O que o mundo pensa de George W. Bush?

Susan Page e Bill Nichols
USA Today
Em Washington (EUA)

Um ano atrás, às vésperas da sua primeira viagem à Europa como presidente, George W. Bush convidou um importante membro do Partido Democrata para comparecer ao Salão Oval da Casa Branca.

"E então? Me fale sobre a Europa", pediu o presidente.

O convidado ficou surpreso, aborrecido porque Bush conta com assessores para orientá-lo e, afinal, partiria na manhã seguinte. Mas Bush insistiu. O presidente fez algumas perguntas genéricas sobre política, mas o que ele mais desejava era uma explanação sobre os líderes europeus.

Bush parte na próxima quarta-feira para uma outra viagem a Europa e, desta vez, sabe mais sobre o continente, e os líderes do velho mundo conhecem melhor Bush. Mas o encontro descrito acima, ocorrido em junho do ano passado, relatado por uma pessoa que estava presente, diz muito sobre como o presidente é visto em círculos diplomáticos e como ele conduz a sua política externa.

Ele chegou à presidência como um neófito, com pouca experiência em questões externas. Desde então, a reputação de Bush foi polida pela sua resposta aos ataques de 11 de setembro, e ele estabeleceu laços de amizade com o presidente russo, Vladimir Putin -- os dois presidentes vão assinar acordos de segurança e controle de armamentos esta semana -- e com o primeiro-ministro britânico, Tony Blair. Assessores da Casa Branca afirmam que Bush se sente cada vez mais à vontade com assuntos externos.

Mesmo assim, o presidente muitas vezes deixa as complicações da política exterior a cargo da conselheira de Segurança Nacional, Condoleezza Rice, ou do secretário de Estado, Colin Powell. Ele mantém alguns pontos de vista irredutíveis -- por exemplo, que a guerra contra o terrorismo se constitui em uma luta entre o bem e o mal, e que o presidente iraquiano, Saddam Hussein, deve ser derrubado do poder -- e não abre mão dessas posições, por mais incisivos que sejam os argumentos do interlocutor que dele discorde.

Os líderes mundiais claramente compreendem o difícil trabalho que Bush enfrenta ao travar a atual guerra não convencional. Não houve críticas de líderes estrangeiros quando foram divulgadas notícias segundo as quais Bush foi avisado, em agosto do ano passado, da possibilidade de que a Al Qaeda pudesse tentar seqüestrar aviões norte-americanos.

Mas ainda existem dúvidas quanto à visão global de Bush -- e até mesmo quanto à sua capacidade de concentração. Após um encontro de cinco horas com Bush, no seu rancho no Texas, ocorrido no mês passado, o príncipe saudita Abdullah disse que o presidente era "honesto, corajoso e altamente compassivo", porém desinformado. "Ele é o tipo de pessoa que dorme às 21h30, após assistir ao noticiário de TV", disse o príncipe saudita ao jornal Okaz, na semana passada. "De manhã, ele somente lê umas poucas linhas daquilo que é escrito sobre o Oriente Médio e o mundo, devido às suas grandes responsabilidades".

O ministro das Relações Exteriores da França, Hubert Vedrine, foi mais duro do que a maioria das autoridades do velho mundo quando expressou a inquietação de alguns líderes europeus quanto as rumos da guerra contra o terrorismo após a campanha do Afeganistão. "Atualmente estamos ameaçados por um novo simplismo", disse ele em uma entrevista à rádio Inter France, em fevereiro, que motivou uma enxurrada de explicações oficiais. Vedrine disse que Washington estaria demonstrando sinais de estar agindo "unilateralmente, sem consultar ninguém".

Atualmente, o respeito está misturado com o ceticismo. Em Paris, o Le Monde publicou uma charge amigável na semana passada que mostrava Bush e Putin usando mísseis nucleares vazios como taças de vinho. "Um brinde ao fim...", Bush começa a falar. "...da Guerra Fria!", completa Putin. Mas as charges nos jornais alemães representam Bush usando um chapéu de caubói, disparando um revólver no estilo dos pistoleiros de faroeste. Alguns diplomatas questionam se Bush pensou nas conseqüências de derrubar Saddam e, em especial, no tipo de regime que poderia suceder o do ditador iraquiano. Eles se preocupam com a possibilidade de Bush ter abandonado os seus princípios quanto ao livre mercado para a política doméstica, já que aumentou as tarifas sobre o aço importado e aprovou subsídios mais altos para a agropecuária.

Duas escolas de pensamento

E eles observam apreensivos a disputa entre Powell, um internacionalista, e o secretário de Defesa Donald Rumsfeld, que é menos sensível à opinião mundial.

"Antes, a preocupação era com Bush -- Será que ele estaria prestando atenção? Será que saberia os nomes dos líderes de outros países?", diz o presidente do Comitê de Relações Internacionais do Senado, Joseph Biden. "Tal quadro mudou. Os líderes estrangeiros demonstraram admiração pela forma como ele lidera e a habilidade com que agiu após o 11 de setembro. Mas ainda há dúvidas sobre quem fala por Bush. Que política externa ele estaria escolhendo? Ele estaria com Rumsfeld e sua turma barulhenta, ou com Powell e as pessoas em quem podemos confiar, segundo uma ótica européia?".

"Há uma distinta impressão na Europa e no Oriente Médio de que há várias escolas de pensamento em Washington", disse o rei da Jordânia, Abdullah, em uma entrevista ao USA Today, durante a sua visita este mês aos Estados Unidos. "A escola de pensamento de Powell é a correta".

E até que ponto são importantes as opiniões de reis e primeiro-ministros?

Bush precisará contar com a confiança e o apoio dos líderes europeus e dos árabes moderados, para que a conferência de paz do Oriente Médio, em meados deste ano, tenha sucesso. E ele buscará um apoio pelo menos tácito desses líderes se e quando os Estados Unidos atacarem Saddam.

Ele é o estadista improvável.

"Esse é um presidente que, dentre todos os presidentes modernos, provavelmente tem o menor currículo em questões de política externa", afirma o senador Chuck Hagel, membro do Comitê de Relações Exteriores. "Ele sequer viajou muito e não conhece bem o mundo. A sua experiência internacional restringia-se quase que apenas às suas relações com o presidente do México, quando era governador do Texas".

"Até o 11 de setembro, a maior parte das lideranças mundiais não acreditava que Bush fosse um líder sério", diz Robert Hunter, ex-embaixador norte-americano na Otan. Mas os ataques a Nova York e a Washington colocaram a política externa no centro da agenda de Bush e forjaram uma coalizão internacional em torno do presidente.

"O 11 de setembro projetou esse presidente no palco internacional como nenhum outro presidente norte-americano desde Franklin Roosevelt", afirma Hagel. "Os líderes mundiais estão impressionados com os instintos de Bush. Eles sabem que esse presidente não é particularmente o mais entendido em questões internacionais, mas ele está engajado, e faz perguntas".

Bush não possui o amplo intelecto do seu predecessor, Bill Clinton, afirmam aqueles que trabalharam com ambos. Mas eles vêem qualidades positivas em Bush com as quais Clinton não contava:

Tomada rápida de decisões. Clinton era capaz de discutir durante a noite toda um determinado assunto e levar semanas ou meses para chegar a uma conclusão. Durante os preparativos para a guerra contra o Afeganistão, Bush demonstrou aos outros líderes a sua facilidade para tomar até as decisões mais difíceis rapidamente.

Diplomacia pessoal. Bush criticou Clinton durante a campanha de 2000 por confiar muito em relacionamentos pessoais quando tratava de relações internacionais. Mas agora os seus assessores afirmam que as relações cultivadas por Bush são um ponto positivo. "Os europeus têm estado surpresos e impressionados pela amizade que Bush desenvolveu com Putin", afirma Lee Feinstein, um ex-assessor da secretária de Estado, Madeleine Albright.

Dimitry Rogozin, que chefia o Comitê de Assuntos Internacionais na Duma russa, afirma que Bush e Putin se relacionam bem "porque Bush é natural". Ele explica: "Quando Bush ri, é porque há algo que realmente achou engraçado".

As relações de Blair com Bush são tão próximas que estão criando problemas para o líder do Reino Unido no seu país. Os jornais britânicos publicam charges em que o primeiro-ministro aparece como o cãozinho poodle de Bush.

Discurso direto. No início, o repúdio de Bush à utilização de frases ambíguas de diplomacia perturbava algumas pessoas. Mas essa característica é atualmente vista por muitos como um fator positivo. No ano passado, Bush disse que Washington faria "tudo o que fosse necessário para ajudar Taiwan a se defender", caso a ilha fosse atacada pela China.

Embora o comentário tenha causado muita confusão, ele reafirmou a política norte-americana quanto à reunificação pacífica e voluntária entre a China e Taiwan. "É bem mais fácil lidar com gente desse tipo porque sabemos exatamente qual é a sua posição", afirma Ivo Daalder, assessor do Conselho de Segurança Nacional na administração Clinton. "Mas saber se isso compensa o fato de a sua posição ser errada é uma outra questão".

O chefe de Relações Internacionais da Câmara, Henry Hyde, diz que diplomatas que vêm visita-lo ainda apresentam dúvidas quanto ao presidente. "Creio que eles se preocupam com Bush", afirma o deputado republicano de Illinois. "Os diplomatas acham que o presidente não é muito brilhante, que é unilateralista e que não os consulta de forma adequada. É claro que eu acho que eles estão errados quanto a essas três avaliações".

Quando irromperam crises de política internacional, em diversas ocasiões Bush tomou uma atitude inicial equivocada -- por exemplo, tendo usado uma retórica dura quando um avião espião norte-americano pousou avariado em uma ilha chinesa no ano passado, ou apoiando inicialmente a invasão militar israelense dos territórios palestinos este ano. Mas ele se recuperou rapidamente. Os seus defensores dizem que isso é um sinal de que Bush aprende rápido. Já os seus detratores afirmam que isso demonstra que ele ainda tem muito que aprender.

Os funcionários da Casa Branca dizem que Bush às vezes resiste a se envolver com tópicos mais complicados, tais como o Oriente Médio. Mas quando ele se convence que tal envolvimento é inevitável, transforma-se em um estudante ávido.

"O presidente já sabia mais do que as pessoas pensavam que soubesse, mas ele também aprendeu muito com as crises que teve que enfrentar", diz Raymond Tanter, membro do Conselho de Segurança Nacional na administração Reagan.

Durante a sua viagem à Europa, Bush vai mergulhar em algumas das questões mais delicadas da sua agenda. Ele se encontrará com Putin, cuja boa-vontade em aceitar a decisão do presidente norte-americano em se retirar do tratado de mísseis balísticos intercontinentais, em dezembro do ano passado, evitou aquilo que certos críticos previram que seria uma nova corrida armamentista. Na quinta-feira, em Moscou, os dois presidentes vão assinar um tratado para reduzir em dois terços os arsenais nucleares de suas nações. Em uma reunião da Otan em Roma, na próxima terça-feira, a aliança ocidental e o seu inimigo da Guerra Fria vão formalizar um acordo para a cooperação em casos de ameaça à segurança advindos do terrorismo e das armas de destruição em massa.

Algumas autoridades russas se preocupam, no entanto, com a possibilidade de Bush não compreender o risco político que Putin está correndo ao auxiliar os Estados Unidos na guerra contra o terrorismo. Eles dizem que Bush precisa fazer mais para ajudar a falida economia russa e apoiar a aproximação da Rússia com o Ocidente.

Outras questões complicadas também devem ser discutidas quando Bush se encontrar com o presidente francês Jacques Chirac, em Paris, com o chanceler alemão, Gerhard Schroeder, em Berlim, e com outros líderes da Otan em Roma. Essas questões incluem a próxima fase da guerra no Afeganistão, a continuidade da crise no Oriente Médio e a nova geração de líderes que estão assumindo o governo na China. E, é claro, o próximo passo a ser dado com relação ao Iraque.

Os membros da administração dizem que uma "doutrina Bush" está emergindo: um presidente que segue os seus instintos, enquanto se aferra com devoção à idéia de manter os Estados Unidos em primeiro plano, mesmo que o resto do mundo não aprecie tal atitude. Hyde chama isso de "idealismo pragmático".

"Tudo isso diz respeito ao exercício do poder -- significando que temos mais poder do que os outros e que vamos utilizá-lo para que eles façam aquilo que desejamos", afirma Daalder. "É a política do 'se vire'. O problema é seu, e não meu".

Tradução: Danilo Fonseca

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