Bush enfrenta críticas ao falar de prevenção contra futuras ameaças aos EUA

Chuck Raasch
USA Today
Em Washington

Abalado pelas novas revelações de falhas de inteligência dos serviços de contra-terrorismo e em confronto com as novas brigas partidárias a respeito do que deve ser feito para enfrentar o problema, o governo Bush respondeu na quinta-feira com uma ampla guinada em direção a adoção de opções militares.

"Todos os membros do meu governo aprenderam muito desde o 11 de setembro, e devemos adotar medidas concretas para cada uma das lições aprendidas", disse o presidente Bush em um discurso de 12 minutos, transmitido em cadeia nacional de televisão.

Bush descreveu as providências para a criação de um Departamento de Segurança da Pátria como sendo a maior reformulação governamental desde o início da Guerra Fria. O objetivo da medida é superar as dúvidas crescentes quanto à competência dos serviços de inteligência e policiais, e transferir o foco político dos fracassos passados para as ameaças futuras.

O sucesso de Bush em atingir os dois objetivos dependerá do Congresso, que terá que aprovar o novo departamento. Só em longo prazo é que será possível avaliar se a nova infraestrutura será capaz de prevenir futuros ataques. A comparação com a Guerra Fria, feita pelo governo, sugere que o resultado de tal avaliação não será conhecido por anos, e talvez até por décadas.

Se tiver sucesso, a reorganização poderia alterar drasticamente a face anti-terrorista da Casa Branca de Bush, substituindo a desgastada imagem do diretor do FBI (Birô Federal de Investigações, a polícia federal dos Estados Unidos), Robert Mueller, e do secretário de Justiça, John Ashcroft, por Tom Ridge, o atual diretor do Departamento de Segurança da Pátria, um indivíduo que tem um crédito relativo junto à opinião pública.

Autoridades da Casa Branca deixaram claro na quinta-feira que Ridge, um popular ex-governador da Pensilvânia e veterano condecorado da Guerra do Vietnã, terá um papel importante para os esforços do governo em conseguir uma rápida aprovação de suas medidas pelo Congresso. Sob o aspecto político, a reorganização transferiria alguns dos aspectos mais importantes do trabalho de Ashcroft - tais como a segurança das fronteiras - para o mais proeminente Departamento de Segurança da Pátria.

Bush tem contado com um alto índice de aprovação que surpreende até os seus próprios assessores. Mas a pressão política sobre o presidente aumentou, neste momento em que a CIA (Agência Central de Inteligência, a principal agência de inteligência externa dos Estados Unidos) e o FBI enfrentam uma crise de confiança por parte da população e são atacadas pelos adversários políticos do governo, incluindo alguns parlamentares que poderão disputar a presidência com Bush em 2004, caso o presidente busque a reeleição. E os democratas vêm criticando cada vez mais o papel de Ridge, que eles acusam de ser um assessor destituído de um foco preciso em um assunto específico.

Entre os maiores oponentes do Departamento de Segurança da Pátria está o senador Joe Lieberman, democrata de Connecticut, que está viajando e levantando fundos como se estivesse considerando seriamente a hipótese de disputar a presidência.

Um outro adversário potencial de Bush em 2004, o líder da maioria no Senado, Tom Daschle, também solicitou uma estrutura de Segurança da Pátria mais definida e uma comissão independente para investigar as falhas de inteligência ocorridas antes de 11 de setembro.

Tanto Daschle quanto Lieberman aprovaram as medidas tomadas por Bush, mas prometeram manter a pressão sobre o presidente.

"Muitos de nós no Congresso dissemos por algum tempo que a segurança doméstica deveria ser coordenada a partir do nível de gabinete da Presidência", diz Daschle.

Daschle tornou a pedir que seja criada uma comissão independente para investigar se o FBI e a CIA poderiam ter evitado os ataques de 11 de setembro, caso houvesse melhor coordenação entre as duas agências. Bush resistiu ferozmente a essa proposta, tendo procurado desviar as atenções para as ameaças futuras das quais ele e os membros do seu governo têm falado com tanta seriedade durante meses.

À medida que o novo departamento é elaborado, a administração tenta conter qualquer tentativa de politizar a reação a essa estratégia, procurando enquadra-la no contexto histórico da Guerra Fria.

As autoridades da Casa Branca têm dito que a atual reorganização é a mais ampla desde 1947, quando Harry Truman se confrontou com a crescente ameaça representada pelo comunismo após a 2ª Guerra Mundial.

"Tudo isso é parte da transição de uma sociedade que vivia em tempos de paz para uma outra que se mobiliza para a guerra", disse o secretário de Imprensa da Casa Branca, Ari Fleischer.

Embora a Casa Branca de Bush tenha resistido em alçar a função de Ridge ao nível de gabinete presidencial, funcionários da administração disseram na quinta-feira que Bush, Ridge e outros vêm considerando há vários meses tomar tal medida.

O governo tem tentado diminuir a impressão de que estaria tentando transferir as atenções concentradas nas acusações contra o FBI e a CIA, e evitar qualquer dano político colateral que pudesse prejudicar Bush ou o seu partido.

"O que acontece é que as dimensões do quadro são bem maiores do que muita gente pensa", disse Fleischer. "Temos que fazer uma retrospectiva histórica até 1947 e examinar as medidas tomadas por Truman com relação à Guerra Fria. Trata-se de uma grande reformulação".

Bush, eleito como um republicano proponente de um governo que interferisse pouco sobre os assuntos nacionais, agora enfrenta uma realidade na qual ele quer coordenar uma concentração de poder federal raramente vista na história dos Estados Unidos.

Os seus assessores tentaram rechaçar as críticas dos conservadores que advogam um "governo pequeno", argumentando que Bush não está preconizando um governo de grandes dimensões, mas sim uma segurança nacional mais eficiente.

A administração alega - em meio a algumas dúvidas publicamente expressas - que o novo departamento não teria peso sobre o orçamento, já que os funcionários federais somente seriam deslocados de quaisquer dos oito atuais departamentos de nível de gabinete para o novo órgão, que contaria com 170 mil funcionários.

Fleischer utilizou o termo "fusão" para descrever as mudanças - uma interessante escolha de palavra para um departamento cujos objetivos declarados incluem a prevenção do pesadelo que seriam ataques nucleares, com bombas de fissão detonadas por terroristas.


Tradução: Danilo Fonseca

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