Apesar das acusações, não há prova de sabotagem contra "Uma Mente Brilhante"

Andy Seiler

Alguém está fazendo jogos mentais com o filme Uma Mente Brilhante.

Boatos relativos a uma "campanha de difamação" contra o filme Uma Mente Brilhante têm circulado há semanas. Os grandes jornais, incluindo o Los Angeles Times, o The New York Times e o The Washington Post publicaram matérias sobre o assunto. MikeWallace fez uma menção casual a esses boatos no programa "60 Minutes", quando entrevistava John e Alicia Nash, os personagens reais que, no filme, são interpretados pelos atores ganhadores do Oscar, Russel Crowe e Jennifer Connely.

No entanto, se existe alguma evidência sobre tal campanha difamatória, ninguém ainda a trouxe diretamente a público. Embora muita gente acredite que realmente exista tal campanha, todos aqueles que repetem a estória admitem que não contam com provas claras. A Universal Pictures, o estúdio que lançou Uma Mente Brilhante, afirma possuir evidências, mas se recusa a divulgar nomes.

Tudo começou quando alguns artigos recentes chamaram atenção para as diferenças entre o roteiro do filme e a história real do matemático esquizofrênico John Nash. (Artigos similares foram publicados quando o filme foi lançado em dezembro). As matérias falaram sobre os mesmos fatos: que o primeiro filho de Nash e a mãe do garoto, assim como a suposta bissexualidade do matemático, não são mencionados no filme, embora apareçam no livro no qual o filme se baseia. Um artigo altamente criticado, publicado no site Drudge Report, fala sobre comentários anti-semitas feitos por Nash, sem mencionar que na época ele estava tomado pela esquizofrenia.

Stacey Snider, presidente da Universal Pictures, disse que um indivíduo externo ao círculo de produção deve ter plantado os artigos, a fim de lançar uma sombra sobre o filme e prejudicar as suas chances de ganhar o Oscar. "O momento em que foram feitas essas acusações e a sua orquestração tiveram de ser calculados", disse Snider ao jornal Hollywood Reporter. "Não é algo que possa ter sido feito acidentalmente".

Snider se recusa a tecer comentários sobre o assunto. Mas a Universal Pictures disse que há evidência de "uma campanha negativa orquestrada contra Uma Mente Brilhante", acrescentado: "Não pretendemos tornar públicos os detalhes sobre tal campanha. Não vamos acusar nenhum membro da mídia, a despeito de sua participação nessa campanha negativa".

Aqueles que têm repetido o mantra da "campanha orquestrada" apontam os dedos acusadores para vários estúdios, sem, entretanto, citar evidências.

Sharon Waxman, que escreveu sobre uma "campanha difamatória" contra o filme, no The Washington Post, afirma que um outro estúdio estaria "plantando as estórias", mas acrescenta que não baseia o seu artigo em provas concretas. "Fiz uma inferência", afirma Waxman. "Sempre faço isso. Em um tribunal, eu jamais poderia provar as minhas alegações". Peter Kaufman, editor-assistente do Post, afirma: "Sustentamos inteiramente a nossa matéria".

Mike Wallace, de "60 Minutes", também acredita na teoria conspiratória. "Tenho todos os motivos para acreditar que essa campanha de sussurros foi desencadeada. Mas não quero citar nomes". Wallace afirma que não teve acesso às evidências em si, mas diz que confia nas suas fontes na indústria cinematográfica.

Tanto os jornalistas responsáveis pelas estórias que colocaram a teoria em movimento como os estúdios que competem contra Uma Mente Brilhante estão fazendo um grande alarido.

"Todos dizem que trata-se de uma campanha de difamação, e isso me deixa boquiaberta", afirma a colunista de fofocas da NSNBC, Jeannette Walls, que escreveu um artigo sobre a mãe do primeiro filho de Nash. "Escrevi o texto porque achei que ele era realmente interessante. Fim de papo. Ninguém, de nenhum dos estúdios concorrentes, nunca me passou uma informação sequer sobre Uma Mente Brilhante ou outros filmes que disputam o Oscar".

"Há um pequeno problema com a teoria conspiratória da Universal: tudo o que escrevi estava no livro. Alguém deveria ter mostrado os fatos do livro ao diretor Ron Howard antes que eles passassem para o estágio de produção".

Outros que buscam uma conspiração não foram capazes de apresentar nenhuma evidência. "Não existem provas de que haja uma campanha difamatória contra Uma Mente Brilhante", diz Tom O'Neil, autor do livro Movie Awards. "Eu vasculhei a grande mídia, da Associated Press até a CNN, a MSNBC e a Entertainment Weekly, e lhes perguntei se eles foram contactados por alguns dos estúdios rivais sobre Uma Mente Brilhante. Todos disseram categoricamente que não".

Todos os quatro estúdios que competem contra a Universal na corrida pelo Oscar dizem que não participaram de nenhuma campanha de difamação.

"O fato de se perpetuar essas alegações se constitui, por si só, em uma difamação", afirma Matthew Hiltzik, editor da Miramax, que lançou o filme Entre Quatro Paredes, candidato ao Oscar.

"Acusar alguém, sem provas, de ter feito uma campanha negativa é algo que indica a falta de ética e o desespero de certos estúdios", critica Jeffrey Godsick, da 20th Century Fox, que lançou o concorrente ao Oscar Moulin Rouge -- Amor em Vermelho.

A USA Films e a New Line Cinema -- que, distribuíram, respectivamente, Assassinato em Gosford Park e O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel -- também negam ter orquestrado alguma campanha contra Uma Mente Brilhante.

"Essa boataria saiu de controle", diz Russel Schwartz, da New Line. "Nós seríamos os maiores suspeitos, mas isso nunca foi sugerido por ninguém".

O'Neil, especialista no Oscar, e conhecedor da falta de escrúpulos em campanhas do passado, está surpreso com o fato de essa estória conspiratória ter conseguido achar sustentação. "Nunca vi um grupo de gente tão cínica, tão ansiosa para acreditar em algo sem fundamentos. Todos estão buscando um bicho-papão que ninguém foi capaz de encontrar".

Tradução: Danilo Fonseca


Clique aqui para ler mais notícias de Diversão e Artes.

UOL Cursos Online

Todos os cursos