Neil Young entra na era "rock 'n' soul" como fã do bolachão de vinil

Edna Gundersen



LOS ANGELES - Os fãs conhecem Neil Young o roqueiro, o folclórico, o tecnóide, o cantor de rock romântico, o avô do grunge. Esta semana ele recebe um novo título com o lançamento do álbum "Are You Passionate?", uma colaboração com a Booker T. e a MG's.

Bem, olá, Mr. Soul.

Mais de uma década após ter feito uma turnê com músicos tarimbados do estúdio Stax Records, Young convidou o organista Booker T. Jones para ser o co-produtor de um novo álbum. Dois músicos da MG's, o baixista Donald "Duck" Dunn e o baterista Steve Potts, também embarcaram no projeto, assim como o guitarrista Frank "Poncho" Sampedro, da duradoura banda "Crazy Horse", de Young.

As melodias bem elaboradas se encaixam na tradição dos ritmos relaxantes de grooves e funks e se harmonizam com a guitarra peculiar de Young, cheia de lamentos. Young passou 60 dias gravando com o "Crazy Horse" (somente "Goin'Home" foi eliminada da coletânea) antes de fazer um trato com os músicos para que forjassem uma melodia no estilo Memphis.

"Eu realmente queria tocar alguns desses novos sons com Duck, com um ritmo que fosse estimulante e mais ligado aos blues e ao soul", disse Young durante um almoço tardio no Bel Air Hotel. "Eu ainda quis o Poncho, alguém familiarizado com o meu rock 'n' roll, a fim de me certificar que as escalas não sairiam muito do meu padrão".

O primeiro álbum de Young desde "Silver and Gold", de 2000, foi composto em dez dias com apenas uma interrupção devida aos ataques de 11 de setembro. Quando as gravações foram retomadas, "Are You Passionate?", ampliado com a música "Let's Roll", inspirada nos acontecimentos de setembro, passou por uma alteração de clima.

"Tudo mudou", diz Young. "Tudo foi infamado, e as músicas adquiriram um sentido ambíguo. Em determinado momento, tínhamos uma canção adorável. Depois, tratava-se do tema relativo a alguém com um míssil. As gravações e ensaios após o 11 de setembro tiveram um astral diferente. E eu simplesmente deixei que os fatos acontecessem. Até mesmo uma música pequena e simples como "Be With You" adquiriu um novo significado para mim. Ela fala da importância dos relacionamentos. Esse era o meu objetivo. Mas as coisas se embaralharam. Eu gostaria de permanecer com o sentido original e compartilha-lo com os ouvintes".

Após terminar "Passionate", Young resolver se juntar a David Crosby, a Stephen Stills e a Graham Nash, ao invés de embarcar em uma turnê solo.

"Não era o momento exato para sair por ai vendendo o meu produto", disse Young. "Seria uma incongruência. O país precisava de algo diferente. "Crosby, Stills, Nash & Young é algo com o qual a nossa geração é capaz de se identificar. As massas se sentem purificada com algo de confortante e que reafirma que todos ainda estão aqui e juntos. Em um nível cármico, fazer tal coisa é bem superior a apresentar o meu novo material".

Young vai embarcar em uma turnê solo no final do ano, com base em "Passionate", incluindo a mulher, Pegi, e a irmã, Astrid, as suas cantoras favoritas para voz de fundo.

Ele também espera poder retomar o trabalho na sua série de arquivos, que tem sido tão discutida, uma crônica ambiciosa e pesada dos seus mais de 40 anos de música. E qual seria o tamanho desse projeto?

"É muito grande", diz ele.

A primeira amostra, um conjunto de oito CDs que abrange quatro anos de carreira, "está quase pronta", promete ele. "É um trabalho com muito conteúdo, uma jornada cronológica. Nela temos o bom, o ruim e o feio. Na era da informação, não há razão para oferecer o documento integral".

O doloroso processo significa que Young pode passar o resto da vida trabalhando nesta tarefa. Ele terminou de revisar os quatro primeiros anos de gravação pouco antes de fazer "Ragged Glory", 11 anos atrás. Foi quando surgiu o desafio tecnológico de extrair as melhores cópias de matrizes analógicas.

"Está tudo organizado", diz ele. "A única coisa que não fiz foi escolher o material para os volumes dois, três e quatro". Isso significa 24 CDs a mais.

Preservar o seu legado é uma prioridade, mas mesmo assim Young acha o processo frustrante e insatisfatório. O problema, segundo ele, está na decisão auto-destrutiva da indústria musical em substituir os "bolachões de vinil" pelos discos compactos.

Young acha que a queda comercial e criativa no circuito musical é um mero sub-produto da extinção do vinil. Ele insiste em dizer que os selos abandonaram a qualidade 20 anos atrás e ludibriaram os fãs ao empurrar um sistema inferior no mercado, o CD.

"Os vídeos que surgiram à mesma época fizeram com que nos distraíssemos para com o fato de que a música estava literalmente perdendo a sua profundidade", argumenta Young. "Um CD é uma reconstrução da música. Não é sequer um clone. É algo mais semelhante a um brinquedo ou um robô, apenas uma seqüência de zeros e uns, enquanto que a gravação digital é um verdadeiro reflexo, como se fosse uma piscina ou um espelho. Imagine dizer a Picasso, 'Bela pintura; agora vamos envia-la para o público através de fax'. Na minha mente, não tenho dúvidas de que esse é o motivo pelo qual a indústria está fracassando".

Conseqüentemente, Young planeja lançar versões em vinil de todas as gravações do passado e do futuro, incluindo "Passionate" e os arquivos, no seu selo Vapor.

"Cheguei até o DVD de mais alta resolução, e ainda prefiro ouvir a minha música em vinil confecionado a partir de matrizes analógicas", diz Young. "Olho para toda a minha carreira e vejo que não há um outro veículo mais apropriado".



Tradução: Danilo Fonseca

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