Bíblia politicamente correta gera polêmica entre fiéis

Cathy Lynn Grossman

Uma nova tradução do Novo Testamento, que reformula o papel da mulher nas escrituras, está enfurecendo os crentes que vêem em cada palavra sagrada uma pedra no caminho para Jesus e a salvação.

A "Today's New International Version" está repleta de revisões que substituem o ele por "eles e elas" e "filhos" por "crianças", de Mateus à Revelações. O presidente da Zondervan, Scott Bolinder, alega que a obra "honra os princípios bíblicos", e, ao mesmo tempo, mostra aos leitores que "a Bíblia não é apenas para garotos".

Mas críticos tais como James Dobson, fundador da seita conservadora Focus on the Family, afirmam que "modificar a masculinidade intencionada pelos autores das Escrituras" é algo que viola os Evangelhos ao "obscurecer a paternidade de Deus e a verdadeira identidade de Jesus Cristo".

Segundo ele, quem mexe na Bíblia está mexendo com Deus.

O fogo-cruzado começou na feira de livros cristãos, em janeiro passado, quando a Zondervan, editora do best-selling "New International Version" anunciou que a edição da "Today's New International Version" seria colocada à venda pouco antes da Páscoa.

Nove em cada dez lares norte-americanos possuem pelo menos uma Bíblia cristã. Quarenta e dois por cento das pessoas dizem que a leitura do livro é muito importante, e 37% dizem que a lêem semanalmente, segundo o especialista em assuntos cristãos, George Barna. Para algumas dessas pessoas, essa polêmica em relação à Bíblia não passa de um mero atrito resultante de anos de brigas quanto à linguagem utilizada na obra.

Para os evangélicos e batistas sulistas, no entanto, o fato de a Bíblia perder o seu sentido exato é muito grave. Segundo eles, isso poderia fazer com que crentes inocentes e novos convertidos perdessem o rumo da vida eterna. A essência do protestantismo afirma que qualquer um que tenha uma Bíblia é capaz de encontrar Jesus e contar com a esperança de alcançar o Céu.

"As palavras são importantes. A forma como se diz aquilo em que se crê também é importante", afirma a socióloga Nancy Ammerman, do Instituto Hartford de Pesquisa Religiosa.

"A mudança de pronomes indica que algo estava errado, e, entre os evangélicos, simplesmente não se diz que a Bíblia está errada", afirma Ammerman, que estudou batalhas teológicas entre os batistas. Quando os termos "pai", "irmão", "filho" e homem são retirados, tal fato altera a natureza sagrada do relacionamento entre fé e família, segundo o crítico, que censura a "Today's New International Version", afirmando que ela é "neutra com relação ao gênero".

"Capitular para os ventos traiçoeiros da cultura popular seria um insulto ao próprio espírito da Bíblia, enquanto palavra eterna, correta e confiável de Deus", afirma R. Albert Mohler Jr., presidente do Southern Baptist Theological Seminary.

Aqueles que apóiam a "Today's New International Version" afirmam que ela é "precisa com relação ao gênero" - inclusive nos trechos em que a Bíblia fala sobre a humanidade, sendo, entretanto, ainda fiel à tradicional linguagem masculina para Deus.

Aqui estão exemplos de como são traduzidos alguns trechos sobre a vida de Jesus nas principais Bíblias dos Estados Unidos:

"Aquele que acreditar em mim, viverá, ainda que ele morra; e quem quer que viva e acredite em mim, nunca morrerá" (New International Version)

"Qualquer pessoa que acreditar em mim viverá, ainda que morra, e quem quer que viva e acredite em mim, nunca morrerá" (Today's New International Version)

"Aquele que acredita em mim, ainda que esteja morto, mesmo assim ele viverá; e quem quer que viva e acredite em mim, nunca morrerá (Versão "King James", a bíblia mais popular na língua inglesa).

"Quem quer que acreditar em mim, ainda que ele morrer, e qualquer um que viver e acreditar em mim, nunca morrerá" (New American Bible, a tradução em inglês aprovada pela Igreja Católica).

Titus 2:11 modifica as palavras nos ensinamentos de Paulo. Na versão "King James" e na "New International Version", "A graça de Deus que traz a salvação se apresentou a todos os homens". Já a "Today's New International Version" diz que a graça "oferece salvação a todas as pessoas".

"Eu pessoalmente perguntei a duas ou três mulheres cristãs evangélicas conservadoras que não fazem parte de nenhum movimento feminista ou igualitário se elas se sentiam excluídas devido aos nomes e pronomes masculinos que constam na Bíblia. Para minha surpresa, elas disseram que sim", conta o acadêmico Ken Barker, membro do comitê de tradução da International Bible Society que supervisiona tanto a "New International Version" quanto a "Today's New International Version".

"Queremos comunicar com clareza a verdade de Deus para o povo do século vinte e um", diz Barker. "O uso genérico de nomes e pronomes masculinos está caindo rapidamente de uso na sociedade moderna, em todos as outras formas escritas e faladas, nas escolas, faculdades e universidades".

Esta não é a primeira vez que a International Bible Society, que é dona dos direitos autorais da "New International Version", e a Zondervan, entram na linha de fogo. Um plano para que uma editora britânica participasse de uma nova tradução para compradores da Bíblia em inglês, em 1997, foi imediatamente atacado pelos protestos dos tradicionalistas. Portanto, eles ficaram abismados quando a Zondervan revelou o trecho reformulado do Novo Testamento da "Today's New International Version" na conferência anual de editoras e vendedoras cristãs, no final de janeiro, tendo dito que o Velho Testamento estará pronto em 2005.

Bolinder garante que a "Today's International Version" não é nenhuma fórmula mágica, destinada a substituir os clássicos. Ele calcula que 150 milhões de bíblias da "New International Version" estejam atualmente em circulação, perdendo apenas para a versão "King James".

Só 7% do texto da versão "New International" foi modificado na "Today's New International". E só 30% das alterações envolvem o gênero dos personagens.

Segundo o Conselho de Masculinidade e Feminilidade Bíblicas, qualquer dessas percentagens é um golpe para a integridade da Bíblia. A organização cita vários exemplos de alterações teológicas na "Today's New International".

Um exemplo: Em Revelação 3:20, na "New International", Jesus diz que se qualquer pessoa que ouvir a sua voz abrir a porta, "Eu entrarei e comerei com ele, e ele comigo". Na "Today's New International" a frase se transforma em "Eu virei e comerei com eles ou elas (them, em inglês), e eles ou elas comigo".

"Adicionar, subtrair ou multiplicar os pronomes enfraquece a preciosa promessa bíblica de "uma relação individual com Deus ou com Jesus", afirma Bruce Ware, presidente do conselho. O seu grupo defende e promove a idéia de que Deus criou o homem e a mulher para papéis diferentes. Dizer que a Bíblia está errada ou ultrapassada no que diz respeito ao seu "patriarcalismo fundamental" abriria espaço para que se fizesse todo tipo de alegação a favor de alterações do texto bíblico", diz ele.

"Trata-se de um plano inclinado e escorregadio para a perdição", diz a antropóloga Susan Harding, da Universidade da Califórnia, em Santa Cruz, que escreve sobre linguagem e política fundamentalistas. "Precisão e fidelidade para com a palavra de Deus é sempre uma obrigação moral. Não se pode ter uma comunidade de fiéis que literalmente não concorda com aquilo que diz a Bíblia".

A "Today's New International Version" não traz modificações suficientes para satisfazer Jim Sanders, presidente e fundador do Centro de Manuscritos Bíblicos Antigos. Sanders trabalhou no comitê de tradução para a "Nova Bíblia Padrão Revisada" patrocinada pelo Conselho Nacional de Igrejas de Cristo, de orientação liberal.

"Já é hora de nos livramos do patriarcalismo. Deus é Deus, não é masculino nem feminino. "Pneuma" é a expressão utilizada para designar o Espírito Santo em todos manuscritos gregos, e trata-se de uma palavra neutra", diz ele.

Outras pessoas foram pioneiras em fazer tais correções anos atrás, diz Mimi Haddad, presidente da organização Cristãos pela Igualdade Bíblica. O seu Web site lista 13 grandes traduções impressas dotadas de precisão quanto ao gênero de nomes e pronomes, incluindo a "New American Standard Bible" e a "New Jerusalém Bible", preferida pela Igreja Católica. "A Today's New International só é uma novidade porque foi editada pela Zondervan.

Uma pesquisa Gallup para a American Bible Society, realizada em 2000, descobriu que 35% dos norte-americanos acreditam que a Bíblia é a palavra literal de Deus, mas 61% dizem que a sua leitura deveria ser mais fácil.

Eugene Harris, de 57 anos, engenheiro em Cincinnati, diz que o seu filho de 16 anos não tem problemas para ler a mesma versão "King James" que a família sempre leu. É a Bíblia que ele utiliza semanalmente na Igreja Adventista do Sétimo Dia.

As alterações na gramática preocupam Harris, que diz, "Todas essas traduções de traduções estão fazendo com quer a Bíblia perca a autenticidade. Estamos nos referindo a expressões de milhares de anos atrás. Talvez elas possam ser clarificadas, mas tenho medo de que percamos o caminho da verdade. Isaias 28:10 diz para não se pegar palavras fora do contexto, 'lendo um pouquinho aqui, um pouquinho ali'".

Quando a revista evangélica "Christianity Today" conduziu uma pesquisa de opinião não científica no seu Web site, perguntando às pessoas quais, dentre as diversas novas traduções da Bíblia, elas "estavam mais ansiosas para ler", o maior índice de votos, 19%, foi para a "Today's New International Version". Outros 10% optaram pela frase, "todas as traduções são malignas, com exceção da King James".

Mas 28% responderam, "Mais traduções? Eu já tenho um número suficiente!".

Tradução: Danilo Fonseca

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