Produtores de cinema investem em relançamentos de filmes famosos

Claudia Puig



No início dos anos 80, os cineastas agiram com cautela ao filmar "Amadeus", uma história sobre o gênio de Mozart e a inveja que ele provocou em um compositor de sua época.

"O filme continha quatro fatores que assustavam qualquer estúdio", afirma o produtor Saul Zaentz. "Ele tinha uma duração de três horas, era um filme de época, não havia artistas conhecidos, e girava em torno de música clássica".

Mas, quando estreou, em 1984, ninguém se assustou com a novidade. O lançamento caiu nas graças da platéia e da Academia, e ganhou oito Oscars, incluindo o de melhor filme.

No último final de semana, 18 anos depois, "Amadeu" foi relançado em cidades selecionadas, com som da mais alta qualidade e 20 minutos adicionais, acrescentados à versão original. A nova encarnação do filme, cujo aprimoramento custou US$ 2 milhões (cerca de R$ 4,6 milhões), também exibe novas músicas. "De Mozart, é claro", diz Zaentz.

O objetivo é inspirar os amantes do cinema e da música a se interessar e, a seguir, comprar o filme em DVD, segundo uma estratégia seguida em outros relançamentos.

No mês passado, "E. - O Extraterrestre", um dos filmes mais populares de todos os tempos, retornou aos cinemas 20 anos após a sua estréia. Na sexta-feira, o aclamado documentário de rock, "A Última Valsa", feito em 1978 por Martin Scorsese, também estará de volta, com som remasterizado e digitalizado. Em junho, "Cinema Paradiso", ganhador do Oscar de filme estrangeiro em 1989, será relançado em salas de exibição de Nova York e Los Angeles, no seu formato original, com três horas de duração. E, no início do segundo semestre, os cinéfilos poderão assistir "Apollo 13" na tela grande - ou melhor, na tela gigante - em uma versão IMAX.

"Não dá para ganhar muito dinheiro com um relançamento", afirma Zaentz. "Todos sabem disso. Especialmente com um filme que foi lançado há 15 ou 20 anos". (O estúdio não divulgou os números da estréia da nova versão de Amadeus, no domingo)

É muito raro que um relançamento - como "O Exorcista", de 1973, que rendeu US$ 39,7 milhões (algo em torno de R$ 91 milhões) em 2000 - seja um grande sucesso de bilheteria. E pode ser difícil de prever o que vai atrair o público após tantos anos.

O recente fascínio com relançamentos remonta há cinco anos. "'Guerra nas Estrelas' estabeleceu novos parâmetros de interesse nos relançamentos em grande escala", afirma Tom Borys, presidente da empresa de avaliação de rentabilidade das salas de cinema, ACNielsen EDI. "'Guerra nas Estrelas' é o típico filme que retorna fazendo sucesso, tendo arrecadado um adicional de US$ 138,3 milhões (aproximadamente R$ 316 milhões) em 1997, duas décadas após ter sacudido as platéias dos cinemas.

"Grease - No Tempo da Brilhantina", que foi relançado em 1998, rendeu sólidos US$ 28 milhões (cerca de R$ 64,2 milhões), enquanto que, no ano anterior, "O Poderoso Chefão" arrecadou somente US$ 1,26 milhão (algo tem torno de R$ 2,9 milhões). "'Grease' literalmente chocou a indústria de cinema", afirma Borys.

Até mesmo o altamente elogiado "Apocalypse Now" faturou apenas US$ 4,6 milhões (cerca de R$ 10,5 milhões) quando foi relançado no ano passado com o título "Apocalypse Now Redux".

"Todos esses filmes em geral já foram vistos na TV no ano passado, ou então as pessoas já os possuem em vídeo, DVD ou disco laser", afirma o analista de entretenimento Dave Davis, da Houlihan, Lokey, Howard and Zukin, de Los Angeles.

Então, porque voltar a lança-los?

Pode ter algo a ver com o estímulo à venda de vídeos para serem assistidos em casa. "Grandes clássicos de bilheteria como "E." ou "Amadeus", aqueles que venderam muito no formato VHS, experimentaram uma queda nas vendas no final dos anos 90", afirma Tom Adams, da Adams Media Research. "Agora, é possível fazer um evento real com esses relançamentos, porque há 25 milhões de residências com DVD, cujos moradores podem querer possuí-los".

Segundo Borys, todos os anos, cerca de 10 a 20 filmes são relançados, e "parte da atração para cativar o público é acrescentar novidades, algo de especial a essas obras"..

"E" aperfeiçoou os efeitos especiais e acrescentou cenas que tinham sido editadas do original (E.T. na banheira, cenas da noite de Halloween). O relançamento do filme, que rendeu US$ 30,5 milhões (aproximadamente R$ 70 milhões), foi programado para celebrar o vigésimo aniversário de "E." e estimular o interesse pela versão em DVD, que deve ser lançada em breve.

Mas a estratégia de relançamento não funciona com todo filme.

"É preciso avaliar se ele ficará bem nas telas dos cinemas, tanto no que diz respeito ao visual quanto ao som Dolby stereo", diz Adams. "'E.T.' e 'Amadeus' se encaixam nesses critérios".

Para os fãs de cinema, não há nada como a tela das salas de exibição, afirma Paul Dergarabedian, presidente da Exhibitor Relations Company Incorporation.

"Você pode ter visto um filme dez vezes. Mas é uma experiência realmente diferente em uma sala de cinema", diz ele. "Sob um ponto de vista visceral e emocional, não há realmente nada como o impacto de um filme na telona".

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