Após anos de problemas, Euro Disney conquista os europeus

Lark Borden
USA Today
Em Marne-La-Valle (França)

Faz dez anos desde que Mickey Mouse se instalou na filial européia da Disney, como parte daquilo que parecia ser o sonho de todo roedor - morar na capital da produção de queijo, cerca de 50 quilômetros a leste de Paris.

O sucesso do projeto, que foi chamado de Euro Disney, não parecia ser mais que inevitável.

Mas os problemas enfrentados antes da abertura do parque, incluindo a tradicional resistência representada pelo patrulhamento cultural francês, acabaram evoluindo para pequenos transtornos.

No dia da abertura, em abril de 1992, motoristas de caminhão - em um gesto de solidariedade com os fazendeiros da área - bloquearam as estradas que levam ao parque. Um gerador de energia elétrica para o complexo foi sabotado, causando apagões em partes do complexo. Ativistas do Partido Comunista e militantes libertários se juntaram aos fazendeiros para realizar protestos contra a inauguração daquilo que consideravam uma invasão de uma rica terra agrícola.

Mesmo assim, o maior dilema foi a abertura de um caro parque temático durante a prolongada recessão que se seguiu à Guerra do Golfo Pérsico.

Mas a Disney - exatamente por ser a Disney - transformou a ratoeira em que parecia haver se metido em uma história de Cinderela, e o castelo do Mickey na área suburbana de Paris atrai atualmente cerca de 12 milhões de visitantes por ano.

Para que o parque temático se transformasse no destino número um dos europeus em férias foi necessário que se trocasse o administrador do projeto; que o serviço de trem Eurostar, que passa sob o Canal da Mancha, começasse a funcionar; que os preços fossem reestruturados e que se mudasse a política relativa à venda de bebidas alcoólicas e às regras relativas ao vestuário dos funcionários.

E, no seu décimo aniversário, um segundo parque temático foi aberto, tendo feito muito sucesso, até mesmo entre os franceses. Na abertura do novo parque, somente um punhado de manifestantes apareceu, sendo que, desta vez, protestavam contra o McDonalds tanto quanto contra a Disney, e o principal motivo de reclamação eram os salários, e não a invasão cultural.

A "mágica" não ocorreu sem que a Disney tivesse que avaliar os erros cometidos.

"Dez anos atrás, não entendíamos o equilíbrio correto entre o que era a cultura da Disney e aquilo que se constituía realmente na base multicultural do parque", afirma Jay Rasulo, presidente da Euro Disney S.A., a sociedade européia que gerencia o complexo.

"Naquela época acreditávamos que a Disney era capaz de superar qualquer fator adverso", diz ele.

"Por exemplo, como fazia parte da cultura da Disney não servir vinho no Reino Mágico, nós decidimos também não servir vinho ou cerveja no parque europeu. Ao tomarmos tal decisão estávamos assumindo que todo mundo soubesse que esta é a Disney, de forma que não fossem querer tomar cerveja com seu sauerkraut ou vinho no almoço. Na verdade, o que acabamos por descobrir foi que os nossos visitantes vinham à Disney, mas que esta Disney ficava na Europa e, na Europa, todo mundo espera encontrar um bom vinho, até mesmo em um parque temático. A população quer aquelas coisas que lhes são familiares".

"Temos que admitir. Aprendemos a conhecer mais os nossos clientes e os aspectos multiculturais dos nossos visitantes".

Mas estas mudanças estratégicas não significaram só concessões à nação que é sede da Disney européia. Quando se trata do vinho, por exemplo, foram os espanhóis e italianos que tiveram as suas demandas atendidas. E o fornecimento cerveja, considerada um item indispensável do café da manhã em alguns países vizinhos, foi uma concessão aos alemães, belgas, britânicos, holandeses e dinamarqueses.

O presidente geral da Disney, Michael Eisner, disse ao "Gannett News Service" que "o parque ainda é, acima de tudo, um complexo da Disney. As mudanças foram modestas".

"O que mudou foi que o tempo fez com que o parque se tornasse uma parte do cenário francês, enquanto que dez anos atrás a população local o via como um projeto de invasão estrangeira. Os problemas que tivemos com a abertura do parque foram relacionados a dificuldades financeiras, motivadas pela recessão. Nunca houve um fracasso em termos de público", disse Eisner.

De fato, quando o parque foi aberto, em abril de 1992, a entrada dos adultos custava o equivalente a US$ 45 (cerca de R$ 120). Dez anos depois, a mesma entrada custa, em euros, aproximadamente US$ 35 (algo como R$ 93) e a visita ao Estúdios Walt Disney permite que o visitante entre no parque Disneylândia após o cair da noite, para assistir a paradas, shows de fogos de artifício e outras atrações.

Atualmente, a maior parte da Europa continental possui uma moeda comum e o fluxo de mercadorias e pessoas de nação a nação dentro da Comunidade Européia foi facilitado. Mas Eisner não credita o sucesso do projeto somente à União Européia.

"Estamos vendo a história a se repetir", diz Eisner. "Lembrem-se que os franceses também não gostaram da Torre Eiffel. Mas o tempo cura todos os males, e isso foi o que aconteceu também com relação à Disneylândia de Paris".

Eisner afirma que se exagerou o problema das regras quanto aos vestuários dos funcionários, que originalmente proibiam que os homens tivessem barba ou bigode, e impunha severas restrições sobre o uso de maquiagem e jóias pelas mulheres. "De forma muito sutil, também fizemos mudanças nas regras de vestimentas dos funcionários na Flórida e na Califórnia", diz ele.

Nos últimos dez anos, o termo "Euro Disney" foi abandonado como nome do parque, referindo-se atualmente somente a parceria empresarial que controla o complexo. O nome foi mudado para Disneylândia de Paris em 1994 e, este ano, com o acréscimo de um novo parque temático ao complexo, passou-se a ter o nome Disneylândia (para o parque original), Estúdios Walt Disney (o novo parque) e Estação de Férias Disneylândia Paris, o nome genérico para todo o complexo de centros de entretenimento e hotéis.

"O interessante é que descobrimos que havia uma falta de entendimento quanto à palavra 'Euro'", conta Eisner, "especialmente quando ela estava nas primeiras páginas de todos os jornais, como parte da política monetária européia. O nome Euro Disney acabou soando muito financeiro. O nome Disneylândia de Paris é mais romântico".

Quando o parque e os seus hotéis foram inaugurados, fizeram-se esforços para contratar uma equipe de trabalho originária de toda a Europa, onde todos os funcionários usassem crachás identificando os seus países de origem, de forma que os visitantes pudessem se comunicar em suas línguas nativas. Embora algumas atrações do parque temático tenham trilhas sonoras poliglotas, a multiplicidade de idiomas muitas vezes confundia as pessoas.

"Agora, qualquer das nossas atrações é traduzida em nossas seis línguas", diz Rasulo.

A Disney também se beneficiou das mudanças básicas em direção ao estilo de vida europeu, além de ter lucrado com a adoção do euro, a moeda comum européia.

"Sabemos que houve duas tendências culturais européias na última década", diz Rasulo. "A primeira foi a parcela do orçamento familiar destinada ao lazer. Na França, o gasto com lazer é hoje o segundo maior, vindo depois de moradia - e superando até aquele com alimentação".

"O segundo fenômeno é a explosão no número de férias de curta duração. Historicamente, os europeus passavam grandes períodos em férias, que geralmente duravam entre três e quatro semanas. Mas tal esquema foi substituído por uma multiplicidade de pequenos feriados no decorrer do ano. E isso beneficia o nosso negócio".

A Disney possui 2 mil hectares de terra e, segundo Rasulo, "há uma quantidade enorme de espaço para desenvolvimento".

Cedo ou tarde, o complexo, que atualmente inclui dois parques temáticos; a Vila Disney (um restaurante, lojas e atrações noturnas); e sete hotéis, vai se expandir e incluir um terceiro parque temático, um parque aquático, um centro de exposições, um parque de negócios e 18 mil quartos de hotel.

Rasulo não estabeleceu um cronograma para tal desenvolvimento.

Embora a Disneylândia de Paris conte com um apelo intrínseco para o Canadá francófono, não existe uma campanha de marketing dirigida especificamente para a América do Norte.

O gerente de marketing internacional, Tony Altobelli, enxerga, no entanto, um interesse crescente por parte dos norte-americanos mais velhos que fazem a sua primeira visita à Europa no sentido de visitar o parque, devido à sensação de segurança e de familiaridade transmitida pelo estilo e pela comida norte-americana.

"É claro que adoraríamos que os norte-americanos em visita à Europa visitassem a Disneylândia em Paris, mas nós fazemos propaganda da experiência Disney nos Estados Unidos para os Estados Unidos".


Tradução: Danilo Fonseca

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