Oficiais de inteligência acreditam que possa haver mais americanos ligados a Al Qaeda

Jonathan Weisman, Debbie Howlett e Dave Moniz
USA Today

Jose Padilla era apenas um garoto problemático das ruas de Chicago. Mas os seus problemas com a lei aparentemente o transformaram em um alvo promissor para os radicais muçulmanos. Além do mais, o seu passaporte norte-americano faria dele um instrumento valioso para a Al Qaeda.

A sua jornada de membro de gangue para suspeito de ser terrorista, de Jose "Pucho" Padilla a Abdullah Al Muhajir, o levou de um centro de detenção juvenil, em Cook County, Illinois, para uma liberdade condicional na Flórida, de onde seguiu para campos de treinamento da Al Qaeda no Paquistão, segundo oficiais de inteligência dos Estados Unidos. Agora, Al Muhajir, de 33 anos, está em uma prisão naval em Charleston, na Carolina do Sul, detido devido a suspeita de que tenha planejado detonar uma "bomba suja" radiológica.

Os detalhes da sua jornada podem ser únicos, mas os oficiais de inteligência dizem que outros norte-americanos podem ter seguido o mesmo caminho.

Clement Rodney Hampton-el, um técnico de um hospital de Nova Jersey, foi condenado em 1995 por ter planejado explodir o prédio da Organização das Nações Unidas e o Holland Tunnel, em Nova York. E John Walker Lindh, de 21 anos, de Marin County, um município de famílias de classe alta, na Califórnia, foi tomado por uma fascinação pelo islamismo que o levou a um campo de treinamentos da Al Qaeda no Afeganistão. Ele aguarda julgamento.

Não há dúvidas de que existem mais recrutas norte-americanos da Al Qaeda, segundo os oficiais de inteligência. Eles afirmam que o inimigo é interno.

"Esse fenômeno faz parte de uma tendência que é observada há pelo menos uma década", diz Bruce Hoffman, especialista em terrorismo da Rand Corporation. "Não devemos achar que trata-se de um episódio sem importância".

Segundo registros públicos e depoimentos de vizinhos, a porto-riquenha Estella Ortega deu a luz a Jose Padilla no Brooklyn, em Nova York, em 18 de outubro de 1970. Ela se mudou para Chicago quando o garoto tinha quatro anos.

Ele foi criado em um prédio de tijolos de três andares no bairro predominantemente hispânico de Logan Square, na zona oeste de Chicago. Jose era uma criança algo tímida, apelidada de "Pucho", que adorava jogar basquete e beisebol com os garotos da vizinhança, lembra-se Norma Leon, que alugou o apartamento de cinco aposentos para Estella, que é viúva, por US$ 250 (cerca de R$ 678 ) mensais.

Segundo Leon, Estella tinha uma família adorável, que incluía Jose e o irmão, "Chumbi", três anos mais novo. Ela diz que Ortega mais tarde trouxe as duas filhas, que moravam em Porto Rico, para o apartamento.

Ortega trabalhava como recepcionista em um grande hotel no centro da cidade, e os quatro filhos freqüentavam a escola Darwin Elementary, na rua em que moravam.

"Eles formavam uma família realmente boa", diz Leon. "Enquanto esteve aqui, Jose nunca se envolveu com problemas. Nunca foi desrespeitoso. Era uma boa criança. Nunca soube que ele estivesse metido com gangues. Estou realmente surpresa com toda essa história".

Mas autoridades do Departamento de Justiça afirmam que Padilla era um membro de gangue, com vários problemas com a lei. Em 1985, a sua coletânea de delitos incluía condenações por agressão e roubo a mão armada, segundo fontes da polícia de Chicago. Yolanda Murphy, porta-voz do Departamento de Correção da Flórida, diz que Jose foi também preso em Chicago devido a uma acusação de assassinato, sob o falso nome de Jose Rivera.

Ele deve ter entrado em contato com ensinamentos islâmicos radicais naquele período, sugere Michael Reynolds, um consultor sobre terrorismo, que trabalhava para o Centro Sulista sobre Lei e Pobreza. À época, violentas gangues de rua muçulmanas, tais como a El Rukn, eram uma grande ameaça.

Após a sua condenação, em 1985, autoridades escolares de Chicago dizem que ele se matriculou na Escola Alternativa Nancy B. Jefferson, no centro de detenção juvenil de Cook County.

Jose ficou preso até os 18 anos, quando os registros indicam que se mudou de volta para Logan Square. Jose ficou em liberdade condicional até fazer 21 anos. A seguir se mudou para a cidade de Lauderhill, em Broward County, na Flórida, próximo ao lugar para onde a mãe havia se mudado com o seu meio-irmão, Ilan.

Mas, segundo os registros, ele não se distanciou dos problemas.

Em 1991, Jose foi preso devido a acusações de ser o protagonista de um episódio de "fúria na estrada", com duas armas, próximo à cidade de Sunrise. As acusações incluíam porte ilegal de arma, o disparo de uma arma a partir de um veículo e agressão , afirma Murphy. Ele passou 303 dias preso na cadeia de Broward County.

Foi na cadeia que Jose se converteu ao islamismo e mudou o nome para Abdullah Al Muhajir, disse na segunda-feira o secretário de Justiça, John Ashcroft, ao anunciar a prisão de Al Muhajir, em 8 de maio, relacionada ao complô para explodir a bomba radiológica. No entanto, vizinhos na Flórida dizem que ele foi convertido por uma mulher muçulmana, qual a qual se encontrou após ter sido libertado, em 5 de agosto de 1992.

A família de Al Muhajir não quis fazer comentários. Faixas de tecido brancas, azuis e vermelhas estão coladas na porta do apartamento da sua mãe, em Plantation, na Flórida, onde também foi colocada uma mensagem escrita à mão. "Por favor, deixem esta família em paz". Abaixo da nota uma placa cita a Bíblia: "Quanto a mim e a minha casa, nós serviremos ao Senhor".

Cinco anos após Al Muhajir ter saído da prisão, um juiz decretou que ele fosse novamente preso por não ter aparecido no tribunal para responder à acusação de dirigir com uma carteira de motorista vencida.

Os registros na Flórida mostram que ele permaneceu no sul daquele Estado até 1998, quando partiu para o Oriente Médio. Ele ficou principalmente no Egito, com longas estadas no Afeganistão e no Paquistão, segundo um funcionário do Departamento de Justiça.

Entre 1998 e a sua prisão no mês passado, Jose retornou aos Estados Unidos somente uma ou duas vezes, de acordo com o funcionário. Segundo um outro funcionário, Al Muhajir teria se encontrado com Abu Zubaydah, um alto assessor de Osama Bin Laden, no Afeganistão, no ano passado, e, mais tarde, teria se juntado ao grupo de Zubaydah no Paquistão.

Chicago fica muito distante do Paquistão, mas os especialistas em terrorismo dizem que o ambiente pesado das ruas norte-americanas há muito tempo possuem estranhas conexões com o terrorismo muçulmano e do Oriente Médio. A El Rukn ofereceu ajuda para ajudar o líder líbio Muammar Kadafi a derrubar um jato comercial na década de oitenta.

Grupos de muçulmanos negros, tais como a El Rukn, missionários que pregam o islamismo nas prisões e instituições muçulmanas de caridade que possuem laços com organizações terroristas conseguiram cativar os revoltados e socialmente desfavorecidos, segundo as agências de inteligência. "O islamismo militante conjugado a um ressentimento profundo contra a sociedade formam uma combinação volátil", afirma Hoffman, da Rand Corporation.

Nos anos 90, os "escoteiros talentosos" da Al Qaeda passaram a circular pelas mesquitas radicais e clubes sociais muçulmanos, buscando recrutas, afirmam fontes de inteligência britânicas. Os novatos poderiam provar à sua devoção ao islamismo, e a Al Qaeda conquistaria agentes operacionais que poderiam se locomover livremente, sem despertar suspeitas.


Tradução: Danilo Fonseca

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