Nos EUA, as pessoas ainda estão viajando, mas temerosas

Jayne Clark
USA Today

Ainda faltam seis meses para que sua família saia em um cruzeiro pelo Caribe, mas Sue-Ann Siegel já está preocupada. Preocupada com terroristas com equipamento de mergulho. Preocupada que símbolos americanos da Disney no navio possam se tornar um alvo. Preocupada de forma geral.

O medo provavelmente não manterá a família de Potomac, Maryland, em casa, mas eles compraram seguro de cancelamento de viagem por precaução.

Em Atlanta, Joseph Lewis também tem suas ansiedades de viagem. Não é a ameaça de ataques terroristas que o perturba, mas sim os incômodos que estas ameaças impuseram no embarque nos aeroportos.

"É uma forma de arruinar as férias", disse ele.

Assim, ao invés dos habituais dois vôos por ano para Los Angeles, ele e sua família estão optando por viagens de carro para destinos mais próximos de casa.

Se existe algum verão no qual umas férias fariam bem aos americanos, seria este. Mas com os alarmes renovados de terrorismo e os incômodos endêmicos à nova rotina nos aeroportos, alguns estão questionando se sair de casa vale a pena.

A revelação na segunda-feira do desbaratamento de um plano da Al Qaeda, de explodir uma "bomba suja" radioativa, é apenas a mais recente de uma série de avisos do governo que estão colocando o horror de 11 de setembro novamente no centro das atenções. No final de maio, quando muitos estavam voltando seus pensamentos para o planejamento das férias, o FBI fez o alerta sobre homens-bomba suicidas. O Departamento de Defesa declarou a inevitabilidade dos terroristas procurarem por armas de destruição em massa. E o Escritório de Segurança Interna proclamou que futuros ataques terroristas eram uma questão de "quando", e não "se".

Fatalismo, ao que parece, é a nova virtude.

Mas muitos estão tentando lidar com os novos tempos nervosos, da dona de casa de Phoenix que toma vários calmantes ao tomar um vôo, à aposentada de Nova York que argumenta que se morrer em um ataque terrorista em Paris, pelo menos isto lhe proporcionará um obituário mais vistoso.

Depois de 11 de setembro, o medo de voar virou quase elegante, disse Jerilyn Ross, presidente da Associação de Desordens de Ansiedade da América. "As pessoas deixaram de pensar nisto como um problema psiquiátrico, mas algo socialmente aceitável", disse ela.

Até mesmo os membros da Associação da Indústria de Viagem da América (TIA), que mesmo obstinada em viagens, reconhece "uma ansiedade generalizada. Mas não acho que a ansiedade está transformando os Estados Unidos em uma terra de eremitas, ou que seja algo específico em relação a viagens", disse Suzanne Cook, da TIA. "Todos se perguntam o que acontecerá a seguir, mas você tem que prosseguir com sua vida, e viajar faz parte dela".

Pessoas que pegarão a estrada neste verão

De fato, a Pesquisa de Intenção de Viagem no Verão da TIA, feita em abril, prevê um aumento nas viagens de verão. Das 1,3 mil pessoas que responderam a pesquisa, 77% planejam fazer pelo menos uma viagem de lazer, um aumento em relação aos 72% no mesmo período no ano passado. Mas há algumas diferenças na forma como as pessoas estão viajando, destacou Cook. As viagens de carro, a forma preferida por 75 a 80% dos viajantes, devem apresentar um aumento de 3%; as viagens aéreas cairão em cerca de 4%, segundo a pesquisa. "Destinos de descanso" -como parques nacionais, lugares bonitos pouco freqüentados e ambientes rurais- devem se tornar populares.

Mas o temor de viajar continua a afetar a ocupação dos hotéis em todo o país. Um recente estudo da PricewaterhouseCoopers atribuiu 15% do declínio da demanda no primeiro trimestre de 2002 ao temor de viajar, que varia desde a preocupação de ficar preso longe de casa ao medo de voar e o transtorno com a segurança nos aeroportos.

"Parece que o governo, por motivos políticos ou de segurança, está falando sobre riscos imediatos. E isto infelizmente tem um efeito", disse Bjorn Hanson, da PricewaterhouseCoopers. "A boa notícia é que o temor de viajar está tendo um impacto menor (uma queda de 64% em relação aos últimos três meses de 2001). Mas ainda é significativo".

Nesta primavera, Kyle McCarthy da Family Travel Network, com sede em Nova York, notou um aumento na procura por aventuras familiares do tipo "uma vez na vida", como safaris e excursões para a China.

"Agora há este silêncio mortal", disse McCarthy, que publica um boletim informativo e envia conselhos para os membros do grupo. "Há muita incerteza".

Profissionais de saúde mental alertam que há uma linha tênue entre vigilância e a exposição excessiva da população aos alertas. "A natureza humana funciona de tal forma que, apesar de podermos responder a estes alertas com hipervigilância, à medida que o tempo passa nós provavelmente ficaremos indiferentes a eles", disse Emanuel Maidenberg, um psicólogo do Programa de Desordens de Ansiedade da Universidade da Califórnia, em Los Angeles. "A lição a ser aprendida é que devemos ficar mais alertas e conscientes do nosso ambiente imediato".

Ross chama esta atenção de "terceiro olho".

"Eu acho que as pessoas estão muito ambivalentes no momento", disse ela. "Por um lado, nós não queremos que os terroristas vençam atrapalhando nossas vidas. Por outro lado, não podemos nos tornar complacentes a ponto de ignorarmos as coisas. A realidade é que estamos vivendo atualmente em um mundo onde há muitos elementos desconhecidos, onde experimentamos este horror coletivo. Nós temos que aprender a viver com um terceiro olho, mas não deixar que isto nos atrapalhe".

Nervosismo é normal atualmente

E apesar de até mesmo o viajante mais nervoso saber disto racionalmente, de que as chances de ser vítima de um ataque terrorista são infinitamente menores do que ser vítima de algum acidente a caminho do aeroporto, a percepção é o que vale.

É claro, o próprio transtorno no aeroporto é suficiente para impedir até mesmo viajantes inveterados. O colunista Bob Greene, do "Chicago Tribune", disse que se o objetivo da viagem for descansar, então ficar em casa pode ser a melhor opção. Ao iniciar a turnê de promoção de um livro pelos estados do Colorado e Nebraska, na semana passada, ele optou por viajar de carro.

"Eu realmente estou animado com isto", disse ele. "Oito cidades e nenhum aeroporto. Há algo na experiência de revista, de detetores de metal, de quando escolhem você no último minuto para sair da fila no portão de embarque. Nós sabemos que é necessário. Poucos reclamam. Mas temos que admitir que tornou insuportável a viagem aérea, que antes era apenas ligeiramente agradável".

Mesmo tentativas de ajudar acabam acentuando o quanto desencorajadora se tornou a experiência nos aeroportos. Um folheto de dicas emitido pela Administração de Segurança nos Transportes, por exemplo, aconselha os pais a prepararem seus filhos para revistas rotineiras de segurança, lembrando a eles que alguém pode pedir para que a mamãe tire os sapatos, mas que irá devolvê-los.

Apesar de tal conselho ser de ajuda, disse McCarthy, "ele aumenta a apreensão".

"Agora não há algo como ansiedade mal direcionada", disse Greene. "Você seria estranho se não demonstrasse ansiedade".


Tradução: George El Khouri Andolfato

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