Interrogatórios de prisioneiros em Guantanamo dão poucos resultados

Jonathan Weinsman e Toni Locy
USA Today
Em Washington

Desde que foi preso no mês passado, o membro da Al Qaeda, Abu Zubaydah, está todo enfaixado, se recuperando de ferimentos de espingarda em um leito hospitalar no Paquistão. Ou talvez no Afeganistão. Ou, quem sabe, em Norfolk, Virginia.

Mas, com todo o sigilo que cerca o paradeiro de Zubaydah, os oficiais militares e de inteligência têm deixado claro qual é o lugar onde ele não está: o centro de detenção na base naval norte-americana em Guantanamo, Cuba.

E as autoridades norte-americanas têm muitos motivos para relutarem em trazer Zubaydah para o único local que parece ter sido projetado para o seu interrogatório. O trabalho de interrogatórios implelmentado na base da Baía de Guantanamo têm sido, em grande medida, um fracasso, segundo admitem fontes de inteligência e oficiais de defesa.

"A experiência com interrogatórios tem sido miserável", afirma uma fonte de inteligência no Congresso. "Foi um desastre desde o princípio".

Ao se defrontar com prisioneiros que são considerados extremamente perigosos, os líderes militares em Guantanamo optaram pelas medidas de segurança, devido às recomendações dos interrogadores, afirmam os oficiais de defesa.

O arranjo mais seguro encontrado foi colocar os detentos juntos em grandes grupos que podem ser monitorados de perto. Essa estratégia pode ter fornecido mais segurança às tropas norte-americanas, mas um oficial do Pentágono admite que a medida pode também ter tornado os interrogatórios bem mais difíceis.

Ao passar grandes períodos juntos em ambientes fechados, os prisioneiros têm muitas oportunidades para criar estórias-cobertura, fortalecer a moral do grupo e monitorar os membros da Al Qaeda que estão dando sinais de fraqueza. Como resultado, praticamente todos os prisioneiros deram a mesma explicação sobre a sua presença no Afeganistão: eles estavam no país, ou para arranjar esposas, ou para estudar o Alcorão.

Uma fonte de inteligência dá um quadro desalentador das primeiras tentativas de interrogatório. Os prisioneiros - conscientes de que os seus interrogadores entendiam o árabe - passaram a falar em francês, dizendo em voz-alta lembretes de última hora sobre a estória-cobertura quando os companheiros saíam para ser interrogados.

O Comando Militar do Sul, que possui o controle sobre a base da Baía de Guantanamo, se recusou a abrir mão da autoridade sobre os procedimentos da prisão para a Força Tarefa Conjunta-170, uma coalizão de interrogadores do FBI, da CIA e militares.

E o estoque de funcionários do governo fluentes na língua árabe, já no limite no Afeganistão e no Oriente Médio, tem sido inadequado para a tarefa em Guantanamo, segundo os oficiais de inteligência.

O deputado Porter Goss, republicano da Flórida, chefe do Comitê do Congresso sobre Inteligência e um ex-agente da CIA, tem ficado tão preocupado com os problemas dos interrogatórios que, recentemente, exigiu do Pentágono um inquérito sobre a situação, segundo um oficial militar.

Mas o oficial defende a atitude dos militares. Segundo ele, a segurança é o fator primordial.

Autoridades do governo também afirmam que, muito antes de serem capturados, a maioria dos prisioneiros teve acesso aos manuais de treinamento da Al Qaeda, com técnicas anti-interrogatórios.

Um membro do Departamento de Justiça, habituado às práticas militares em Guantanamo, também defende a forma como tem se lidado com os prisioneiros. O interrogatório tem sido lento, mas também metódico, segundo ele. O grupo de interrogadores da força-tarefa foi deliberadamente mantido pequeno, de forma que cada interrogador saiba o que os outros estão ouvindo dos detentos.

Cada um dos 300 detentos já foi interrogado pelo menos uma vez, e a força-tarefa está dando início a uma segunda rodada de interrogatórios. Mas, segundo os oficiais, até mesmo sob a melhor das circunstâncias, esses detentos têm demonstrado ser muito difíceis de serem persuadidos a confessar qualquer coisa.


Tradução: Danilo Fonseca

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