Excesso de senhas atrapalha a vida de usuários

Craig Wilson
USA Today

Os caras legais que controlam o setor de informática aqui do jornal me enviaram um e-mail um dia destes me informando que eu teria que trocar a senha que uso todas as manhãs no meu computador. O motivo alegado foram preocupações com a segurança.

A idéia de que alguém possa desejar invadir o meu computador me parece absurda, mas a minha mãe me avisou anos atrás que há muita gente instável solta pelo mundo, e, portanto, as precauções que tomamos nunca são demais. É claro que a mensagem da mamãe chegou ao setor de informática.

Eles não só me disseram que eu teria que trocar a minha senha, mas também que não poderia escolher uma senha qualquer, como, por exemplo, algo de que pudesse me lembrar. Não, isso seria muito fácil. Nós, que ganhamos as nossas vidas com palavras, não temos permissão de usar uma delas para começar o nosso dia de trabalho.

De toda forma, estou convencido de que a história consiste em mais uma conspiração não muito sutil para eliminar aqueles de nós que são velhos o suficiente para se lembrar do confortável ruído de uma máquina IBM Seletric. Já confessei em outra oportunidade que a minha memória já não é mais o que costumava ser; que eu mal consigo me lembrar do meu próprio nome, e, agora, o mundo moderno está exigindo que eu me lembre de uma enorme quantidade de senhas.

Assim como a minha amiga, Melinda, eu não consigo encontrar sequer os objetos de valor que escondi em casa antes de sair de férias no verão passado. A idéia era esconde-los dos candidatos a ladrões - mas agora eles estão escondidas também de mim. Mas qualquer dia desses vou topar com as minhas preciosidades e ficar agradavelmente surpreso ao constatar o quanto fui esperto em esconde-las no local onde atualmente se encontram.

Mas essa estória de mudar a minha senha, que não pode mais ser o nome do meu cachorro - uma palavra que usei durante anos - é algo de mais sério. Até mesmo nas minhas manhãs mais sombrias eu podia me lembrar do nome do meu amigo canino: MURPHY.

Agora, isso acabou.

Não faz muito tempo que o único número que se precisava guardar na memória era o do telefone, e, mesmo assim, você não precisava realmente sabe-lo já que raramente ligava para si próprio.

Atualmente, milhões de nós somos incapazes de entrar em nossos carros ou residências sem um número, uma senha, um código. Uma das minhas vizinhas, que espertamente compartilhou o seu código de segurança conosco, nos liga com freqüência para perguntar qual é o número, de forma que possa entrar em casa e desligar o sistema antes que a polícia apareça. Nós a adoramos.

Um outro dia fiquei uns cinco minutos em frente a um caixa eletrônico, esperando que a minha senha de quatro dígitos fluísse do meu cérebro para os meus dedos, de forma que estes últimos pudessem dançar pelo teclado, liberando o dinheiro para o meu fim-de-semana. Finalmente me lembrei do número, mas não sem que antes todos aqueles que estavam na fila atrás de mim tivessem se convencido de que, ou eu sofrera um derrame cerebral, ou estava usando o cartão de outra pessoa, digitando números aleatoriamente na esperança de surrupiar uma grana.

E há coisas piores. Não faz muito tempo, eu fazia um trabalho em Utah e telefonava para a sede do jornal, usando o prefixo de ligação gratuita 800. Tratava-se de um número que eu digito há mais de uma década. É claro que eu poderia me lembrar dele naturalmente depois de discar 800. Mas o que aconteceu foi que me deu um branco. Eu coloquei a culpa no ar rarefeito das Montanhas Rochosas.

E quanto à senha para acessar uma conta que possuo de aplicações financeiras? Não faço a menor idéia de qual seja, mas sei que está enfiada em alguma gaveta na minha casa. É só uma questão de encontrar o pedaço de papel.

Se tiver sorte, isso vai acontecer antes que eu me aposente.



Tradução: Danilo Fonseca

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