Direita dos EUA faz vistas grossas à aproximação entre Bush e Ozzy Osbourne

Chuck Raash
USA Today
Em Washington (EUA)

Imagine se fosse Bill Clinton, e não George W. Bush, que tivesse prestado homenagem ao metaleiro superstar Ozzy Osbourne, durante o sofisticado Jantar dos Correspondentes na Casa Branca.

A extrema-direita teria rosnado devido àquilo que seria mais uma prova do declínio cultural e da falência moral dos Estados Unidos de Bill Clinton. Ao invés disso, a bem-humorada reverência de Bush à "Ozzy-mania" gerou principalmente silêncio entre os seus aliados.

Estariam os republicanos usando dois pesos e duas medidas? Ou seria o sinal de um cenário político diferente, um reflexo de como as batalhas culturais que ocorriam antes do 11 de setembro teriam se tornado menos relevantes nesta era de maior seriedade?

Não há dúvidas de que se espera que os presidentes sejam engraçados e irreverentes em tais jantares. E, durante a administração Clinton, os norte-americanos se acostumaram a um presidente envolvidos com a cultura popular. Grandes artistas de cinema dormiram no Quarto Lincoln e produtores de Hollywood coreografaram cada passo de Clinton. Portanto, em um salão cheio de grandes personalidades da política e do entretenimento, pareceu natural para Bush também prestar homenagem ao mais recente fenômeno de cultura popular dos Estados Unidos.

"Ele gravou muitos sucessos: 'Party With the Animals', 'Sabbath, Bloody Sabbath', 'Face in Hell', 'Bloodbath in Paradise'", gracejou Bush. "Ozzy, a mamãe adora o seu trabalho".

Os presentes riram, e um outro capítulo foi escrito na história da mistura de política e cultura popular. A Ozzy-mania é um exemplo de política real na "TV America", onde ninguém precisa ser nada de substancial -- nem mesmo coerente -- contanto que seja famoso.

Segundo todas as versões, incluindo a sua própria, Osbourne é um veículo de propaganda a favor das drogas e do alcoolismo. Ele é famoso por ter arrancado a cabeça de um morcego com os dentes em um show de rock e pelas suas músicas que falam sobre inferno, destruição, desordem e sangue.

É claro que tão cedo ele não vai ser o autor dos jingles de campanha eleitoral do Partido Republicano.

Mas há quem esteja interpretando esse ato como um novo programa da MTV, no estilo "reality show", sobre a luta de Osbourne, repleta de profanações, para alcançar a tranqüilidade doméstica. Trata-se de um desses acontecimentos culturais quentes que ocasionalmente emergem da obscuridade devido ao absurdo implícito em suas premissas.

Durante anos, os pais tentaram em vão manter esse cara distante das crianças. Agora eles estão sintonizados em seu programa de TV. E ouvindo o presidente fazer gracinhas com o roqueiro em público.

A fim de que ninguém fique achando que a teoria de que a direita estaria lançando mão de dois pesos e duas medidas é muito fantástica, basta lembrar que na convenção presidencial de 2000 Bush surgiu de um setor do Partido Republicano que falava sobre a "restituição da decência e da honra ao espaço público".

Quando Alan Keyes se esbaldou em um show da banda Rage Against the Machine, após um comício em Iowa, o candidato foi massacrado no debate eleitoral seguinte, em New Hasmpshire.

"Essa banda é contrária a família, a favor dos assassinos de policiais e simpatizante dos terroristas", criticou o candidato Gary Bauer. "O senhor não acha que deve um pedido de desculpas aos pais e aos policiais pela sua atitude?".

Keyes respondeu timidamente, alegando que a sua presença no show teria sido "um emblema da confiança". Mas o argumento de Bauer era que Keyes, que nunca perdera uma chance de criticar as limitações morais de outros, deveria prestar mais atenção aos seus parceiros de concertos de bandas "heavy metal".

E por que Bauer não exige o mesmo comportamento impecável de Bush? Afinal, é evidente que as músicas de Ozzy há mais de 25 anos não tem sido exatamente o que se pode chamar de exemplos de hinos enaltecedores dos valores da família.

Bauer prefere não falar sobre isso, tendo dito que o ambiente já anda tenso para si, devido às suas críticas contra a política de Bush para o Oriente Médio.

Mas Dan Quayle fez comentários sobre Ozzy. Na quinta-feira, no 10º aniversário do seu discurso "Murphy Brown", o ex-vice-presidente elogiou a mensagem anti-drogas que os pais da geração Osbourne passam para os filhos adolescentes.

Após um evento no National Press Club, em Washington, onde defendeu o seu polêmico discurso sobre as mães solteiras, Quayle disse à CNN que "realmente vê alguma compensação em relações familiares bizarras".

Aqui vai uma explicação para os padrões diferentes utilizados para julgar os dois presidentes: a vida pessoal de Clinton era um alvo tão visado pela direita religiosa e as suas políticas tão diferentes daquelas da extrema direita que os conservadores culturais não lhe deixavam espaço para respirar em termos de simbolismo ou substância. Assim, a cada movimento de Clinton, a direita se sentia compelida a atacá-lo.

Uma outra explicação está no fato de Bush ser poupado por evitar os pontos fracos característicos de Clinton. E a direita, que já está reclamando da política de Bush com relação a Israel, reluta em atacar Bush de forma muito contundente devido a atos simbólicos, já que as ações do presidente em outras frentes lhes têm agradado. Um exemplo recente foi o argumento no tribunal do Departamento de Justiça a favor do direito dos indivíduos em portar armas de fogo, garantido pela Segunda Emenda da Constituição. Desde o governo Nixon que o grupo de lobby das armas de fogo não ouvia uma argumentação tão enfática a seu favor vinda do governo federal.

Os anos Eisenhower foram marcados por Ozzie e Harriet. Nos anos de Bush 2, é a vez de Ozzy e de um palavrão impublicável.

Tradução: Danilo Fonseca

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