Faixa de Gaza é uma "bomba-relógio"

Vivienne Walt
USA Today

"Sente-se aqui", ordena o homem armado, que usa máscara e uniforme camuflado, apontando para uma cadeira. Em um aposento escurecido por cortinas negras, o líder da pequena milícia conta qual é o seu plano: realizar ataques mais violentos contra Israel.

"A resistência é a nossa principal arma", afirma Naser Seif Al Din, 25, que comanda um dos vários grupos militantes com sede na Faixa de Gaza. A sua milícia se chama Al-Nasser Salah-e-Din, em homenagem ao conquistador árabe Saladino. Quatro militantes mascarados mantêm a visitante sob a mira de seus fuzis automáticos Kalashnikov, enquanto Seif Al Din divulga a mensagem do grupo. "Temos armas de fogo, explosivos e armamentos antitanque. Estamos prontos para fazer mais shahids (mártires)".

Oculto em uma extremidade deste campo de refugiados que abriga 70 mil pessoas está um dos problemas mais embaraçosos com que se defrontam autoridades palestinas e israelenses: como atenuar o ódio que se disseminou pelos territórios palestinos desde setembro de 2000, quando começou a atual intifada.

Durante o mês passado, a atenção de todo o mundo se voltou para o conflito que arrasou cidades inteiras na Cisjordânia e matou centenas de pessoas. Israel alega que desencadeou a ofensiva militar no território palestino para destruir fábricas de bombas e caçar militantes armados. A Faixa de Gaza, a sudoeste da Cisjordânia, e que faz fronteira com o Egito, foi completamente isolada, frustrando o esforço dos ativistas que queriam se infiltrar em Israel.

A ofensiva israelense contra a Cisjordânia parece estar diminuindo de intensidade, mas a guerra ainda não chegou ao fim. Os grupos militantes de Gaza continuam praticamente intactos, 135 quilômetros ao sul de Jerusalém. Os ativistas do grupo Hamas, em Gaza, assumiram responsabilidade pelo ataque suicida a bomba contra uma boate nos arredores de Tel Aviv, na noite da última terça-feira.

Autoridades de ambos os lados acreditam que uma nova frente de batalhas seja inevitável e que os confrontos provavelmente ocorrerão em breve. Eles crêem que, caso isso ocorra, a explosão em Gaza -- onde vivem 1,2 milhão de palestinos -- pode ser ainda pior do que a da Cisjordânia.

Histórias de exílio e perdas

Mais de dois terços dos moradores da Faixa de Gaza são originários de famílias que foram expulsas de suas casas, localizadas no território hoje pertencente a Israel, depois que o Estado judeu declarou a sua independência, em 1948. Atualmente, os campos onde vivem esses refugiados se tornaram cortiços permanentes, que são autênticos centros de ódio contra Israel. Um ódio que prevalece entre pessoas que cresceram em meio a histórias de exílio e perdas. A Faixa de Gaza, um trecho de cerca de 42 quilômetros de extensão, ao longo do Mediterrâneo, é densamente povoada.

"A Faixa de Gaza é uma bomba-relógio onde haverá um banho de sangue", afirma Raji Sourani, um famoso advogado da região que administra o Centro Palestino de Direitos Humanos. Ele diz que grupos como a milícia de Seif Al Din são os mais perigosos. "Eles estão se proliferando, e não podem ser controlados. Esses indivíduos não necessitam de tanques ou minas, já que se sentem mais felizes se defendendo com a própria pele".

A façanha da qual a milícia de Seif Al Din mais se orgulha ocorreu no início deste ano, quando os seus combatentes destruíram um tanque israelense com explosivos caseiros.

Isolada pelo bloqueio imposto por Israel, a Faixa de Gaza se tornou uma autêntica prisão, segundo os moradores. Soldados mantêm vigilância sobre tudo e todos do alto de torres de concreto e dos seus tanques de guerra. Dois postos militares de controle bloquearam as únicas vias de acesso no sentido norte-sul, e se transformaram em palcos de batalhas diárias entre os soldados invasores israelenses e os palestinos acuados.

Devido ao fato de dezenas de milhares de palestinos terem sido impedidos de se locomover até os seus empregos em Israel, a Faixa de Gaza se transformou em um território de pedintes, que depende completamente de ajuda externa. Os economistas do Banco Mundial calculam que a taxa média de desemprego deva ficar próxima aos 65% este ano, e a renda per capita na região deverá girar em torno de US$ 800, o que representa aproximadamente um vigésimo da renda per capita média de um morador de Tel Aviv.

Durante anos, Israel considerou discretamente a possibilidade de abrir mão da Faixa de Gaza, que o Estado judeu capturou do Egito na guerra de 1967. Mas atualmente existem no território ocupado 19 assentamentos judeus com cerca de 6.900 pessoas.

Os colonos judeus são protegidos por cerca de sete mil soldados israelenses. O primeiro-ministro Ariel Sharon rejeitou secamente a proposta de desativar qualquer assentamento, apesar da sensação que prevalece entre muitos israelenses de que os colonos fanáticos de Gaza não valem o custo militar e político que é pago por Israel.

Confinados em um local onde impera a pobreza e a desesperança, os moradores de Gaza aprendem a militar desde a infância: os muros são cobertos de grafites com frases que pedem a morte dos israelenses. As crianças brincam nas ruas com metralhadoras de brinquedo.

"Eles não vão nos pegar de surpresa"

Muhaned Kullab, 13, diz que aprendeu na escola como cuidar de ferimentos e lutar contra incêndios. "Não somos como a Cisjordânia. Aqui, eles não vão nos pegar de surpresa", garante o garoto. No jardim de infância administrado pelos pais de Muhaned, um retrato de Osama Bin Laden está pendurado ao lado de uma colagem de fotos de crianças assistindo a aulas. No mês passado, soldados israelenses capturaram um grupo de crianças que tentavam penetrar em um assentamento judeu levando explosivos primitivos de fabricação caseira.

Algumas autoridades israelenses admitem que a invasão da Faixa de Gaza, como foi feito na Cisjordânia, é não só algo de inevitável, mas também uma medida sábia. "Se a Faixa de Gaza for abandonada à própria sorte, teremos uma situação bastante perigosa", afirma Daniel Seaman, porta-voz do governo israelense.

A Faixa de Gaza pode se constituir em um problema ainda mais difícil para Israel do que tem sido a Cisjordânia.

"Vamos lutar até a última bala", afirma Jihad Alwazir, 39, vice-ministro assistente palestino de Planejamento e Cooperação.

Em março, milícias como a de Seif Al Din começaram a realizar treinamentos militares semanais na praia, segundo os moradores. Muhammed Kullab, 17, o irmão mais velho do pequeno Muhaned, afirma estar exultante por ter sido escolhido para participar dos treinamentos. Com as águas do Mediterrâneo molhando os seus pés, ele e seus amigos já tiveram sete aulas, onde aprenderam a carregar os seus rifles e a atirar. O rapaz diz que outros grupos começaram a se especializar em explosivos.

"Todos que puderem lutar lutarão se Israel invadir Gaza", adverte Kullab, um adolescente alto e de porte atlético, que cursa o segundo grau. Ele diz que espera estudar engenharia química após tirar o diploma secundário, no mês que vem. "Aí poderei fazer bombas que realmente causem danos a Israel", explica.

Os vizinhos de Kullab da rua Tarek Ben Ziad, assim como muitos outros no campo de refugiados, passaram as últimas semanas levantando barreiras com sacos de areia, na esperança de "retardar" o avanço dos tanques israelenses, diz o adolescente.

Armados e distantes do centro do poder palestino, na capital da Cisjordânia, Ramallah, os militantes da Faixa de Gaza demonstram impaciência para com os esforços diplomáticos realizados em Washington e na Europa. Eles dizem que não vão aceitar nenhum acordo que não envolva a retirada total dos soldados israelenses e dos colonos judeus, bem como a criação de um Estado palestino independente que tenha Jerusalém como sua capital.

"Os ataques realizados por nossos mártires (homens-bomba) tiveram grandes resultados", diz Seif Al Din, sentado no seu esconderijo armado, no interior do Campo da Praia. "Achamos que foi uma grande conquista destruir a sensação de segurança dos israelenses. Agora, os invasores sabem que vamos combate-los em qualquer lugar".

Tradução: Danilo Fonseca

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