Talvez a mídia tenha parte da culpa pelo impasse no Oriente Médio

DeWayne Wickham

WASHINGTON - Dizer que o derramamento de sangue no Oriente Médio é insensato se tornou dolorosamente óbvio para qualquer um que percebeu que a carnificina afastou grande parte da atenção mundial do Afeganistão.

Os noticiários de televisão e as primeiras páginas dos jornais rotineiramente oferecem uma alta dose de cobertura sobre os mortos e feridos resultantes de uma procissão de suicidas palestinos. Quinze pessoas foram mortas e mais de 40 foram feridas quando um suicida explodiu a si mesmo em um restaurante em Haifa, no fim de semana. Poucos dias antes, outro suicida caminhou até o centro de uma comemoração da Páscoa judaica e disparou a carga mortal escondida sob sua roupa. Vinte e duas pessoas morreram na explosão. Entre estes dois eventos terríveis ocorreram outros dois ataques suicidas que resultaram em poucas mortes, mas que receberam praticamente a mesma atenção da mídia.

Enquanto o governo Bush não consegue encontrar uma forma de conter esta violência crescente, muitas agências de notícias americanas estão tendo dificuldade em serem imparciais na cobertura. Apesar de muito mais palestinos terem morrido no atual conflito entre árabes e judeus, iniciado 18 meses atrás, a cobertura da mídia desta violência mortal toma-lá-da-cá passa uma impressão diferente.

A agência de notícias The Associated Press divulgou na segunda-feira que 416 judeus e 1.269 palestinos foram mortos na violência dos últimos 18 meses. Isto corresponde a três palestinos para cada judeu morto -uma proporção que dificilmente transparece na cobertura da mídia.

Talvez os órgãos de notícias prestem mais atenção às vítimas israelenses desta carnificina do que aos palestinos mortos porque a arma mais eficaz dos palestinos seja o homem-bomba. Talvez o grande número de civis palestinos mortos pelos israelenses não produza uma atenção proporcional da mídia porque os israelenses dizem que não visam intencionalmente os civis.

Seja qual for a razão, esta cobertura falha distorce a percepção das pessoas sobre as causas da -e as soluções para a- violência no Oriente Médio, e isto ameaça descarrilhar a guerra do governo Bush contra o terrorismo. Uma meta chave desta campanha é a determinação de Bush de fazer o que seu pai não conseguiu, derrubar o governo brutal do presidente do Iraque, Saddam Hussein.

Como muitos órgãos de imprensa, o governo Bush tem sido parcial em sua reação à violência no Oriente Médio. Enquanto pressiona o líder palestino Yasser Arafat para que este condene a onda de atentados suicidas, ele diz pouco sobre o número muito maior de pessoas que as forças israelenses mataram.

Sem causar surpresa, esta falta de equilíbrio por parte dos Estados Unidos tem irritado as pessoas por todo o mundo árabe, especialmente entre os países que o governo Bush necessita que cedam áreas para posicionamento de tropas e aviões americanos, em caso de uma guerra contra o Iraque. Sem o apoio deles, será difícil -se não impossível- posicionar tropas e armas que possam derrubar Saddam.

Dada sua posição parcial diante da violência no Oriente Médio, o governo Bush provavelmente arruinou qualquer chance de atrair os vizinhos de Saddam para uma campanha militar conjunta, liderada pelos Estados Unidos, contra o regime dele.

Mas o maior problema pode resultar do fracasso da mídia em colocar os eventos no Oriente Médio na devida perspectiva. Se a brutalidade de ambos os lados for plenamente divulgada, a opinião pública poderia forçar o governo Bush a usar sua considerável força diplomática para uma retomada das negociações de paz e uma redução dramática na violência de ambos os lados.

Isto provavelmente não acontecerá se a mídia tratar as mortes de pessoas de um lado mais seriamente do que as mortes das pessoas do outro lado.

Apesar de considerações políticas aparentemente terem feito o governo Bush escolher um dos lados no conflito do Oriente Médio, os órgãos de noticiais devem se ater a um padrão mais elevado, e divulgar na íntegra a história do número crescente de vítimas que judeus e palestinos estão infligindo um ao outro.


Tradução: George El Khouri AndolfatoTalvez a mídia tenha parte da culpa pelo impasse no Oriente Médio

DeWayne Wickham

WASHINGTON - Dizer que o derramamento de sangue no Oriente Médio é insensato se tornou dolorosamente óbvio para qualquer um que percebeu que a carnificina afastou grande parte da atenção mundial do Afeganistão.

Os noticiários de televisão e as primeiras páginas dos jornais rotineiramente oferecem uma alta dose de cobertura sobre os mortos e feridos resultantes de uma procissão de suicidas palestinos. Quinze pessoas foram mortas e mais de 40 foram feridas quando um suicida explodiu a si mesmo em um restaurante em Haifa, no fim de semana. Poucos dias antes, outro suicida caminhou até o centro de uma comemoração da Páscoa judaica e disparou a carga mortal escondida sob sua roupa. Vinte e duas pessoas morreram na explosão. Entre estes dois eventos terríveis ocorreram outros dois ataques suicidas que resultaram em poucas mortes, mas que receberam praticamente a mesma atenção da mídia.

Enquanto o governo Bush não consegue encontrar uma forma de conter esta violência crescente, muitas agências de notícias americanas estão tendo dificuldade em serem imparciais na cobertura. Apesar de muito mais palestinos terem morrido no atual conflito entre árabes e judeus, iniciado 18 meses atrás, a cobertura da mídia desta violência mortal toma-lá-da-cá passa uma impressão diferente.

A agência de notícias The Associated Press divulgou na segunda-feira que 416 judeus e 1.269 palestinos foram mortos na violência dos últimos 18 meses. Isto corresponde a três palestinos para cada judeu morto -uma proporção que dificilmente transparece na cobertura da mídia.

Talvez os órgãos de notícias prestem mais atenção às vítimas israelenses desta carnificina do que aos palestinos mortos porque a arma mais eficaz dos palestinos seja o homem-bomba. Talvez o grande número de civis palestinos mortos pelos israelenses não produza uma atenção proporcional da mídia porque os israelenses dizem que não visam intencionalmente os civis.

Seja qual for a razão, esta cobertura falha distorce a percepção das pessoas sobre as causas da -e as soluções para a- violência no Oriente Médio, e isto ameaça descarrilhar a guerra do governo Bush contra o terrorismo. Uma meta chave desta campanha é a determinação de Bush de fazer o que seu pai não conseguiu, derrubar o governo brutal do presidente do Iraque, Saddam Hussein.

Como muitos órgãos de imprensa, o governo Bush tem sido parcial em sua reação à violência no Oriente Médio. Enquanto pressiona o líder palestino Yasser Arafat para que este condene a onda de atentados suicidas, ele diz pouco sobre o número muito maior de pessoas que as forças israelenses mataram.

Sem causar surpresa, esta falta de equilíbrio por parte dos Estados Unidos tem irritado as pessoas por todo o mundo árabe, especialmente entre os países que o governo Bush necessita que cedam áreas para posicionamento de tropas e aviões americanos, em caso de uma guerra contra o Iraque. Sem o apoio deles, será difícil -se não impossível- posicionar tropas e armas que possam derrubar Saddam.

Dada sua posição parcial diante da violência no Oriente Médio, o governo Bush provavelmente arruinou qualquer chance de atrair os vizinhos de Saddam para uma campanha militar conjunta, liderada pelos Estados Unidos, contra o regime dele.

Mas o maior problema pode resultar do fracasso da mídia em colocar os eventos no Oriente Médio na devida perspectiva. Se a brutalidade de ambos os lados for plenamente divulgada, a opinião pública poderia forçar o governo Bush a usar sua considerável força diplomática para uma retomada das negociações de paz e uma redução dramática na violência de ambos os lados.

Isto provavelmente não acontecerá se a mídia tratar as mortes de pessoas de um lado mais seriamente do que as mortes das pessoas do outro lado.

Apesar de considerações políticas aparentemente terem feito o governo Bush escolher um dos lados no conflito do Oriente Médio, os órgãos de noticiais devem se ater a um padrão mais elevado, e divulgar na íntegra a história do número crescente de vítimas que judeus e palestinos estão infligindo um ao outro.


Tradução: George El Khouri Andolfatov

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