Oscar pode abrir portas para atores negros em Hollywood

Susan Wloszczyna e Kelly Carter

Houve dois fatos históricos na 74ª cerimônia de entrega do Oscar. Um deles ocorreu quando Denzel Washington, pela sua atuação em "Training Day" ("Dia de Treinamento"), se tornou o primeiro negro a ganhar o Oscar de melhor ator desde Sidney Poitier, que levou a estatueta em 1963, com o filme "Lilies of the Field" ("Uma Voz nas Sombras"). O outro se deu quando o primeiro Oscar de melhor atriz para uma negra foi conquistado por Halle Berry, pelo seu trabalho em "Monster's Ball" ("A Última Ceia").

Agora chegou o momento de avaliar o significado desses momentos históricos para o futuro de Hollywood e descobrir se realmente, como proclamou Berry no seu emocionado discurso de recebimento do prêmio, "a porta foi aberta".

Para Washington, que foi indicado cinco vezes e que já havia ganho um Oscar de melhor ator coadjuvante em 1989, com o filme "Glory" ("Tempo de Glória"), o fato representa a continuação da sua glória - e mais poder para continuar recebendo US$ 20 milhões (cerca de R$ 46,5 milhões) por cada filme em que trabalha. "Ele consegue tantos papéis quanto Brad Pitt, Tom Cruise ou Mel Gibson?", pergunta o seu agente, Ed Limato. "Não. E será que ele deveria conseguir o mesmo número de papéis que esses atores brancos? Sim, e esperamos que esse Oscar o ajude a atingir tal objetivo."

Para Berry, uma novata no cenário do Oscar, que aparecerá como vilã no próximo filme de James Bond, "Die Another Day" (ainda sem título em português), que será lançado no final do ano, o prêmio pode ser um passe para conseguir realizar projetos mais pessoais. Ela recentemente adquiriu os direitos sobre "Nappily Ever After" (ainda sem título em português), um filme em que vai ser estrela e co-produtora, baseado em um livro popular sobre a liberação feminina.

Mas a questão real é saber se o sucesso dos dois se traduzirá em mais oportunidades no circuito cinematográfico para outros membros da comunidade negra, que estão lutando para se manter à frente das tendências de Hollywood.

"Não sei se as portas vão se abrir e se a conjuntura vai mudar amanhã", diz a diretora Kasi Lemmons (de "Eve's Bayou"; "Amores Divididos", em português), autora da idéia do Oscar especial para homenagear Poitier. Mas ela já vê sinais de progresso. "Eu leciono em escolas de cinema e vejo muitos alunos afro-americanos e mulheres quando estou ensinando. Essas pessoas vão se formar e fazer filmes, e isso é o futuro de Hollywood."

O papel de Washington como um policial corrupto é a peça central de dramas comerciais de ação urbana feitos pela Warner Brothers. Já a oportunidade de Berry se configurou no papel de uma garçonete em um drama feito com poucas verbas, realizado fora do circuito de estúdios tradicionais e lançado pela Lions Gate, que anteriormente promoveu Samuel L. Jackson em um papel atípico, no qual ele encarna um ardiloso restaurador de violinos em "The Red Violin" ("O Violino Vermelho"), de 1999.

O presidente da Lions Gate, Tom Ortenberg, sabe que é mais fácil para distribuidores independentes fornecer o cuidado e a manutenção exigidos por projetos menos convencionais, como "Monster's Ball", do que o é para os grandes estúdios, que geralmente têm uma mentalidade ditada pelos lucros nas bilheterias dos cinemas.

"A nossa companhia nem sempre demoliu barreiras com projetos de entretenimento de ponta, dos quais temos orgulho. Mas Hollywood não é um nicho racista. O centro cinematográfico geralmente está cheio de boas pessoas que tentam fazer a coisa certa e movimentar os seus negócios. Caso o prêmio de Berry possa demonstrar aos tomadores de decisões que os velhos estereótipos não mais se aplicam, tanto melhor."

Um dos maiores demolidores de tabus da cidade acredita que as premiações deste ano se constituem em um passo na direção certa.

"Estou furioso por ter demorado tantas décadas para que o trabalho de uma mulher negra fosse reconhecido", diz o cineasta Steven Spielberg, cujo filme "The Color Purple" ("A Cor Púrpura"), de 1985, gerou indicações ao Oscar para Whoopi Goldberg e Margaret Avery. "No entanto, trata-se de um ponto de inflexão na história de Hollywood."

Ele acredita que tudo começa com os textos. "O fato vai encorajar os roteiristas a escrever papéis substanciais para homens e mulheres de cor. Não se pode progredir, a não ser que sejam escritos papéis para esses artistas."

Mas outros insistem em dizer que vai ser necessário mais do que bons roteiros para aumentar o impacto dos atores e atrizes negros sobre o cinema popular.

"As portas foram abertas porque as pessoas estão falando sobre o Oscar", afirma Tanya Kersey-Henley, editora da publicação dirigida para a comunidade negra Black Talent News. "Como é que isso faria com que os estúdios dessem mais chances aos artistas negros para receberem papéis dignos do Oscar? Devemos nos lembrar que o seriado "Roots" ("Raízes") não trouxe mudanças dramáticas para a indústria televisiva."

Segundo ela, a verdadeira diferença só será percebida quando mais negros estiverem nos postos de tomada de decisão no interior dos estúdios.

"É desalentador", lamenta Kersey-Henley. "Nenhum afro-americano é capaz de autorizar a realização de um grande filme. A conquista do Oscar por Denzel e Halle foi um fato realmente histórico. Mas igualmente histórico será o dia em que tivermos um diretor de estúdio negro. Os Oscars simplesmente abriram os olhos dos Estados Unidos. Isso não significa mudança alguma, a menos que as forças por detrás da indústria cinematográfica realizem mudanças."

Por outro lado, o jornalista de entretenimento Gil Robertson afirma que os membros negros do circuito cinematográfico também deveriam tentar ajudar uns aos outros.

"Existe uma espécie de mentalidade de 'almoço-gratuito' entre os afro-americanos. A idéia é que há alguém que nos deve algo. Espero que Halle e Denzel utilizem a porta que foi aberta para dar mais poderes ao restante da comunidade, incluindo os contra-regras, o pessoal do som e os eletricistas. São esses os trabalhos que conferem concretitude aos filmes. Devemos pensar em algo mais do que simplesmente naquilo que Hollywood pode fazer por nós. O que estamos fazendo por nós mesmos?"

Não é que os atores negros não sejam ocupados. Um recente estudo feito pelo USA Today comparou os números do censo de 2000 com a distribuição étnica dos artistas que participaram de 137 filmes famosos lançados no ano passado. O estudo revelou que, embora os negros componham 12,3% da população norte-americana, eles respondem por 16,2% de todos os papéis importantes e por 15,2% dos papéis principais.

O problema é que o gênero cinematográfico no qual a presença negra é maior - com quase 45% de atores negros - é a comédia, que raramente produz indicados para o Oscar.

A diversidade de papéis no circuito comercial de cinema é limitada pelo sistema de roteiros.

"Os chefes da indústria podem se arriscar a contratar uma pessoa negra para fazer um papel racialmente neutro porque é possível encarar Eddie Murphy ou Will Smith como um cidadão comum. Wesley Snipes pode fazer "Blade" ("Blade - O Caçador de Vampiros") porque, afinal, não existe nada que seja realmente relativo a negritude no filme. Em tal situação, é apenas por acaso que o ator em questão é negro."

Mas, quando se trata de testar novos talentos, diz ele, "tal indivíduo raramente será um negro. Colin Farrel vai ter bem mais chances do que Terrence Howard, e isso não é justo".

Gabrielle Union, uma atriz estreante, acha que depende também do indivíduo buscar fazer um trabalho de qualidade.

"Eu realmente gosto de trabalhar em projetos que têm um elenco predominantemente negro. Mas muitos roteiros que me chegam às mãos e que são escritos por nós precisariam ser melhores. Precisamos manter o nível alto. É como se eles se sentissem confortáveis com o fato de sermos bufões".

Apesar disso, ela tem uma atitude positiva. "Espero que comecemos a criar projetos para nós próprios, e que as pessoas realmente deixem de lado o preconceito racial e comecem a nos ver sob a ótica da nossa diversidade."

Após a sua vitória eletrizante, Berry faz o seguinte comentário: "Tenho certeza de que ainda terei que lutar e pavimentar o caminho. Mas tal fato apenas me inspira e me faz saber que tudo isso vale a pena."

Tradução: Danilo Fonseca Cinema

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