Escândalos sexuais desmoralizam Igreja Católica nos Estados Unidos

Cathy Lynn Grossman


Em um momento no qual a Igreja Católica nos Estados Unidos enfrenta denúncias de abusos sexuais cometidos por padres e de acobertamentos dos escândalos por parte de paróquias e catedrais, tanto católicos quanto não católicos se perguntam o que será necessário para "purificar" essa Igreja, e quem lideraria um movimento nesse sentido.

Toda semana, homens e mulheres vêm a público relatar memórias dolorosas de abusos sexuais cometidos por padres, quando essas pessoas eram crianças ou adolescentes.

"Se preparem para mais más notícias. Eu tenho recebido 25 denúncias por dia, e as pessoas estão citando nomes", afirma o ex-padre A.W. Richard Sipe, um psicoterapeuta que passou quase quatro décadas trabalhando como conselheiro para o clero e para os católicos leigos. Ele serviu como testemunha especializada em 56 casos de abusos sexuais ocorridos na Igreja. O número total de vítimas pode ser incontável.

Após ter dito ao principal bispo dos Estados Unidos que tem "profunda simpatia" pela problemática Igreja estadunidense, o papa João Paulo Segundo tomou na última segunda-feira a extraordinária iniciativa de convocar todos os 13 cardeais dos Estados Unidos para uma reunião na próxima semana em Roma.

"Os especialistas prevêem que, na agenda da reunião, estará não só a discussão da dor causada por sacerdotes que são verdadeiros predadores sexuais, mas também a profunda desconfiança e raiva expressas pelos católicos para com a 'ignorância, incompetência e incapacidade de gerenciar problemas' demonstradas pela sua liderança", afirma John Allen, correspondente no Vaticano para o jornal católico semanal, National Catholic Reporter.

A promessa dos bispos quanto à "tolerância zero" para a má conduta de sacerdotes foi desacreditada por uma nova onda de denúncias inéditas e memórias traumáticas estimuladas pela quantidade de casos novos e antigos que atraiu mais atenção, à medida em que as vítimas resolveram falar sobre acordos legais que fizeram anos atrás. Baseado nos estudos que faz desde 1960, Sipe estima que 6% dos padres tiveram envolvimento sexual com jovens com menos de 18 anos.

Os dois principais cardeais da nação, dos quais se esperava que, devido a sua idade, personalidades fortes e dioceses prestigiadas, apontassem formas de restaurar saúde e integridade na igreja institucional, não têm sido capazes de se concentrar no escândalo crescente.

O cardeal Bernard Law, 70 anos, de Boston, que foi acusado de transferir, ocultar e até de promover molestadores sexuais incorrigíveis, se recusa a renunciar ao posto, apesar da enorme pressão exercida por párocos, sacerdotes, políticos e vários grandes jornais.

Uma pesquisa de opinião realizada na semana passada pela Quinnipiac University, em Hamden, Connecticut, revela que 43% dos norte-americanos - e a mesma percentagem de católicos do país - acham que as políticas errôneas e o acobertamento praticados pelos líderes da Igreja "contribuíram mais para atingir a reputação da Igreja do que o abuso sexual de jovens por padres". Mas 29% dos 1.347 adultos ouvidos pela pesquisa nacional e 31% dos 326 católicos entrevistados disseram que foram os atos dos sacerdotes que prejudicaram mais a reputação da Igreja.

Entre os católicos, 83% dizem que o escândalo sexual não abalou a sua fé na religião ou nos sacerdotes de suas paróquias (86%). Mas 32% afirmaram que o problema abalou a sua confiança nos cardeais e bispos.

A Conferência de Bispos Católicos dos Estados Unidos quer que cinco sacerdotes elaborem uma nova proposta de política nacional para lidar com abuso sexual, mas o plano já está sofrendo pesadas críticas. Três bispos designados para o comitê estão envolvidos em processos legais por terem participado na transferência dos padres predadores ou por haverem ocultado informações sobre escândalos sexuais. Os bispos são John B. McCormack, de Manchester, New Hampshire; John Gaydos, de Jefferson City, Montana; e James Quinn, de Cleveland, Ohio.

O arcebispo de Milwaukee, Rembert Weakland, que supervisionou a criação de um dos programas, citados por alguns como um modelo para que os bispos lidem com os abusos sexuais praticados por sacerdotes, está atualmente sendo criticado por ter ocultado a história de um padre que molestou crianças.

O chefe do Conselho de Bispos Católicos dos Estados Unidos, Wilton Gregory, arcebispo de Belleville, Illinois, muitas vezes cita a arquidiocese de Chicago como sendo um outro modelo.

Em Chicago, o já falecido cardeal Joseph Bernadin, estabeleceu um novo procedimento em 1993, que incluía um comitê de revisão independente e diretrizes para lidar com os casos de abusos sexuais de menores. O comitê resolveu uma confusão que já durava 40 anos, envolvendo 50 casos e um número não divulgado de padres. A arquidiocese pagou aproximadamente US$ 10 milhões (cerca de R$ 23,2 milhões) às vítimas, segundo o reverendo Thomas Paprocki, o representante da arquidiocese no comitê.

Mas nem todos acham que Chicago deveria ser o modelo padrão. "O caso de Chicago é bom na retórica, mas fraco na ação", critica David Clohessy, co-diretor da delegação de Chicago da organização Rede de Sobreviventes dos Abusos Cometidos por Padres. "Eles são bons no terreno das relações públicas, mas ruins quanto aos resultados concretos. As políticas escritas são praticamente sem sentido. Não há o cumprimento das normas. É algo como se estabelecer um limite máximo de velocidade sem contar com guardas rodoviários para fazer cumprir a lei".

E Gregory e os bispos da conferência não têm poder para impor o modelo de Chicago sobre as outras 188 dioceses da nação. A conferência é uma rede onde bispos narram problemas mútuos, propõe projetos e agem como a voz de Roma nos Estados Unidos, e a voz dos norte-americanos em Roma. "Cada bispo é um apóstolo de Cristo, encarregado de ensinar, santificar e governar a sua diocese", afirma o reverendo Richard John Neuhaus, editor do jornal religioso First Things.

Gregory foi ao Vaticano na semana passada participar de encontros anuais, com a intenção anunciada de buscar um "plano de ação". Ele inicialmente saiu de encontros privados com João Paulo Segundo com pouco mais do que as simpatias do papa e o comentário de que o escândalo o havia "tocado profundamente".

Mas, no momento em que Gregory estava a caminho de sua casa, em Belleville, o Vaticano anunciou as reuniões para a próxima semana. Segundos os especialistas, mesmo com o planejamento dessa reunião incomum, os norte-americanos não devem esperar que o papa João Paulo Segundo anuncie um plano destinado a um bilhão de católicos do mundo, que se incorpore com o sistema legal dos Estados Unidos.

"O papa é o primeiro entre iguais, o bispo de Roma, o sucessor de Pedro, mas ele não é o xerife da cidade, ou a Interpol ou o FBI", fairma Neuhaus. "Ele não é o presidente-executivo, e a igreja não é tampouco a sua empresa".

O papa exerce a suprema autoridade de ensinamento no que tange à fé e à moral, em conjunto com cardeais e bispos, mas Roma não vai intervir em operações que são prerrogativas de bispos ou estabelecer regras sobre como os bispos devem agir com as autoridades civis e criminais em seus países.

"O papa pode ordenar aquilo que quiser, mas, mesmo que ele ordene algo, isso não garante que tal ordem vá ser se materializar em um fato", explica o reverendo Thomas Reese, autor do livro "Inside the Vatican: The Politics and Organization of the Catholic Church" (Dentro do Vaticano: A Política e a Organização da Igreja Católica).

Após documentos terem emergido na semana passada, revelando o envolvimento direto do cardeal Law, de Boston, no acobertamento de mais de um padre pedófilo predador, houve boatos de que o Vaticano o estaria pressionando para que renunciasse ou aceitasse uma transferência.

Segundo Allen, o Vaticano tem plena consciência de que as dimensões do escândalo estão aumentando. Mas a cúria, a grande e emperrada burocracia internacional que governa as operações institucionais da Igreja Católica, está aborrecida, e suspeita da atmosfera frenética nos Estados Unidos e da sua demanda característica por uma solução rápida, diz ele.

"O pensamento predominante em Roma é que este problema deve ser resolvido no nível local. O sistema legal norte-americano é muito diferente do europeu. As idéias dos estadunidenses sobre sexualidade, poder e responsabilidade legal também são diferentes. Os europeus vêem os norte-americanos como um povo tomado por uma histeria puritana exagerada quando à sexualidade", diz Allen.

A característica mais marcante do papado de João Paulo Segundo foi a sua autoridade didática. Ele controlou sistematicamente os pensadores, escritores, teólogos e clérigos católicos, colocando-os no rumo do entendimento mais conservador da doutrina católica. Ele chamou repetidamente a atenção dos bispos, especialmente aqueles muito influenciados pela cultura dos Estados Unidos, no sentido de que se alinhassem firmemente com a autoridade da Igreja em cada aspecto da vida, nascimento e morte, e em todas as relações pessoais, políticas e sociais.

Ao se monitorar a ação em meio a uma crise, a Igreja Católica, de 2 mil anos, não se move com a velocidade de Nova York.

Demorou três anos para que o papa João Paulo II removesse um cardeal austríaco, após alegações de que ele teria molestado sexualmente garotos. Ele levou quatro dias para aceitar a renúncia do bispo Anthony O'Connel, de Palm Beach, Flórida, que deixou o cargo em março, após admitir ter abusado de um jovem.

Um dos mais aguerridos defensores da Igreja na cultura popular, William Donohue, presidente da Liga Católica pela Religião e Direitos Civis e editor de um jornal que fala sobre o preconceito contra católicos na sociedade, chama essas feridas auto-infligidas da Igreja de "indefensáveis". Ele diz que vai defender os ensinamentos gloriosos da sua fé, mas que não vai apoiar os líderes que agiram mal.

Donohue e outros só vêem uma saída para o escândalo - a estrada da fé.

"As pessoas estão buscando desesperadamente um antídoto para a peçonha que, no momento, atinge a todos nós", afirma o teólogo Thomas Groome, autor do livro "What Makes Us Catholics" ("O Que Faz de Nós Católicos"). "Não vamos achar tal remédio nos indivíduos que compõe a Igreja", diz ele, "mas sim na profunda espiritualidade e na rica tradição sacramental do Catolicismo. Nós permitimos que a Igreja tomasse o lugar de Deus em nossas vidas. Esta crise de liderança humana pode fazer com que retornemos a uma fé mais profunda".



Tradução: Danilo Fonseca

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