Aos 40 anos, cantora Sheryl Crow lança novo álbum

Elysa Gardner


NOVA YORK - Não odeie Sheryl Crow porque ela é bonita. Odeie-a porque ela é a prova de germes.

"Ah, não se preocupe", diz a cantora dirigindo-se a um repórter gripado que, com relutância, contaminou o seu quarto de hotel. "Nunca fico doente". Ela olha com simpatia para o seu hóspede que não pára de fungar. "Você está bebendo bastante água? Pois deveria".

Fica a suspeita de que Crow possa atribuir a sua saúde esplêndida à hidratação apropriada, e não ao bom e velho DNA. Sentada em uma cadeira, essa nativa do Missouri, que tem os cabelos cor de mel, e que entrou no cenário da música pop no início dos anos 90, após ter passado muito tempo como vocalista coadjuvante e compositora para outras estrelas, ainda poderia ser eleita a garota mais bonita na sua turma de filosofia da faculdade.

Mas, na verdade, Crow fez 40 anos em fevereiro - um marco que já é potencialmente abalador para qualquer mulher, e ainda mais em se tratando de uma sensual deusa do rock internacional . E, apesar da sua constituição invejável, ela reconhece que o caminho para o início da meia-idade não foi fácil.

"Os últimos dois anos foram um período de reavaliação", diz Crow. "Foram anos que trouxeram experiências alegres, e agora me sinto bem. Porém, sinto que passei por um período especialmente difícil".

Tal período coincidiu com a gravação de "C'mon, C'mon", o primeiro álbum de Crow feito em estúdio em quase quatro anos, e que será lançado nesta terça-feira. Segundo ela, compor e gravar a sua própria obra foi "um processo grandioso e divertido, mas também difícil. Algumas vezes senti que o período que passei no estúdio foi também um tempo em que deveria estar curtindo a vida, talvez construindo uma família - enfim todas essas coisas que estão associadas a ter completado 40 anos. Eu tentava entender o que o fato de ficar mais velha significa no contexto do rock 'n' roll".

Para Crow, envelhecer certamente não significou se tornar menos produtiva. Desde o lançamento de "The Globe Sessions", em 1998, ela se apresentou bastante ao público - o seu concerto de 1999 no Central Park foi gravado no CD "Sheryl Crow and Friends" - e colaborou com outros artistas em uma vasta gama de projetos.

Ela contribuiu muito para o mais recente álbum solo de Stevie Nick, "Trouble in Shangri-La", que foi muito bem recebido pelo público. Alem disso, Crow participou da fundação da Recording Artist's Coalition, que tem por objetivo proteger os direitos dos músicos, em conjunto com o amigo de longa data, Don Henley.

Nicks e Henley fazem parte de um grupo eclético de astros convidados para "C'mon", que também conta com a participação de Lenny Kravitz, Emmylou Harris, Liz Phair e Natalie Maines. Crow descreve o seu mais recente trabalho como sendo, em grande parte, um produto da sua vida emocional nos últimos anos: "Passei por períodos de grande euforia e extrema depressão".

Um reflexo dos bons períodos é a música "Soak Up the Sun", que confirma o talento de Crow para as melodias que conquistam o ouvinte, dotadas de bons arranjos, e com a característica de terem a sua unidade melódica central envolta por produções contemporâneas brilhantes. O editor de "Airplay Monitor", Sean Ross, afirma que a música está fazendo bastante sucesso no rádio, ainda que a geração de cantoras e compositoras da idade de Crow esteja enfrentando forte competição de artistas mais jovens, como Nelly Furtado e Michelle Branch. "Creio que Sheryl fez a música que precisava fazer. Parece que vai ser um dos grandes sucessos de 2002".

Porém, não houve um esforço premeditado da parte de Crow no sentido de adaptar as músicas aos formatos comerciais. "Eu realmente quis contar com a energia do velho rock 'n' roll, e uma espécie de lançamento de verão. Mas vários temas do álbum são muito maduros".

Crow começou a trabalhar em um novo CD no primeiro semestre de 2000, após ter criado um estúdio na sua casa em Los Angeles. "Tudo durou cerca de um minuto", diz ela. "O estúdio era como um órgão que incomodava na minha casa, me fazendo lembrar a todo momento que eu tinha que ser produtiva, que precisava aproveitar o clima que fora criado e não deixar que as pessoas se esquecessem de mim. Havia essa pressão maluca. Eu dirigia até a minha casa e depois dava meia-volta com o carro e decidia que precisava sair para tomar um café"

"C'mon" acabou sendo gravado em Nova York e em Nashville. Crow passou algum tempo em Detroit com o colega Kid Rock, entusiasta sulista do rock, trabalhando nas músicas e bebendo cerveja Budweiser. "Tal fato me ajudou a voltar à rota normal, já que me retirou da existência meio acomodada em Los Angeles. Foi algo que me lembrou como foi que comecei a carreira, e quem são as pessoas que se relacionam com a minha música".

Sua aproximação de Kid Rock naturalmente gerou boatos de um caso romântico. "Ouçam, eu tenho uma vida amorosa bem ativa, mas gostaria de fazer parte dela", responde Crow. "Você dá uma saída, alguém tira uma foto sua com outra pessoa e, de repente, estou nas páginas dos jornais. Fui a um show do Letterman quando Matt Lauer também estava lá, e no dia seguinte todos os jornais anunciavam que estávamos namorando. E vejam que eu nem sequer o conheci! Mas alguém como eu é sempre visada".

Crow se envolveu em um relacionamento com o ator Owen Wilson, embora o namoro estivesse terminando na época em que começou a gravação de "C'mon". "Mas eu amo Owen. Ele é uma pessoa grandiosa e talentosa". No momento, a cantora está em uma "carreira solo", conforme a define. "Mas houve muita gente maravilhosa e compassiva na minha vida, e me considero uma pessoa de sorte por tal fato. Ainda estou um pouco consternada devido à forma como as coisas funcionam, mas nunca perdi o meu otimismo quanto a amar e ser amada. É no que acredito".

De fato, enquanto fazia as gravações em Nova York, Crow fez uma epifania sobre tais questões, recebendo alguns conselhos de uma outra roqueira respeitada.

"Chrissie Hynde veio até o estúdio e compartilhou alguma sabedoria que realmente ressoou. Ela disse que a música é algo que fazemos, mas que não deve se constituir na sua vida. De várias formas, deixei que a música se transformasse no meu bode-expiatório, no meu band-aid e no meu santuário. Tive que me afastar dela um pouco para perceber que, mesmo que não o faça, ainda assim sou uma pessoa integral, com uma vida esplêndida".

Crow ainda tem que decidir se tal vida ainda vai incluir um casamento ou filhos. "Não sei como me sinto a respeito de botar uma criança neste mundo agora. Estamos vivendo em um planeta tão volátil. Penso em tais coisas porque vim de uma família grande e sou muito unida a ela. Mas sei que, por ora, estou seguindo o curso que deve ser seguido".

É claro que algumas das visões e abordagens que distinguem tal curso evoluíram. Embora Crow tenha passado grande parte da década de 90 fazendo apresentações incansavelmente, e sua agenda de shows já esteja completa até julho e agosto, ela vai continuar com os seus próprios projetos. "Muita gente que trabalha comigo tem famílias, e eu também preciso estar em casa".

A cantora também passou a se sentir mais confortável com o seu status de símbolo sexual, e com a fascinação da mídia com este fato, e com o tamanho das suas roupas. "Agi por muito tempo como uma adolescente teimosa", diz ela. "Estava convicta de que a minha música era a única coisa que importava. Usava a minha credibilidade como se fosse uma armadura".

"Agora me sinto como realmente tendo 40 anos. Me sinto confortável com o meu corpo, e estou curtindo este período da minha vida. Ainda prefiro não me apresentar em roupas que mostram tudo, já que creio que essa seria uma opção menos sexy - que acabaria com todo o clima de mistério. Mas fiz umas duas sessões fotográficas que foram mais orientadas para a minha pele, e foi divertido. O rock 'n' roll é divertido, e a energia sexual faz parte dele".

Segundo Anthony DeCurtis, editor da revista Rolling Stone, Crow não corre o risco de perder nem o seu apelo sexual nem a sua integridade criativa. "Por mais atraente que fosse, Sheryl Crow nunca se centrou na imagem fotográfica. Ela se engajou em um esforço concentrado para fazer um rock autêntico e a sua música é cheia de juventude e sensualidade. Isso vai lhe ajudar, a medida em que fique mais velha".

A própria Crow não faz apostas sobre o que o futuro possa lhe reservar, seja pessoalmente ou profissionalmente. "Mas há pessoas que vejo por aí há muito tempo e que ainda estão cheias de energia vital - como, por exemplo, Emmylou Harris, meu ídolo como artista e pessoa, que está sempre em processo de crescimento nas direções mais diversas. Eu espero que possa ter uma carreira desse tipo. Não sei no que vou me transformar, mas não tenho medo quanto a isso. Dois anos atrás, eu teria dito que tudo o que tinha dentro de mim era o medo. Agora, sei que tudo o que estiver fazendo é aquilo que deve ser feito".



Tradução: Danilo Fonseca

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