É preciso vigiar aqueles que procuram terroristas

Chuck Raasch
USA Today
Em Washington

Mesmo antes do 11 de setembro, os Estados Unidos vinham se transformando cada vez mais em uma "cultura de bisbilhoteiros". Agora, na luta contra o terrorismo, as instituições mais poderosas da nação estão acelerando tal tendência. Será que os norte-americanos vão se arrepender no futuro? E será que aqueles que questionam as novas ameaças às liberdades pessoais vão ser questionados quanto ao seu patriotismo - conforme presenciamos em debates recentes sobre o desempenho das agências policiais e de inteligência da nação?

Antes do ataque terrorista, havia ampla oportunidade para os norte-americanos denunciarem os cidadãos ao seu redor. Havia telefones para os quais quem desejasse fazer denúncia podesse ligar gratuitamente. Carretas de 18 rodas andavam pelas auto-estradas com adesivos que traziam números de denúncia anônima do tipo "1-800-BADDRIVER" no pára-choque. As linhas telefônicas para a delação de suspeitos se multiplicavam. O programa de TV "America's Most Wanted" (Os Mais Procurados dos Estados Unidos) apresentava crimes não resolvidos e convidava informantes a fazer uma ligação gratuita.

As oportunidades para a deduragem não param de aumentar. Agora, oito meses após os terroristas terem atacado Nova York, todo mundo, desde agentes do FBI, até o síndico do seu prédio está convidado a se juntar a esse super-esquadrão de vigilância.

Os Estados Unidos de hoje são a cultura mais bisbilhoteira da história, sem sombra de dúvida. Mas será que os norte-americanos estão prontos para mais invasões da sua privacidade, ou identidade, quando investirem o seu dinheiro, navegarem pela Internet, ou participarem de eventos públicos? É melhor que se acostumem, porque esta é a tendência.

Pense só: O problemático FBI está em meio a uma maciça mudança no foco de suas atenções e táticas, o que inevitavelmente vai significar mais grampeamentos, interceptação de comunicações, vigilância e técnicas avançadas de coleta de dados sobre os indivíduos. Até setembro, a agência vai contratar 900 novos agentes. O FBI tem que ser capaz de "olhar em torno de cada esquina", disse o diretor da agência, Robert Mueller.

Isso significa mais poder para monitorar pessoas antes que crimes sejam cometidos. Com o medo do terrorismo em alta, é fácil argumentar que os fins justificam os meios. Mas, lembre-se: a grande polêmica sobre as alegadas falhas do FBI em detectar com antecedência os ataques de 11 de setembro não diz respeito à forma como a agência coletou informações, e sim à maneira como essas informações foram analisadas e desprezadas.

Houve uma onda de revelações recentes de que o FBI, a CIA e agências de inteligência estrangeiras coletaram grande quantidade de informação que indicavam que terroristas estariam pensando em transformar aviões a jato em mísseis suicidas. Mas essas informações nunca foram reunidas nos altos escalões.

As autoridades solicitaram aos síndicos que se tornassem detetives. No início deste mês, quando foi anunciado que terroristas poderiam alugar apartamentos em prédios altos e recheá-los de explosivos, os síndicos e locadores foram solicitados a relatar quaisquer atividades suspeitas às autoridades policiais.

Síndicos podem ser bons, maus ou indiferentes, e uma denúncia bem feita pode realmente salvar vidas. Mas, no longo prazo, dar a síndicos carta branca para bisbilhotar ainda mais a vida dos moradores é algo que justifica um vigoroso debate sobre as liberdades civis. E você não precisa ser um "membro de carteirinha" da União Americana de Liberdades Civis (um rótulo do antigo presidente Bush) para se sentir assim.

Empresas privadas estão formando câmaras de compensação improvisadas para evitar o uso potencial das firmas de serviço financeiro para a compra de instrumentos terroristas. Uma das histórias nebulosas sobre as redes de terrorismo diz respeito à forma como elas financiam as suas operações.

E o governo Bush sempre apontou como um dos seus sucessos iniciais o fato de milhões de dólares em contas correntes suspeitas de pertencerem a terroristas terem sido congeladas, cortando a futura fonte de financiamento do terror. Segundo a imprensa, o sistema Regulatory DataCorp Int'l LLC foi estabelecido por companhias de serviços financeiros privados para examinar clientes novos e antigos, a fim de determinar se eles teriam possíveis vínculos com terroristas.

Mais uma vez, trata-se de um objetivo que tem que ser examinado, devido ao que está em jogo. Mas é uma medida que sem dúvida alguma vai questionar as aplicações monetárias, ou as transferências de dinheiro ou as decisões de investimentos, que envolverão um maior exame da vida de todos. Um organizador da nova instituição disse ao "Washington Post" que o banco de dados do grupo já possui cinco milhões de arquivos de atividades tidas como suspeitas.

Há relatos na mídia segundo os quais as autoridades policiais da cidade de Nova York teriam começado a utilizar tecnologia de identificação facial, que permitirá que o seu rosto seja examinado à distância e confrontado com um banco de dados contendo as fichas de criminosos conhecidos e suspeitos de praticar o terrorismo.

É uma pena que a história se repita. Houve casos bastante publicados de excessos em nome da segurança. Heróis de guerra como Bob Dole foram solicitados a retirar os sapatos em aeroportos. O grande piloto de combate da 2ª Guerra Mundial, Joe Foss, teve que entregar as suas medalhas a vigilantes de aeroportos, que alegaram que elas poderiam ser utilizadas como armas.

A terra da liberdade e da coragem está travando uma guerra potencialmente tão desafiadora como a 2ª Guerra Mundial da geração de Dole e Foss. Mas temos à nossa frente alguns debates para decidir se, em nome da corajosa realização desta guerra, a própria liberdade terá que ser colocada em xeque.


Tradução: Danilo Fonseca

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