Rico e realizado, McCartney gosta de ser conhecido como "o Beatle Incansável"

EDNA GUNDERSON

USA TODAY



LOS ANGELES - Ele é uma daquelas pessoas que parece estar em toda parte.

No ano passado, Paul McCartney lançou um livro de poesias, "Blackbird Singing", e o documentário e coletânea de CDs, "Wingspan", gravou o novo álbum "Driving Rain", fez a música "Freedom", em homenagem às vítimas de 11 de setembro e auxiliou a levantar um fundo de US$ 30 milhões (R$ 69,3 milhões) para as vítimas do terror, organizando o show que virou álbum, "The Concert for New York City". A sua aparente onipresença foi reforçada em 2002, através de aparições em todo o mundo.

"Atualmente só estamos tocando para audiências de pelo menos um bilhão de pessoas", afirma McCartney. E onde é que um ex-beatle, sagrado cavaleiro pela rainha inglesa, superaria a si próprio?

"Em Oakland", responde ele tranquilamente.

Mas a resposta, ao contrário do que parece, não é incongruente. Na última segunda-feira, McCarney, de 59 anos, subiu ao palco da cidade para dar início à sua turnê "Driving USA", que vai percorrer 19 cidades norte-americanas. Cerca de 200 mil ingressos foram vendidos para 14 apresentações em menos de meia hora. O fato de os fãs estarem abrindo a carteira para pagar entre US$ 50 e US$ 250 (cerca de R$ 115,55 e R$ 578) para ver a produção de McCartney (em Las Vegas o valor varia entre US$ 125 e US$ 350/ algo entre R$ 289 e R$ 809) é algo que contradiz o senso comum quanto ao debilitado mercado de música pop. Ele está determinado em provar que um músico é capaz de vender todos os ingressos de uma arena sem vulgarizar a sua arte.

"Pessoas como eu, Neil Young, Bob Dylan, e até conjuntos como o U2, são de um tempo em que você simplesmente tocava para sobreviver, e a idéia de usar efeitos de gravações era algo impensável", conta. "Atualmente, a desculpa é, 'Bem, temos que dançar a beça. Estamos sem fôlego, portanto não podemos cantar'. Mas Fred Astaire podia. É só se programar que dá para fazer as duas coisas".

"Suponho que se eu contasse com um gerente moderno e realmente agressivo, ele poderia dizer, 'Vamos lá, Paul, temos um bando de garotas e rapazes, e todos são capazes de dançar. Dá para se vender uma imagem bonita no pódio, usando esse grupo jovem e fazendo alguns truques com a orquestra'. Mas esse não é o meu estilo".

McCartney acredita que há lugar para as suas melodias simples, mesmo nesta era da "música sintética, bandas de garotos e de várias garotas vestindo pouca roupa". Ele fez uma lista de trabalhos que englobam toda a sua carreira, dos Beatles ("All My Loving, Back in the USSR") aos Wings ("Jet"), além de trabalhos solo ("Maybe I'm Amazed", além de quatro edições de "Driving Rain").

Dias antes do início da turnê, ele ensaiou em um palco cavernoso na Sony Studios com o guitarrista Rusty Anderson e o percussionista Abe Laboriel Jr. (ambos em "Rain"), além do recém adotado guitarrista e baixista Brian Ray e o veterano Paul "Wix" Wickens, que foi tecladista de McCartney de 1990 a 1993.

Após terem ensaiado uma versão alternativa de "Driving Rain", McCartney, usando uma camiseta de malha e calças verde-oliva, ficou sozinho em frente ao microfone para cantar "Blackbird", "Mother Nature's Son" e "We Can Work it Out". A banda retornou para uma interpretação acústica de "Vanilla Sky".

"Se errarmos, vocês ouvirão!", prometeu ele durante uma pausa. Sentando em uma poltrona, McCartney tirou os tênis, o relógio, e mergulhou no seu almoço vegetariano. Mastigando barulhentamente tiras de cenoura crua, ele olha para o gravador e se desculpa. "Espero que vocês sejam capazes de entender isso aí mais tarde".

Apesar de ter ficado parado por nove anos, McCartney está surpreendentemente relaxado quanto à sua volta aos palcos, particularmente à luz do seu aclamado álbum "Rain". McCartney, que tem uma fortuna avaliada em US$ 2 bilhões (cerca de R$ 4,6 bilhões), disse que não está fazendo a turnê pelo dinheiro. Nem tampouco está capitulando ante à pressão das gravadoras.

"As empresas de gravação gostam que você faça turnês", admite. "Foi provavelmente por isso que não tomei tal providência mais cedo. Não gosto que ninguém me diga o que fazer".

Após ter evitado músicas dos Beatles no início da sua carreira solo, McCartney está assumindo o legado dos "Fab Four". O desafio neste caso é resumir um material que engloba quatro décadas em uma amostra de duas horas.

"É um privilégio possuir tantas músicas", diz ele. "Neste momento há muitos sucessos, mas estamos deixando de fora músicas como "Penny Lane".

"É muito triste que agora só restem dois Beatles", lamenta McCartney. Ele diz que não quer falar das conversas que manteve com o outro Beatle restante, Ringo Starr, após a morte de Harrison, em 29 de novembro. "Falamos algumas vezes. Conversas particulares. Foi uma grande tristeza para nós, assim como para a família e amigos. Algo de horrível. Mas George tinha uma filosofia pessoal maravilhosa e sempre desejou se encontrar com o seu "doce Senhor". Tendo isso em mente sabendo que todos nós também nos vamos algum dia, o fato foi provavelmente mais triste para nós do que para ele".

Um pouco antes da morte de Harrison, McCartney fez uma visita ao amigo no seu leito, e apertou as suas mãos. Harrison estava muito debilitado, mas com boa disposição.

"A última vez em que o vi, ele ria e fazia piadas, e não estava nada bem. É loucura, rir quando se passa por tudo aquilo. Ele tinha aquele tipo de humor típico de Liverpool".

McCartney, que raramente faz algum comentário pessimista que possa nublar a sua personalidade perpetuamente radiante, deixa cair brevemente a guarda.

"Obviamente, sabemos que chegará o momento em que nenhum dos Beatles estará mais vivo", diz ele. "Será um dia triste, já que fomos um grupo muito bom. Às vezes penso que gostaria de ver nós quatro dirigimos rumo ao por-do-sol, cantando e talvez assoviando, George tocando um ukulele e John exibindo as suas tiradas geniais. Infelizmente não pudemos contar com um fim assim tão bonito".



Tradução: Danilo Fonseca

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