Especialistas discutem impacto de relações sexuais entre adultos e crianças

Karen S. Peterson
USA Today

Sexólogos e acadêmicos estão imersos em uma controvérsia a respeito de um tópico sobre o qual a maior parte dos norte-americanos não admite sequer pensar: sexo entre adultos e crianças. Alguns desses especialistas estão escandalizando muita gente ao afirmar que nem todas as atividades sexuais entre adultos e menores de idade são necessariamente negativas. O resultado é um questionamento de um dos tabus mais fortes deste país.

Os pais e outros grupos da sociedade podem ficar chocados com a idéia, especialmente no contexto do atual clima de escândalos relacionados a abusos sexuais cometidos por sacerdotes. Mas alguns pesquisadores e acadêmicos sérios querem revisar o termo "abuso sexual de crianças", substituindo-o por um outro, de conotação mais neutra, tal como "sexo entre adulto e criança".

Eles não afirmam que o sexo feito sob coação seja aceitável. Longe disso, o que eles questionam são situações como a condenação de um jovem de 25 anos, acusado de estupro por ter feito sexo com a sua namorada de 17 anos, ansiosa por manter relações sexuais. As leis variam de acordo com o Estado em questão.

E o que dizer de uma mulher mais velha que proporciona uma iniciação sexual a um adolescente maduro? Essa é uma fantasia bem aceita por vários jovens, e um tema freqüente de programas de TV e do cinema, incluindo o filme clássico "Houve uma Vez um Verão".

Os especialistas discutem se o sexo com um adulto é mais prejudicial para adolescentes do sexo feminino do que para os do sexo masculino, conforme indicam certas pesquisas. Também em discussão está a possibilidade ou não de que um menor de idade possa realmente iniciar a relação sexual com um adulto. No entanto, se o amante mais velho for uma figura revestida de autoridade, como, por exemplo, um professor, um técnico esportivo ou um sacerdote, a maior parte dos cientistas sociais respeitáveis afirma que o desequilíbrio de poder é evidente.

A controvérsia está mobilizando alguns pesquisadores de universidades famosas. "Creio que, por um longo período, as evidências claras são de que o abuso sexual de crianças e adolescentes nem sempre causa danos no longo prazo", afirma David Finkelhor, da Universidade de New Hampshire, um dos mais famosos especialistas do país em abuso sexual de crianças. "Essa é a boa notícia". Ele diz que um problema é determinar se alguns jovens são mais maduros e "capazes de consentir em manter relações sexuais com parceiros mais velhos".

A idéia de que menores de idade possam realmente consentir em manter relações sexuais simplesmente horroriza críticos que se encaixam no mais variado espectro ideológico. "O nosso maior objetivo é tentar descobrir como colocar um fim a essa insensatez, essa idéia que justifica e encoraja as relações sexuais entre adultos e menores", afirma Paul Fink, ex-presidente da Associação Psiquiátrica Norte-Americana.

"Será que estão abrindo a temporada de caça aos nossos filhos?", critica Stephanie Dallam, pesquisadora do Conselho de Lideranças sobre Saúde Mental, Justiça e Mídia, um grupo de defesa das crianças, sem fins lucrativos, que se concentra no problema da pedofilia.

"Não se deve permitir que o problema seja escamoteado com essa conversa de relações sexuais entre um adulto e um jovem de 17 anos, versus a relação entre o adulto e um menor de idade bem mais novo", afirma Dallam. "Essa é apenas uma manobra da batalha desfechada pelos pedófilos", diz ela. "Tão logo consigam a aprovação para que se faça sexo com indivíduos de 15 a 17 anos, eles vão partir para chegar aos adolescentes de 12 e 13".

"Ainda há muita coisa a ser esclarecida", afirma Finkelhor. "Seria bem mais fácil de se lidar com a questão do sexo entre adultos e menores se os Estados Unidos tivessem menos crianças que foram vitimizadas e tão prejudicadas pela imposição de atividades sexuais com adultos".

Críticos alarmados muitas vezes citam uma lista de efeitos negativos que Finkelhor catalogou. Entre eles estão depressão, desordem de estresse pós-traumático, vício em drogas e álcool, uma introdução precoce à vida sexual, um grande número de parceiros e uma maior tendência para ser sexualmente vitimizado em estágios posteriores da vida. As discussões sobre o sexo entre adultos e menores estão aparecendo em publicações periódicas profissionais, incluindo uma edição especial do mês passado do American Psychologist", um jornal da Associação Psicológica Norte-Americana (APA).

Segundo a porta-voz da APA, Rhea Farberman, os pesquisadores não estão tentando estabanadamente virar de cabeça para baixo valores tradicionais norte-amercianos. Não há a intenção entre os principais profissionais de saúde mental e acadêmicos da área de ciências sociais de "legitimar o sexo entre adultos e menores". Mas ela afirma que existem questões que são objetos razoáveis de pesquisas, incluindo a análise dos tipos de atividade sexual, que incluem tudo que se encaixe entre uma carícia e um estupro.

Segundo ela, um dos problemas com se deparam os pesquisadores é o de definir os termos. "A sua definição, a minha e a do pesquisador da sala ao lado podem ser completamente diferentes umas das outras. Estamos falando sobre relações homossexuais ou heterossexuais? O que é sexo? Qual a idade para que alguém seja definido como 'criança'?".

"Para a APA, o abuso sexual é por definição exatamente um abuso, sendo imoral e errado", diz ela. "Mas todos nós concordamos que uma situação é bem mais séria e potencialmente danosa quando uma menina de nove anos é estuprada do que quando uma adolescente de 16 anos consente em fazer sexo com um rapaz de 19 anos. Precisamos ser muito cuidadosos com relação aquilo que falamos".

A questão das relações entre adultos e menores tem sido abordada por programas televisivos como o Boston Public, o Once and Again e o Dawson's Creek. O personagem interpretado por Peter Krause no programa Six Feet Under recentemente revelou que a sua iniciação sexual ocorreu quando ele tinha 15 anos, com uma mulher 20 anos mais velha. E uma continuação do filme de 1971, "Houve uma Vez em um Verão" estaria sendo elaborada.

A polêmica descambou em uma batalha pública sobre um livro que deve ser lançado em 1º de maio, a respeito de crianças e sexualidade. "Harmful to Minors: The Perils of Protecting Children from Sex" ("Prejudicial para Menores: Os Perigos de Proteger as Crianças do Sexo") foi editado pela University of Minnesota Press, uma famosa editora acadêmica. A autora, Judity Levine, é uma respeitada jornalista e ativista que escreve sobre sexo e família há 20 anos.

O livro desencadeou ataques ásperos dos críticos que dizem que a publicação deveria ser proibida. A Universidade de Minnesota, que fornece 6% do orçamento da editora, respondeu às críticas no início de abril, ao anunciar uma revisão independente da maneira como a editora escolhe o material que publica.

Ao contrário do que dizem alguns críticos, o livro não advoga a pedofilia, afirma Douglas Armato, da University Press. Ao contrário, ele abre espaço para a discussão aberta e honesta sobre a sexualidade de crianças e adolescentes. "Nós publicamos um livro de 300 páginas, e a população está prestando atenção a apenas quatro páginas", lamenta ele.

Segundo Armato, para cada unidade do livro, a editora tem recebido dois e-mails, mas ele acredita que um marco foi superado. "Estamos começando a ouvir comentários favoráveis daqueles que dizem que tais tópicos precisam ser discutidos".

O livro de Levine se concentra na necessidade dos educadores sexuais em obter informação sexual concreta para adolescentes. Segundo ela, assusta-los, enfatizar exageradamente os perigos representados pelos pedófilos e predadores sexuais que vagam pela Internet e super protege-los são atitudes que trazem mais prejuízos do que benefícios".

"No meu livro, deploro qualquer tipo de sexo sem o consentimento mútuo entre pessoas de qualquer idade", disse ela em uma entrevista. "Mas os adolescentes merecem respeito por suas escolhas, e eles necessitam que nós lhes forneçamos ferramentas emocionais e práticas para que possam tomar boas decisões".

Quando tinha 17 anos, Levine manteve relações sexuais com um homem de mais de 20 anos. Ela acredita que esse tipo de relacionamento nem sempre é danoso. Mas, no seu livro, ela vai bem mais além. Ela elogia a lei holandesa sobre a "idade de consentimento ", que permite que os adultos mantenham relações sexuais com adolescentes entre 12 e 16 anos de idade, caso os jovens concordem. Tanto os adolescentes quanto os seus pais podem entrar com processos legais, caso a relação tenha sido coercitiva.

A reação veio rapidamente. "Estamos atônitos com o livro de Levine", afirma Fink, que também é diretor do Conselho de Liderança sobre Saúde Mental, Justiça e Mídia. "As crianças precisam crescer sem ser perturbadas ou usadas pelos adultos. Todo este movimento está justificando as necessidades dos adultos ao utilizar as crianças de uma forma negativa".

"As crianças deveriam ser sexualmente intocáveis. Existe um esforço concertado entre certos acadêmicos para modificar a atitude basicamente negativa da sociedade com relação ao sexo com crianças. Eles tentam dizer que os dados científicos demonstram que algumas crianças não sofrem danos, e, portanto, a sociedade está errada ao pensar que o sexo entre adultos e crianças seria prejudicial".

Outros se opõe de forma exaltada ao livro de Levine. Robert Knight, do Instituto da Família e da Cultura, rotula o livro de "maligno". Segundo o seu web site, o instituto é guiado por Deus e pela Bíblia. "O livro defende a pedofilia", diz ele. "Não o li do começo ao fim, mas estou familiarizado com os seus temas. Ela está se baseando em pseudo-ciência. O livro dá um verniz científico aos argumentos utilizados pelos molestadores de crianças.

A Associação Psicológica Norte-Americana está novamente tendo que se confrontar com a polêmica questão do sexo entre adultos e crianças. Um artigo de 1998 em uma das suas mais obscuras publicações, o Psychological Bulletin, gerou uma verdadeira tempestade, que incluiu uma denúncia do Congresso. Agora, uma edição especial de março de 2002 do American Psychologist, publicada pela APA, examina como a associação lidou com aquilo que se tornou um debate interminável.

No artigo de 1998, três autores analisaram 59 estudos de estudantes universitários que recordaram experiências de abuso sexual. Os pesquisadores anunciaram que, apesar do que muita gente pensa, "o abuso sexual infantil não causa danos intensos inevitáveis, independentemente do gênero da população universitária, embora os homens tenham sofrido menos do que as mulheres. E eles concluíram que alguns menores experimentaram reações positivas em encontros desejados com adultos, segundo a análise feita em março pela APA, sobre o que aconteceu após a publicação, e sobre o porque do que aconteceu.

Um dos autores - o pesquisador Robert Bauserman, que estava na Universidade de Michigan em 1998 - atualmente afirma, "Tenho a sensação de que se uma pessoa não disser que todo indivíduo com menos de 18 anos fica permanentemente prejudicado psicologicamente por qualquer tipo de experiência sexual, essa pessoa é chamada pelos críticos de aliada dos pedófilos". Ele diz que nunca defendeu uma lei para diminuir a "idade de consentimento" ou para "modificar as normas sociais". Ao invés disso, Bauserman afirma que, pesquisadores do seu tipo "precisam identificar as situações e as circunstâncias que causam maiores danos".

O pesquisador Finkelhor diz que, como sociedade, "Parecemos ter uma extrema dificuldade em reconhecer a necessidade de limites. Vamos ficar discutindo esse assunto durante muitos anos".



Tradução: Danilo Fonseca

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