Diretor Christopher Nolan assume ter prazer em chocar espectadores

Scott Bowles
USA Today

Christopher Nolan adora os seus fãs, mas nem por isso quer que eles se sintam muito confortáveis.

De que outra forma explicar a montanha-russa cerebral a que ele submete a platéia em "Amnésia", o seu filme de mistério sobre um viúvo que busca vingança e sofre de perda de memória?

"Creio que o público se sente muito relaxado ao assistir aos filmes de hoje", afirma o diretor. "Eles acreditam em tudo o que vêem e ouvem. Gosto de sacudi-los para que saiam desse estado".

É de se esperar que a platéia se mexa um pouco nos assentos quando assistir ao filme de suspense "Insônia". O filme, estrelando Al Pacino, Hilary Swank e Robin Williams, narra a estória de um complicado detetive de Los Angeles que caça um assassino em uma remota cidade no norte do Alasca. Assim como o sol que nunca se põe durante o verão naquelas latitudes, o passado assombra incessantemente o detetive Will Dormer, interpretado por Pacino, um personagem que sofre de insônia crônica.

À primeira vista, pode parecer que não há muita diferença quanto a "Amnésia", o "cult-movie" que deu a Nolan uma indicação ao Oscar de melhor roteiro no ano passado. Mas "Insônia" vai além, rumo a um final que não é nem impecavelmente correto nem marcado por exageros hollywoodianos.

É o tipo de estória que Nolan adora.

"Muitos filmes de estúdio não nos fazem pensar", critica. "Os personagens não vivem dilemas morais, particularmente em filmes policiais. São trabalhos que não geram nenhuma ambigüidade".

E a ambigüidade tem sido uma matéria prima para a carreira do jovem Nolan. O seu primeiro filme, "Following", conta a estória de um escritor inexperiente que fica obcecado por pessoas desconhecidas e vasculha as suas vidas.

Mas foi só após "Amnésia" que ele capturou a atenção de Hollywood. "Insônia" foi co-produzido por George Clooney e Steven Soderbergh, que viu uma versão incompleta de "Amnésia" e a apreciou tanto a ponto de recomendar Nolan aos executivos da Warner Brothers para o seu próximo projeto.

"Amnésia é um trabalho bastante maduro, especialmente em se tratando de um segundo filme. Eu fiquei extasiado", conta Soderbergh. "Já 'Insônia' é um ótimo companheiro para 'Amnésia', porque ambos são filmes muito subjetivos que colocam o público no interior da experiência do personagem central. Christopher nos coloca dentro da cabeça de Will Dormer".

Segundo Nolan, a escolha de Pacino para interpretar Dormer não teve nada de acidental.

"Eu queria um policial lendário", conta o diretor. "Tão logo você o vê na tela, acredita nele. Dá para olhar nos seus olhos e entender tudo o que está se passando".

Mas, assim como a maior parte dos personagens de Nolan, há mais em Dormer do que os olhos enxergam. E nem mesmo o público consegue entrar completamente na trama.

"Ele não consegue ser honesto com ninguém", diz Nolan. "Dormer luta com o seu passado, e não confia em pessoa alguma. Ele cometeu erros, e é obrigado a viver com esses erros. Gosto desses temas complicados em um filme".

Nolan explora a arte cinematográfica desde a infância. Nascido em Londres, em 1970, ele começou a filmar aos sete anos, usando uma câmera super oito do pai e vários personagens de ação masculinos.

"Isso é tudo o que eu queria fazer na vida", afirma. "Acho inacreditável que seja pago para fazer filmes".

Mas ele não tem nenhuma intenção de permitir que o sucesso o faça perder o rumo. O seu próximo filme será uma biografia de Howard Hughes, estrelando Jim Carrey. "Não consigo deixar de fazer filmes sobre homens estranhos em seus quartos de hotel", diz, soltando uma gargalhada.

E ele não consegue fugir das várias perguntas que ainda cercam "Amnésia". Uma edição especial em DVD chega ao comércio na próxima terça-feira. É claro que Nolan não fornece respostas a nenhuma dessas questões. Se o fizesse, o público se sentiria muito confortável. Embora o DVD traga comentários do diretor, ele toma cuidado para preservar o clima de mistério.

"Não faço DVDs que respondam as questões abertas por um filme", afirma Nolan. "Quero que o DVD seja uma nova experiência, e não a repetição de uma anterior. Se você assistir a esse DVD e achar que tudo foi claramente explicado, então talvez precise vê-lo novamente".

Tradução: Danilo Fonseca

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