Medo domina corredor Boston-Washington após atentados de setembro

Rick Hampson
USA Today

Becky Moore, de Lincoln, Nebraska, ficou chocada com os ataques terroristas de 11 de setembro e temerosa quanto ao que poderia acontecer depois. Mas agora, Becky, que tem ficado em casa nos últimos meses, diz: "Creio que superei tudo isso. O que mais posso fazer? Voltei ao meu dia-a-dia". Ela parece se sentir um pouco culpada.

Dois mil e duzentos quilômetros a leste de Lincoln, em Livingston, Nova Jersey, Marilyn DiTringo gostaria de retornar ao seu dia-a-dia.

Desde 11 de setembro, ela tem que se esforçar para ir até a escola primária onde trabalha. DiTringo se sente ansiosa quando passa pelo terminal de ônibus da cidade de Nova York. A sua filha de 12 anos, que tem uma amiga cujo pai morreu no World Trade Center, ainda passa a noite no seu quarto.

O contraste entre Becky Moore e Marilyn DiTringo ilustra um outro legado dos ataques: as mulheres que moram no corredor Boston-Washington estão tendo bem mais dificuldade para superar o choque causado pelos ataques terrorista do que aquelas que residem em outras regiões dos Estados Unidos.

Pesquisas feitas nos últimos meses pelo Instituto Gallup demonstram que as mulheres do corredor, uma área densamente povoada que vai de Washington, D.C., a Boston, têm uma propensão bem mais acentuada de encarar o terrorismo como o problema mais sério da nação. A pesquisa indica ainda que elas apresentam uma tendência duas vezes maior do que as outras mulheres de temerem ser vítimas de terroristas.

Todos os quatro aviões seqüestrados decolaram de aeroportos no corredor Boston-Washington. Dois atingiram o World Trade Center, um o Pentágono e um quarto caiu na Pensilvânia, quando rumava para Washington.

Segundo as respostas de 3.023 adultos em três pesquisas Gallup, realizadas em março, abril e maio:

- Metade das mulheres do corredor afirma que o terrorismo - em alguma das suas modalidades - é o problema mais importante dos Estados Unidos, contra 37% das mulheres do resto do país, 36% dos homens do corredor e 33% dos homens de outras regiões.

- Quase um quarto das mulheres do corredor Boston-Washington (23%) diz ter preocupação com a possibilidade de elas ou seus familiares serem vítimas de terrorismo, comparadas a apenas 10% das mulheres de outras regiões, 10% dos homens do corredor e 7% dos homens de outras partes da nação.

Essa divisão entre os sexos e quanto à geografia está influenciando o debate político. Consultores das campanhas dizem que na zona litorânea leste - mais ou menos na região delimitada pela auto-estrada I-95 - as questões de defesa e de segurança da pátria são as mais importantes. Já em Estados como o Missouri, Minnesota e Dakota do Sul, os eleitores se preocupam mais com o desemprego e a situação econômica.

A lacuna entre os sexos no que diz respeito ao terrorismo reflete um sentimento marcadamente diferente entre lugares como Lincoln, que está a 300 quilômetros do centro geográfico dos 48 Estados em terras contínuas, e Morris County, em Nova Jersey, que fica a uma hora de carro do Ponto Zero, o local onde ficava o World Trade Center.

"O governo está fazendo com que eu sinta que os terroristas são bem mais inteligentes do que nós - não há muito o que possamos fazer", afirma DiTringo, de 48 anos. Pela primeira vez na vida, ela teme que o filho (que atualmente tem 15 anos) tenha que lutar em uma guerra.

Ela discutiu esses sentimentos em um grupo de auto-apoio em Morris County. Outras mulheres que fazem parte do grupo dizem que também estão preocupadas com o terrorismo, especialmente após a série de alertas feita pelo governo nas últimas semanas.

Kim Wortman, de 34 anos, admite timidamente que não vai mais ao posto de gasolina da esquina, ainda que a gasolina seja barata, porque se sente pouco à vontade em ser atendida pelos frentistas árabes.

"Tive pesadelos. Faces diferentes apareciam na minha frente enquanto eu dormia", diz ela. "Fiquei com medo. Eles vieram até a minha janela e ficaram em pé, me olhando".

Andrea Spinelli, de 28 anos, estudante de enfermagem, faz um relato semelhante. "Havia um posto de gasolina onde eu me sentia muito estranha. Eu vi novas faces de funcionários. Achei que eles estavam cochichando". Ela diz que não volta mais ao local. "Não me importa se a gasolina é barata".

Ao ser perguntada sobre o 11 de setembro, Spinelli diz que "certamente o assunto ainda não está encerrado". Ela diz que ainda sente raiva. "Mas não sei ao certo de quem sinto raiva. À noite, quando estou na cama, ouço um avião e abro os olhos". Mas vários homens do grupo dizem que não estão particularmente preocupados com o fato de morarem no nordeste dos Estados Unidos. "Há milhões de alvos em potencial neste país", afirma Ralph Milano, de 64 anos, veterano da Guerra da Coréia, dando de ombros. Ao ser solicitado a definir a sua taxa de segurança pessoal depois do 11 de setembro, ele dá uma nota 50 em uma escala de zero a 100, mas acrescenta: "A minha nota sempre foi esta".

"Se eu for me preocupar, acabo ficando trancado em casa o dia todo", afirma.

Já os homens e mulheres de Lincoln enfatizaram o quão intensamente experimentaram os acontecimentos de 11 de setembro, e como atualmente se sentem distanciados de tudo o que aconteceu. Alguns chegam a dizer que se sentem culpados por acharem estar mais seguros do que as pessoas que moram na região de Nova York e de Washington.

Kim Johnson, de 41 anos, afirma que tem saudade da sensação de unidade dos dias que se seguiram aos ataques. Mas ela observa, "Nos disseram para retomarmos o ritmo normal de nossas vidas diárias".

Na sexta-feira que se seguiu ao 11 de setembro, Jane McGee, de 47 anos, foi ao médico porque estava extremamente ansiosa. Mas hoje ela diz: "Não penso muito sobre os atentados. Na verdade, só me lembro do que aconteceu quando algum fato faz com que o assunto venha à tona".


Tradução: Danilo Fonseca

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