitroso, que são produzidos em grandes quantidades por organismos vivos.

"Como é legal viver em uma década como esta!", exclama o astrônomo Arsen Hajian, do Observatório Naval dos Estados Unidos, que faz parte de um grupo que trabalha para aperfeiçoar um método de detecção de planetas que possibilite a descoberta de astros menores. "Estamos discutindo certos trabalhos em astronomia que até pouco tempo atrás provocariam risadas nos meios científicos".

Hollywood está prestando atenção nos acontecimentos.

"Espero estar viva quando for encontrado um planeta com algum tipo de vida", afirma Kathleen Kennedy, produtora do relançamento de E.T., e do filme Signs, no qual Mel Gibson investiga misteriosos círculos que surgem em plantações. Com a clonagem e a busca por vida alienígena, "a lacuna entre a realidade e a ficção com certeza está se estreitando", afirma Kennedy.

Ao planejar o seu filme de 1982, Kennedy e o diretor Steven Spielberg se reuniram com cientistas da Nasa para discutir qual seria a provável resposta oficial a chegada de seres alienígenas. Essa colaboração determinou trechos do filme, incluindo a cena na qual pesquisadores com trajes espaciais entram em uma casa de subúrbio lacrada, em busca do extraterrestre.

Os produtores do filme também perguntaram aos cientistas qual seria o tipo de planeta para o qual E.T. "telefonaria para casa". Eles acabaram ficando com um "pequeno planeta verde", habitado por "pequenos plantadores de cogumelos", diz Kennedy. A biologia de E.T. é um reflexo de tal cenário. O diminuto alienígena "é biologicamente mais próximo às plantas do que a um ser humano".

"Não estamos fazendo uma continuação do filme", diz ela, mas se a idéia fosse essa, os cineastas poderiam contar com algo mais do que a simples especulação durante as próximas décadas.

"A existência de vida alienígena é muito mais provável fora do nosso sistema solar do que em Marte", afirma o biólogo Norman Pace, da Universidade do Colorado, que falou recentemente com outros cientistas sobre o assunto em um seminário da Associação Norte-Americana para o Avanço da Ciência, em Boston.

Pace sugere que a atual ênfase dada pela Nasa à exploração voltada para a descoberta de traços de água em Marte e, um dia, para a sondagem da crosta gelada de Europa, uma das grandes luas de Júpiter, provavelmente não revelarão a existência de vida. Ambos os locais parecem ser muito inóspitos, diz ele, e nenhum dos dois dá sinais de que as suas condições naturais passem por alterações que os tornem mais hospitaleiros.

Esta é uma das características marcantes da vida na Terra, que passou por mudanças tais como a substituição de uma atmosfera rica em metano para uma outra, rica em oxigênio gerado pela fotossíntese das plantas e pelo desenvolvimento de uma camada protetora de ozônio derivada da reação do oxigênio com a luz do sol.

Pace argumenta que a tarefa de encontrar planetas semelhantes à Terra que contenham vida extraterrestre parece bem plausível à luz das recentes descobertas de planetas fora do sistema solar. Devido ao fato de as criaturas vivas provavelmente modificarem o seu ambiente para torná-lo mais hospitaleiro, um sinal de vida em outro sistema estelar poderia consistir de algo como a existência de quantidades surpreendentes de ozônio na atmosfera de um planeta próximo.

Mas a descoberta de ozônio extraterrestre é algo que terá que esperar até que uma sonda de detecção planetária seja lançada no ambiente gelado do espaço cósmico. A atmosfera terrestre e o calor de fundo atrapalham a detecção do espectro deste gás.

No segundo semestre do ano passado, cientistas anunciaram o primeiro sucesso na análise da atmosfera de um planeta localizado em outro sistema estelar. Utilizando o Telescópio Espacial Hubble, uma equipe chefiada por David Charbonneau, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, se concentrou na estrela HD 209458, que fica a 153 anos-luz da Terra. (Um ano-luz equivale a cerca de 9,46 trilhões de quilômetros).

A equipe de pesquisadores esperou até que um planeta recentemente descoberto, que tem cerca de 70% da massa de Júpiter, passasse em frente à estrela, alterando minimamente a sua luminosidade. Na edição de novembro do Jornal de Astrofísica, a equipe anunciou que a alteração luminosa demonstrava haver uma quantidade de sódio ligeiramente menor do que a esperada na atmosfera do planeta, o que seria uma possível indicação da existência de nuvens altas. A experiência se constituiu na primeira análise bem sucedida da composição química de um planeta extra-solar.

Este planeta da HD 209458 se destaca entre as recentes descobertas planetárias por ser o único cuja luz foi diretamente detectada pelos astrônomos. Na maioria das vezes, os outros planetas são conhecidos somente através do chamado "método da velocidade radial", que mede com precisão as oscilações de uma estrela que está ligada pela força gravitacional a um ou mais planetas.

Por volta de 2004, equipes concorrentes esperam refinar o método de velocidade radial de forma a detectar oscilações nas estrelas com velocidades menores do que 11,3 km/h, chegando a medidas inacreditavelmente precisas que lhes permitiriam encontrar planetas "gigantes de gelo" com as dimensões de Netuno e Urano, mas ainda assim cerca de 16 vezes maiores do que a Terra.

Uma limitação da técnica de velocidade radial é que ela requer que os usuários aguardem que seja completada pelo menos uma órbita inteira de um planeta antes que os astrônomos sejam capazes de confirmar a sua existência. No nosso sistema solar, Júpiter completa uma órbita em torno do Sol a cada 11,86 anos. Com sorte, tais planetas seriam descobertos por volta de 2006 , através de várias pesquisas.

A descoberta de um planeta gigante gasoso em uma órbita estável como a de Júpiter poderia ser algo de útil para a busca por vida alienígena. Os astrônomos suspeitam que tal planeta poderia proteger astros menores, mais próximos à estrela, da ação de cometas com o potencial de destruir toda a vida em corpos como a Terra.

Quando quer que os cientistas consigam descobrir um planeta semelhante à Terra, eles imediatamente começarão a observar a sua composição química, em busca de sinais de vida. A clorofila, utilizada pelas plantas na fotossíntese, poderia ser detectável na atmosfera de um planeta por meio da utilização de interferômetros, segundo Wesley Traub, do Centro de Astrofísica Harvard Smithsonian. "A própria água oceânica produz um característico sinal de reflexos azuis, visto na Terra, que também seria possivelmente detectável".

Os astrobiólogos há muito tempo argumentam que a água líquida é o menos complicado ponto de partida para a busca da vida.

Até o momento, tivemos que nos contentar com os filmes de ficção científica, mas este panorama pode mudar em um futuro próximo. "Não estou esperando encontrar o E.T.", afirma Kennedy. "Mas seria interessante descobrir algo com o qual nos pudéssemos relacionar. Isso seria algo extremamente empolgante".

Para encontrar planetas fora do Sistema Solar que sejam menores do que os gigantes semelhantes a Júpiter e Saturno, descobertos até o momento, uma série de técnicas baseadas em sondas espaciais está sendo considerada. Durante a reunião da Sociedade Astronômica Norte-Americana, em janeiro, foram discutidas as seguintes técnicas:

Detecção aprimorada de Trânsito: analisa a luz emitida pelas estrelas para descobrir quais delas sofrem uma minúscula diminuição luminosa causada por um planeta que passe à sua frente. Em dezembro, a Nasa anunciou planos para lançar a missão Kepler em 2006, uma sonda de detecção de trânsito planetário que será capaz de examinar cerca de 100 mil estrelas próximas durante quatro anos. A agência espacial calcula que a missão pode revelar "centenas" de astros do tamanho da Terra em órbitas semelhantes à do nosso planeta.

Astrometria: mede a oscilação de um extremo a outro causada nas estrelas por companheiros planetários. A sonda Missão de Interferometria Espacial (SIM), que deve ser lançada ao espaço em 2009, poderia utilizar essa técnica para localizar planetas sete vezes maiores do que a Terra em um raio de 33 anos luz. Esses objetos seriam bem menores do que os planetas extra-solares detectados até o momento, que têm dimensões semelhantes à de Júpiter.

Detecção direta: combinar imagens de telescópios de uma estrela distante pode permitir aos astrônomos eliminar a luz da estrela de uma imagem, em uma técnica denominada interferometria, fazendo com que apenas a luz dos planetas aparecesse. No espaço, a missão de 2011, Descobridor Terrestre de Planetas, composto de um conjunto de quatro telescópios, deverá ser capaz de esclarecer definitivamente se as cerca de 125 estrelas que estão dentro de um raio de 50 anos luz da Terra possuem ou não planetas semelhantes à Terra.

"Quando falamos em encontrar planetas de tamanho semelhante ao da Terra, através de várias dessas técnicas, é bom lembrar que ainda não conseguimos que elas funcionassem tão bem no laboratório quanto precisam funcionar no espaço", afirma o astrônomo Arsen Hajian, do Observatório Naval dos Estados Unidos, em Washington, D.C. "Com relação a muitos desses métodos, o processo físico para a detecção de planetas menores pode se constituir em uma tarefa muito difícil".

Na superfície terrestre, a conjugação dos espelhos de vários telescópios individuais em um único interferômetro com cerca de mil metros quadrados pode capacitar os astrônomos a descobrir um planeta de tamanho similar ao da Terra orbitando uma estrela próxima, afirma Roger Angel, da Universidade do Arizona em Tucson.

Para atingir os mesmos resultados, telescópios terrestres podem ser maiores e mais baratos do que aqueles enviados ao espaço -- em alguns casos, muito mais baratos. Trabalhando no Laboratório de Jato-Propulsão, David Charbonneau, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, em Pasadena, planeja utilizar uma objetiva de 300 milímetros de uma câmera Leica, comprada em lojas de fotografia, que custa cerca de US$ 6 mil (aproximadamente R$ 14 mil), instalada no Observatório Palomar, próximo a San Diego, para procurar por gigantes gasosos que passem em frente a estrelas próximas. O grande campo visual da lente permite ao aparato medir a luz de várias estrelas ao mesmo tempo, ao invés de analisar umas poucas estrelas de forma mais precisa, como o faz um telescópio mais tradicional.

O artefato de Charbonneau -- que teve um custo total de US$ 100 mil (aproximadamente R$ 234 mil) -- vai trabalhar em conjunto com telescópios similares nas Ilhas Canárias e no Observatório Lowell, do Arizona.

"Nos próximos dois ou três anos, esperamos localizar pelo menos cerca de 20 planetas", afirma Charbonneau.

Tradução: Danilo Fonseca

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