Bispos dos EUA querem regras mais duras para combater pedófilos

Cathy Lynn Grossman
USA Today

Na quarta-feira, oito bispos católicos de várias regiões dos Estados Unidos vão se reunir a portas fechadas para discutir uma das questões mais difíceis que já se enfrentaram: como responder à crise de abusos sexuais na igreja.

A sua missão: preparar esboços de novas diretrizes que capacitem a igreja a identificar e afastar os padres pedófilos, bem como a prevenir a sua atuação.

Esse é um fundamental primeiro passo para a Conferência dos Bispos dos Estados Unidos, que precisa redigir o esboço final de um documento para ser submetido à aprovação do papa. A conferência completa, à qual comparecerão 300 bispos, ocorrerá em junho, e os principais clérigos do país têm se concentrado neste tópico desde uma reunião de emergência sobre o assunto, no Vaticano, no mês passado.

A nova política deve ser suficientemente clara e rígida para satisfazer os 63 milhões de católicos norte-americanos, indignados com o fato de a igreja ter sido incapaz de protegâ-los. Além disso, espera-se que seja demonstrado, por parte das autoridades católicas, o respeito devido à dignidade, à dor e à privacidade das vítimas. As medidas também devem resguardar os direitos dos padres acusados, atendendo tanto à lei da igreja quanto à legislação civil e criminal norte-americana.

Os bispos parecem concordar quanto a vários elementos da nova política, segundo o cardeal Theodore McCarrick, arcebispo de Washington. De acordo com o cardeal, será adotada a política de "tolerância zero", tanto para os padres que já foram acusados, quanto para novos casos que eventualmente ocorram.

A maioria dos bispos defende que se façam denúncias às autoridades civis. No passado, alguns bispos enviaram alguns padres metidos em apuros para outras paróquias, sem alertar ninguém sobre as acusações que sobre eles pesavam. McCarrick afirma que tal fato não pode mais ocorrer.

Esta não é a primeira tentativa do grupo em resolver o problema. Em 1993, após um outro pedófilo inveterado, acusado de 101 casos de estupro e de abusos sexuais, ter ido para a prisão, o grupo estabeleceu diretrizes para afastar imediatamente padres suspeitos de suas paróquias e avaliar cada caso para determinar se tais clérigos deveriam ser expulsos da igreja.

Mas, devido ao fato de cada bispo controlar independentemente a sua diocese, as diretrizes acabaram adquirindo um caráter voluntário, diz o bispo Wilton Gregory, presidente do grupo.

Em abril, Gregory visitou o papa, buscando permissão para que os bispos norte-americanos estabelecessem o seu próprio protocolo de acordo com a nova lei canônica, as regras que governam a igreja em todo o mundo, de forma que houvesse uma uniformização das políticas em todo o país.

João Paulo 2º respondeu convocando os principais bispos e todos os 13 cardeais dos Estados Unidos para irem a Roma a fim de se encontrarem com a liderança do Vaticano e discutir uma posição apropriada a ser tomada pela igreja. O papa afirmou que o abuso sexual é um pecado e um crime que não seria tolerado.

De fato, quando os clérigos norte-americanos retornaram ao seu país, alguns cardeais pediram uma política de "tolerância zero" para com os pedófilos, independente da época em que os abusos foram perpetrados. Outros, tais como McCarrick e o arcebispo de Newark, John Myers, disseram que deveria haver certa flexibilidade para lidar com aqueles que praticaram abusos sexuais apenas uma vez e que, a seguir, se reabilitaram e passaram a agir bem nos anos seguintes.

Mas Patrick Schiltz, reitor da Escola de Direito da Universidade Saint Thomas, espera que os bispos estabeleçam que as denúncias passem a ser obrigatórias e adotem a tolerância zero com relação a qualquer episódio de abuso sexual, por mais antigo que seja, porque "caso não o façam, o risco será muito grande".

"E, mesmo se um padre for absolvido em um tribunal federal, se eu fosse um bispo, não permitiria que tal pessoa continuasse trabalhando para mim", afirma Schiltz.

A criação do subcomitê foi uma tarefa difícil.

A princípio, Gregory selecionou John McCormack, bispo de Manchester, como presidente do grupo. Mas McCormack foi afastado após a reclamação dos fiéis, devido ao papel que teria desempenhado na Arquidiocese de Boston, e a alegações de que teria abafado escândalos envolvendo padres pedófilos convictos.

O grupo que se reúne esta semana é agora liderado pelo arcebispo Harry Flynn, de Saint Paul, Minnesota. Outros membros do comitê são o bispo William Lori, de Bridgeport, Connecticut; o bispo John Gaydos, de Jefferson City, Missouri; o bispo de Salt Lake City, Utah, Georghe Niederaurer; e três advogados canônicos: Myers, bispo de Newark; o bispo de Dallas, Joseph Galante, e o bispo auxiliar de Cleveland, A. James Quinn.

Tradução: Danilo Fonseca

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