Americanos idosos recomeçam a viajar para pontos turísticos considerados perigosos

JAYNE CLARK

USA TODAY



CAIRO - Ela desafiou os filhos adultos e ignorou o protesto dos amigos, enfrentando uma viagem de 22 horas e o cansaço resultante de atravessar 10 fusos horários. E agora, sentada na mesa, em frente a uma refeição composta de falafel crocante e carneiro assado, a bordo de um barco que navega no Nilo, ela não se arrepende.

"Disse ao meu amigo que se algo acontecer, basta escrever em minha tumba, 'Ela morreu feliz no Egito', afirma Barbara Windt, de Culver City, na Califórnia.

Da mesma forma pensam os seus 113 companheiros de viagem, que fazem parte de uma expedição de duas semanas pelas tumbas e tesouros do Egito antigo, mesmo sabendo que a ação dos homens-bomba e os ataques contra norte-americanos em outros locais do Oriente Médio se tornaram temas de conversas de jantar. Realmente, a presença do grupo em uma região que, depois dos ataques de 11 de setembro, passou a ser tida como um local de risco para os turistas dos Estados Unidos, demonstra que, gradualmente, os viajantes norte-americanos estão superando os seus medos que fizeram com que ficassem quietos em suas casas após os ataques terroristas a Washington e a Nova York.

E os turistas mais idosos são os que parecem estar liderando o movimento de retomada das viagens. Na empresa de turismo Grand Circle Travel, especializada em turistas com mais de 50 anos, o maior crescimento dos negócios desde setembro se deu na faixa etária com mais de 65 anos de idade. Após a empresa ter despedido 160 dos seus 500 funcionários de Boston, depois da confusão que se seguiu ao 11 de setembro, quando os negócios caíram em 40%, os telefones recomeçaram a tocar em meados de dezembro. No primeiro trimestre de 2002, as reservas aumentaram em 30%. E nem só no que se refere aos pontos turísticos domésticos. Locais exóticos, como a Índia, o Marrocos e o Egito voltaram a ser procurados, segundo funcionários da empresa.

Sentado em uma poltrona no convés de um navio de cruzeiro que navega pelo Rio Nilo, o professor aposentado Don Ray não tem problemas para explicar a sua decisão de visitar Israel e o Egito no mês passado.

"Sou velho o suficiente para conhecer melhor a situação, mas jovem o suficiente para não conseguir resistir", disse o morador de Tucson, Arizona, que tem 67 anos.

De fato, os operadores de empresas turísticas que atendem aos viajantes idosos afirmam que não só os negócios estão retornando ao ritmo normal, como também os mais velhos estão se aventurando em alguns locais inesperados.

"É surpreendente", diz Karl Kannstadter, da empresa de viagens de aventuras ElderTreks, com sede em Toronto. "Parte disso é fruto da demanda contida, mas já se passaram seis meses desde o 11 de setembro e as pessoas estão começando a se sentir novamente confortáveis".

Operadores que variam desde a Elderhostel, que não tem fins lucrativos, sendo voltada para a educação, até a empresa comercial Abercrombie & Kent fazem eco a tal sentimento.

A Grand Circle continua com o seu itinerário no outono e no inverno (ela espera atingir a meta de 2.200 turistas até o final do ano), embora o número de pacotes mensais tenha diminuído de quatro para dois. A empresa também enviou 185 clientes para Israel desde setembro. Outras companhias, no entanto, adotaram uma postura mais conservadora quanto aos chamados "ponto quentes", aqueles locais onde a ameaça de terrorismo e violência seria maior.

A Elderhostel suspendeu viagens para o Egito, a Jordânia e Israel para o futuro próximo. A ElderTreks cancelou os seus pacotes de primavera para o Nepal, devido à falta de reservas, tendo também cancelado as viagens à Indonésia e ao itinerário da Estrada da Seda, que partiria do Paquistão. Mas outros locais exóticos e às vezes conturbados, como o Peru e a Índia continuam sendo populares.

O presidente da Grand Circle, Alan Lewis, atribui essa disposição a viajar em tempos incertos à perspectiva mais ampla adotada por muitos viajantes idosos.

"São pessoas dotadas de uma tremenda resistência. Elas passaram por muitas crises - a Segunda Guerra Mundial, a Guerra da Coréia a Guerra do Golfo. Tais indivíduos querem realizar seus sonhos, e não vão permitir que ninguém os impeça de fazer aquilo que desejam".

Descontos e políticas liberais de cancelamento ajudam a alimentar a retomada das viagens. Mas um outro fator é o desejo dos idosos intrépidos de procurarem o desconhecido. Os seus filhos já estão criados, eles possuem mais tempo e dinheiro e estão dispostos a correr riscos.

O grupo norte-americano de turistas na casa dos 60 e 70 anos que embarcou em meados de março para o Cairo e o Nilo através da Grand Circle possui essa visão. Eles viajaram principalmente em pares e tinham nomes estadunidenses típicos - Beck, Collins, Craft. Todos também vieram de típicas localidades norte-americanas - Peoria, Duluth, Buffalo.

Alguns são viajantes veteranos. Outros não. Durante a orientação que receberam em uma sala de conferências no hotel Ramses Hilton, no Cairo, o diretor Tarek el Saad fez as advertências usuais. Não beba a água local. Negocie o preço da corrida antes de entrar no táxi. Quando usar um caixa automático, o dinheiro virá em notas de libras egípcias, e não dólares estadunidenes.

"Vocês estão no Egito", lembrou ele, secamente.

Mais cedo, durante o café da manhã, Ted Esteves, de 71 anos, e a mulher, Connie, de 69, minimizaram as preocupações quanto à segurança. "Tudo pode acontecer. Até mesmo em casa", disse Connie Esteves, indicando um corte feio sob o olho, fruto de um jogo de golfe em Boca Raton, Florida, cidade onde mora. "Na nossa idade, temos que começar a assumir certos riscos se quisermos ver o mundo. Há problemas em toda parte", acrescenta o marido.

Em frente ao restaurante, dois policiais encarregados de proteger os turistas descansam na calçada, debruçados sobre as suas armas automáticas de forma natural, como se os fuzis fossem guarda-chuvas. A polícia é onipresente como os ventos secos do deserto. Os policiais montam guarda à frente de hotéis, museus, templos faraônicos e pirâmides, onde a passagem pelos detectores de metal faz atualmente parte do ritual de entrada. Policiais em trajes civis sentam-se nos bancos da frente dos ônibus, podendo-se ver claramente as coronhas de suas armas automáticas sobressaindo por debaixo dos casacos.

O governo fornece as escoltas, fazendo com que jovens policiais egípcios, vestidos em trajes elegantes, acompanhem os clientes da Grand Circle a uma distância discreta, à medida que eles passeiam pelas ruas do Cairo o nas proximidades das pirâmides, em Giza. Eles abordam o navio com os turistas bem antes de a embarcação seguir rumo ao Vale dos Reis e além.

A sua presença faz com que alguns viajantes pensem em questões não antecipadas relativas à etiqueta: Você convida ou não o policial para tomar café? Será que o fornecimento de gorjetas é aconselhável? Haveria algum problema em se travar um papo casual com os policiais?

O governo egípcio aumentou a segurança após 58 turistas estrangeiros terem sido assassinados em um ataque, realizado em 1997, por militantes islâmicos, no Templo da Rainha Hatshepsut, em Luxor. O "acidente", conforme os egípcios se referem ao massacre, dizimou a indústria turística local durante certo tempo. Mas por volta de 2000, os rendimentos atingiram níveis recordes da casa de US$ 4,3 bilhões, fazendo do turismo a fonte número um de moeda estrangeira. Embora as cifras de 2001 tenham caído após o 11 de setembro, o governo está decidido a proteger a sua indústria lucrativa.

A forte presença da segurança pretende conter as ansiedades dos visitantes em um país já estigmatizado devido à sua proximidade com os problemas do Oriente Médio, e à percepção truncada da geografia por parte de uma parcela dos turistas, afirma o ministro de Turismo do Egito, Mamdouh El Beltagui. (Afinal, muitos não sabem a diferença entre Giza e Gaza, diz ele, com uma risada). No entanto, medidas chave de segurança não são visíveis para os turistas, acrescenta.

De toda forma, os norte-americanos parecem não se perturbar com as armas semi-ocultas, especialmente depois do 11 de setembro, afirma Nabil Labib, um egiptologista que acompanha os turistas norte-americanos. "Eles apreciam tal medida. Sabem que não são para protege-los de criminosos de rua, e sim de terroristas".

Na verdade, o perigo mais intenso para os novatos no Cairo é o tráfego de trânsito.

"Dirigir aqui é diferente de em qualquer outro local", explica o diretor de programa Ihab Kamel, à medida que passageiros do seu ônibus turístico observam o movimento caótico dos veículos próximo a belas mesquitas e prédios sombrios de concreto, que ladeiam a estrada no centro do Cairo. "É algo de estranho e surpreendente".

O melhor seria dizer desconcertante e terrível. Os carros correm no asfalto, cantando pneus, enquanto os motoristas buzinam freneticamente. As faixas pintadas nas pistas desta cidade agitada de 15 milhões de habitantes são puramente decorativas. É claro que os turistas não querem saber de dirigir. Na verdade, poucos se arriscariam a caminhar pela cidade, pelo menos no Cairo, onde atravessar uma rua requer um ato de fé.

"Dá para imaginar escoltar individualmente 114 pessoas aqui?", questiona Labib, dirigindo-se ao Museu Egípcio, tomando cuidado para ficar sempre à vista do grupo. "Tal tarefa levaria horas!".

Realmente, uma das vantagens da viagem turística em grupo é que ela reduz os transtornos endêmicos que atingem o viajante solitário. Os participantes são poupados de problemas tais como carregar bagagens pesadas, negociar preços e evitar se perder no labirinto de ruas. Os dias vão se passando conforme programado na agenda, enquanto eles vão de um monumento ao outro. Movendo-se em conjunto, da Esfinge, em Giza, até às colunas de Carnak e os templos núbios de Abu Simbel, os guias egípcios, afáveis e conhecedores da história, explicam os detalhes de uma era que floresceu 4 mil anos atrás.

Porém, as viagens turísticas em grupo inevitavelmente diminuem a espontaneidade dos passeios. E o fato de se ser conduzido por guias que se concentram no extraordinário pode acabar obscurecendo as maravilhas dos objetos comuns.

No sétimo dia da viagem, após o navio ter ancorado em Aswan, pelo menos uma passageira escapuliu da festa temática egípcia noturna no salão do navio e se aventurou pela ampla avenida que conduz à cidade. Consciente da dinâmica de grupos, Marillyn Morningstar, uma artista de espírito aberto de Lake Havasu City, no Arizona, (e provavelmente a única passageira a exibir sete tatuagens) se dirigiu ao Hotel Old Cataract, em estilo mourisco, onde Agatha Christie escreveu parte de "Morte no Nilo".

Tendo recebido permissão para entrar, após ter garantido a vários guardas que sé estava ali para tomar um drinque e dar uma olhada, ela foi convidada a se retirar, depois de ter se recusado a pagar uma taxa mínima para permanecer no local.

"Foi a primeira vez em que fui expulsa de um hotel, quando não estava sequer bebendo", reclamou a senhora de 75 anos.

Morningstar encontrou uma recepção mais calorosa por detrás da entrada acortinada de uma loja de produtos de beleza, imprensada entre ruas estreitas. O proprietário, Shady El Saher, fez uma tatuagem temporária no seu braço, arranjou uma pasta de pepino para cuidar de um olho roxo devido a um acidente de viagem e demonstrou a surpreendente arte de corte de cabelos do Oriente Médio.

Um jantar em casas particulares, que é uma marca registrada das viagens da Grande Circle, permitiu que os viajantes tivessem uma interação não comercial com os moradores abastados do Cairo. Em um desses jantares, no apartamento bem decorado de um médico do Cairo, com a esposa e três filhos, os pais forneceram um verdadeiro banquete aos convidados, enquanto os filhos conversavam. Um deles, Shady El Sherif, de 24 anos, já participou de um número suficiente desses eventos para antecipar as perguntas dos norte-americanos.

"Eles perguntam se temos fornos de microondas e máquinas de lavar pratos. Nessas horas fico tentado a lhes perguntar se eles andam de camelo nos Estados Unidos".

Mas o passado é o presente em grande parte do Egito rural. Os fazendeiros consultam o antigo calendário egípcio antes de semear as suas plantações. Em Luxor, detritos arqueológicos jazem semi-enterrados ao longo das ruínas da avenida de 4 mil anos de idade que liga o Templo de Luxor ao complexo de Carnak, em um percurso de pouco mais de três quilômetros.

Foi próximo a Luxor, no Colosso de Memnon, duas estátuas de arenito da altura de edifícios de seis andares, que Donna West, de 56 anos, moradora de Baltimore, deu um aperto de mão no presidente egípcio, Hosni Mubarak, durante um encontro ocorrido por acaso. O carro presidencial parou, e Mubarak saiu do veículo para cumprimentar alguns trabalhadores devido a um trabalho de restauração recentemente terminado nas obras de 3.400 anos de idade. Alguém na multidão gritou, "USA" e o presidente estendeu a mão, apertando a de West, entre outras.

"Foi melhor do que um passeio de camelo", disse ela.

Dias depois, de volta ao Cairo, no lobby do Ramses Hilton, um grupo recém-chegado tinha a aparência abatida causada pela diferença de fuso horário.

Os membros do novo grupo disseram que os amigos e familiares tinham reservas quanto à viagem, falaram que nunca pensaram em cancela-la e que acreditavam que passariam um período muito agradável no Egito.



Tradução: Danilo Fonseca

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