Desarmado, Arafat pode finalmente derrotar Sharon

Dewayne Wickham
USA Today
Em Washington (EUA)

Sim, Arafat; o senhor está livre.

Após um mês de cerco ao seu quartel-general na Cisjordânia, Iasser Arafat recebeu permissão para sair do prédio arruinado, depois que enviou seis dos seus homens a uma prisão que será guardada por soldados britânicos e norte-americanos.

O julgamento e a condenação dos homens que estão na lista dos mais procurados por Israel, e a sua subseqüente prisão, deram aos israelenses o pretexto que precisavam para se retirar da cidade palestina de Ramallah. Pelo menos por um tempo suficiente para que Arafat possa avaliar os estragos nas imediações dos seus destroçados escritórios. A bem da verdade, a liberdade com que conta Arafat é limitada. Afinal, o território palestino é, de fato, pouco mais do que uma colônia israelense.

Mesmo antes de o conflito atual ter emergido, Israel controlava as fronteiras e os aeroportos dos domínios de Arafat e estabelecia quais os tipos de armas que os soldados palestinos teriam permissão para portar. Em grande medida, o conflito que devasta o Oriente Médio desde dezembro de 2000 é uma batalha entre um lado colonizador e um colonizado.

Isso não quer dizer que Israel não tenha sido movido por um bom motivo para invadir os territórios palestinos. Sim, não há como negar. Trata-se de uma invasão e não de uma incursão. As nações, até mesmo aquelas que tomam más decisões quanto a políticas externas, como é o caso de Israel, possuem, mesmo assim, um direito de revidar contra aqueles que lançam ataques brutais contra a sua população.

A incapacidade demonstrada por Arafat em controlar ou impedir a ação dos militantes suicidas foi o fator que precipitou a invasão israelense, que tanto sofrimento está causando ao povo palestino. Mas, mesmo tendo um motivo para agir, Israel agiu de forma irresponsável.

O Estado judeu utilizou força excessiva na sua retaliação e -- sabendo perfeitamente que agia desta forma -- impediu que os jornalistas pudessem ver de perto as suas ações militares. Depois, após a fumaça das batalhas ter se dissipado e começarem a aparecer as acusações de crimes de guerra, o líder israelense, Ariel Sharon, impediu que a Organização das Nações Unidas (ONU) realizasse uma investigação dos ataques desfechados contra o campo de refugiados palestinos em Jenin.

Tanto Arafat quanto Sharon trazem sangue nas mãos.

Mas, considerando-se o desequilíbrio de forças neste conflito e a pequena fresta de liberdade aberta por Israel para o líder palestino, cabe a Arafat buscar uma solução pacífica para este conflito.

Isso não será fácil. Tanto Arafat quanto Sharon são mais guerreiros do que estadistas. Eles passaram grande parte de suas vidas tentado promover mudanças à força, por meio do cano de armas. Sharon levou a melhor contra Arafat no campo de batalha. Mas, caso seja esperto, Arafat poderá obter a maior das vitórias.

Para isso, o líder palestino teria que controlar os militantes armados do seu povo e acabar com todas as tentativas de pôr um fim à ocupação colonial de Israel por meio de uma sangrenta campanha de terror. A dura lição que Arafat deve aprender com a posição em que atualmente se encontra é que, somente atuando como estadista, e não como guerreiro, ele será capaz terminar com a condição colonizada do povo palestino.

Gostando ou não deste fato, Arafat precisa entender que Israel é a potência militar dominante no Oriente Médio. E os Estados Unidos, a única superpotência mundial, são o santo patrono do Estado judeu. Por mais justa que seja a sua causa, as táticas do líder palestino geraram mais indignação do que simpatia para com os palestinos, tanto em Washington quanto em Tel Aviv.

Por meio da resistência não violenta, Arafat pode fazer com que aumente a pressão em ambas as capitais pelo fim da ocupação israelense dos territórios palestinos. A melhor chance que possui de conquistar a independência que almeja é usar as táticas de Mahatma Gandhi e de Martin Luther King, a fim de fazer com que a opinião pública nos Estados Unidos e em Israel se volte contra a insistência de Sharon em continuar ocupando os territórios palestinos.

Arafat deve rejeitar em público os apelos dos grupos palestinos que desejam uma nova onda de violência. Na próxima semana ele deve ir ao encontro de cúpula árabe, no Cairo, e aceitar decididamente o plano de paz da Arábia Saudita. A proposta fornece a Israel uma garantia de segurança e o reconhecimento diplomático dos países árabes em troca de uma retirada completa dos territórios palestinos.

A retirada de Israel deu a Arafat uma chance de conquistar para o seu povo a liberdade que eles realmente merecem. Mas ele só precisa entender que somente por meio de uma luta não violenta será capaz de alcançar a sua meta.

Tradução: Danilo Fonseca

UOL Cursos Online

Todos os cursos