Analistas acham que há três pedras no caminho rumo à paz no Oriente Médio

SUSAN PAGE

USA TODAY



WASHINGTON - O mapa dessa estrada geo-política parece bem claro.

Mas é a travessia dos últimos e mais familiares obstáculos o que parece desafiar os esforços de uma geração de negociadores que tentam alcançar uma paz duradoura para o Oriente Médio.

Três questões dificílimas de ser contornadas permanecem no seio do conflito árabe-israelense: o futuro da Cisjordânia e de Gaza, ocupadas por Israel desde a guerra de 1967; o direito de retorno de milhões de refugiados palestinos, o que se constitui em um dilema demográfico para Israel, e o controle de Jerusalém e dos seus locais sagrados para três religiões.

Agora, um surto de violência fez com que qualquer perspectiva de solução dessas questões ficasse mais distante, embora a Casa Branca tenha anunciado na quinta-feira um novo esforço pela paz liderado pelo secretário de Estado, Colin Powell. Os compromissos assumidos no passado estão ameaçados, as posições estão se radicalizando e os elaboradores das políticas dos dois lados têm sido forçados a se concentrar na tentativa de romper com o ciclo de atentados suicidas palestinos e retaliações militares israelenses.

O derramamento de sangue chegou mesmo a reviver uma quarta questão fundamental que parecia já ter sido resolvida há uma década, com o aperto de mão na Casa Branca entre o primeiro-ministro Itzhak Rabin e o líder da Organização para a Liberação da Palestina, Iasser Arafat. Será que os palestinos estariam dispostos a aceitar a legitimidade de um Estado de Israel? E será que Israel concordaria com a existência de um Estado Palestino viável em terras atualmente ocupadas pelo Estado judeu?

Mas o retorno a tais questões será difícil. Cada lado está acreditando cada vez menos que pode confiar no vizinho, o que torna qualquer compromisso, ou até mesmo um cessar fogo, objetivos difíceis de serem alcançados. Alguns analistas questionam se o primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon, e o líder palestino, Arafat, dois velhos inimigos, seriam capazes de algum dia chegar a um acordo.

Mesmo assim, os analistas prevêem que em algum momento a batalha vai retornar para o apanhado de questões não resolvidas. "As maneiras como se pode cortar essa maçã não são infinitas", diz Richard Fairbanks, que foi chefe da equipe de negociações dos Estados Unidos para o Oriente Médio, durante a administração Reagan. "E creio que ambas as partes conhecem muito bem essa realidade".

A solução é expressa em uma sentença curta: troca de terra pela paz. Israel se retiraria dos territórios ocupados árabes e as nações árabes aceitariam o direito à existência de Israel. Essa barganha tem sido a base das propostas de paz, desde a Resolução das Nações Unidas Nº 242, aprovada ao fim da guerra de 1967, até a iniciativa saudita, aprovada por líderes árabes em Beirute na semana passada.

Mas tem sido impossível se trabalhar com os detalhes, pelo menos até agora, já que eles consistem no cerne da luta política, religiosa e histórica que há muito divide a região. E eles foram exacerbados pela atual onda de violência:



- Se milhões de refugiados palestinos tiverem o direito de retornar a Israel, será que o poder expresso pelo tamanho de tal população enfraqueceria a idéia de um Estado judeu?


- Se Israel se retirar dos territórios ocupados e desmantelar os assentamentos judeus, será que os israelenses se sentiriam tranqüilos quanto à segurança das suas fronteiras?


- Se Israel nem se retirar nem desmantelar os seus assentamentos, os palestinos poderiam ainda assim criar um estado funcional?


- Quem deveria controlar os locais em Jerusalém que são sagrados para judeus, cristãos e muçulmanos?


A cada vez que se atinge um acordo de paz, essas questões mais espinhosas são colocadas de lado, ficando para a próxima rodada de negociações.

Nos acordos de Camp David, gerenciados pelo presidente Carter, em 1978, uma nação árabe pela primeira vez estabeleceu relações diplomáticas normais com Israel. O então primeiro-ministro israelense, Menachen Begin, e o presidente egípcio, Anuar Sadat, receberam o Prêmio Nobel da Paz. Mas o futuro dos territórios ocupados foi deixado de fora, para ser negociado após um "período de transição" de cinco anos.

No acordo anunciado pelo presidente Clinton em 1993, cada um dos lados reconheceu as aspirações nacionais do outro. Mas o status de Jerusalém e os direitos dos refugiados palestinos e dos colonos judeus instalados em território palestino foram adiados para novas negociações.

"Na história do Oriente Médio, para cada passo à frente há um passo atrás", disse o porta-voz da Casa Branca, Ari Fleischer. "E às vezes são dois passos à frente e um passo para trás. Ou dois para trás e apenas um à frente".

Apesar de às vezes um acordo de paz permanente parecer estar dramaticamente próximo de ser firmado, os passos finais sempre são tragicamente difíceis. As principais questões não resolvidas são:



Os territórios ocupados.


Israel capturou a Cisjordânia, Jerusalém Oriental e a Faixa de Gaza na guerra de 1967, expulsando milhares de palestinos de suas terras. Em 1993, os acordos de Oslo proporcionaram um entendimento segundo o qual a Autoridade Palestina assumiria o controle de partes dos territórios ocupados.

Mas, nos últimos dias, as forças israelenses na Cisjordânia bombardearam os quartéis-generais de Arafat em Ramallah, e os oficiais israelenses lhe ofereceram uma passagem só de ida para fora do país. Alguns palestinos temem que Israel retome territórios que atualmente estão sob controle palestino ou que até mesmo destruam a Autoridade Palestina. Já as autoridades israelenses insistem em estão apenas caçando terroristas, e, que, tão logo cumpram essa missão, irão se retirar.

Ainda sem resolução está a questão dos assentamentos israelenses. O plano de paz saudita promete garantir a segurança de Israel caso os judeus saiam das terras ocupadas e um Estado palestino seja criado. Mas a violência aumentou as preocupações de Israel quanto à segurança.



O direito ao retorno.


Muitos palestinos se transformaram em refugiados quando a ONU criou Israel, ao dividir a Palestina em um Estado judeu e um árabe, em 1947. Outros fugiram dos territórios árabes quando as suas terras foram ocupadas por Israel na guerra de 1967. Essa população expulsa criou os filhos e netos em campos de refugiados no Líbano, na Jordânia e outros países.

Para muitos palestinos, o direito de retornar às suas terras no atual Estado de Israel é uma questão fundamental. Mas, para muitos israelenses, o retorno dos refugiados ameaçaria a existência de Israel, enquanto Estado judeu.

A proposta de paz saudita sugeriu um compromisso, ao exigir não o direito ao retorno, mas uma "solução justa" para os refugiados. "Essas palavras podem ter muitas interpretações diferentes", afirma Jim Steinberg, vice-assessor de segurança nacional no governo Clinton.

A compensação financeira poderia ser uma saída. Israel concordaria em permitir que um certo número de refugiados retornasse, como gesto simbólico. Os outros refugiados ficariam onde estão, iriam para um terceiro país ou para o Estado Palestino.



O status de Jerusalém.


Nenhuma questão tem um caráter mais emotivo do que aquela referente aos sítios sagrados de Jerusalém - os locais onde, segundo os fiéis, o Rei Salomão construiu o primeiro templo judeu, Maomé ascendeu ao céu e Jesus nasceu e foi sepultado.

"Jerusalém, é, de fato, uma questão religiosa, teológica e política", afirma Lee Hamilton, presidente do Woodrow Wilson Center e ex-chefe do Comitê de Assuntos Externos da Câmara. "E o problema possui uma intensidade notável".

Em meio ao setor árabe da Cidade Velha, uma casa que já pertenceu a Sharon traz sobre o telhado uma grande bandeira israelense e uma faixa com o Salmo 137, verso 5: "Se eu te esquecer, oh Jerusalém, que a minha mão direita fique inválida".

Os sentimentos dos muçulmanos com relação à cidade são igualmente intensos.

Nas últimas semanas de Clinton na Casa Branca, Israel acenou com um possível compromisso, ao concordar em retomar as negociações baseadas em um plano proposto pelo presidente norte-americano, mas os palestinos recusaram. O plano propunha a desocupação israelense do setor oriental de Jerusalém e o controle parcial palestino sobre Haram al-Sharif, conhecido pelos judeus como o Monte do Templo, na Cidade Velha.

Os negociadores do Oriente Médio argumentam que, quando um acordo de paz amplo estiver próximo, o momento político vai permitir que ambos os lados cheguem a compromissos finais necessários para resolver questões que parecem impossíveis quando consideradas de maneira separada. "A maioria das pessoas na região entendem que, se tivesse que se fazer um acordo, ele estaria dentro dos parâmetros já vistos", afirma Edward Walker, um ex-embaixador dos Estados Unidos no Egito e em Israel. "No entanto, a violência impede que tal dia chegue".



Tradução: Danilo Fonseca

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