Intelectuais árabes criticam guerra dos EUA contra o terrorismo

Greg Barrett
USA Today
No Cairo (Egito)

Não importa que o presidente Hosni Mubarak tenha dito que advertiu os Estados Unidos uma semana antes do 11 de setembro que um ataque da Al Qaeda era iminente.

Não importa que bem antes dos ataques dos extremistas, Osama bin Laden tivesse declarado guerra aos Estados Unidos e aos seus cidadãos.

Ou que Bin Laden tenha sido visto, mais tarde, fazendo o seguinte comentário sobre o 11 de setembro: "Calculamos antecipadamente o número de baixas entre o inimigo, com base na posição da torre".

O magérrimo saudita é inocente. É esta a visão de vários intelectuais egípcios que insistem que os Estados Unidos estão perseguindo a pessoa errada. Não está se falando de pensadores marginais ou de ideólogos de meia-tigela. Essas pessoas são alguns dos mais respeitados intelectuais naquilo que é considerado por muita gente como sendo o centro de gravidade e do pensamento racional do Oriente Médio.

"Parem de fazer perguntas sobre Bin Laden. Este tipo de raciocínio é primitivo", dispara o autor egípcio Amin Al-Mahdy, que acredita que o 11 de setembro foi obra de governos árabes que tentaram colocar a culpa dos atentados nos palestinos.

Para ele, os ditadores árabes acham que, com a crescente violência entre israelenses e palestinos, os cidadãos árabes devem dirigir a sua ira para o exterior, ao invés de examinar a corrupção dos seus governos e a falta de direitos humanos em seus países, afirma Al-Mahdy, um pensador secular e ativista pela paz no Oriente Médio.

"O momento, os detalhes, os estudos", diz ele. "Tudo foi feito por gente muito profissional, e não por pessoas ideologizadas. Bin Laden não foi o autor".

"Tais negações dos fatos podem fazer com que a história se repita", alerta Mary-Jane Deeb, uma especialista em questões árabes, nascida no Egito, funcionária da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos e professora de desenvolvimento internacional na American University, em Washington, D.C.

"Se a responsabilidade for negada, não haverá qualquer avaliação real sobre as razões que motivam o terrorismo", diz ela. "A responsabilidade seria dos povos desses países que não ensinam a arte da tolerância e da democracia às suas crianças? Será que eles fracassaram nos campos educacional, econômico e político?".

Deeb, que faz questão de frisar que fala a partir da sua própria experiência, e não como funcionária da Biblioteca do Congresso, estava no Kuait em 11 de setembro. Nas três semanas seguintes, ela viajou pelo Catar, Omã e Emirados Árabes Unidos. Em todos estes países ela presenciou tristeza, choque e negação das evidências.

Ela afirma que, naquela ocasião, assim como agora, tanto os intelectuais como a população árabe em geral atribuíram a culpa pelo atentado a espiões do Mossad, a agência de inteligência de Israel, a agentes norte-americanos e até aos japoneses, devido aos pilotos kamikazes que atuaram na Segunda Guerra Mundial.

A crença no mundo árabe é de que os Estados Unidos são um país desonesto. Que o governo norte-americano é enganador e que joga com regras diferentes, conforme a situação. Os Estados Unidos jogam bombas juntamente com pacotes de ajuda humanitária no Afeganistão; pregam direitos humanos e, ao mesmo tempo, matam civis afegãos, pegos no fogo cruzado; e permitem que Israel ocupe os territórios palestinos, rotulando, entretanto, apenas os palestinos de terroristas.

E, é claro que os norte-americanos poderiam forjar fitas de vídeo de Bin Laden, a fim de que ele parecesse estar envolvido com os atentados de 11 de setembro. Em Cairo, na mesquita Mustafá Mahmoud - um templo tão cheio nas sextas-feiras que centenas de muçulmanos são obrigados a fazer as suas orações em tapetes estendidos na rua - o reverenciado fundador do complexo ri da credulidade dos norte-americanos. "Bin Laden jamais seria capaz de fazer tal coisa. Ele não tem o poder para isso... Tudo não passa de invenções", afirma Mustafá Mahmoud, de 70 anos, cirurgião, escritor, apresentador de um programa religioso na TV egípcia e construtor de mesquitas. "É uma mentira. Os Estados Unidos estão enganando o mundo inteiro".

Segundo ele, nenhum árabe cometeu tal ato assassino, e certamente nenhum muçulmano.

Como então ele explica a descrição feitas pelas vítimas, através de telefones celulares, dos seqüestradores a bordo dos vôos de 11 de setembro? Ou as pistas incriminadoras que levam ao nativo do Cairo e muçulmano devoto, Mohamed Atta?

"Tudo isso são mentiras, mentiras", esbraveja, evitando o debate. "Leia Thierry Meyssan".

Meyssan, um adepto francês das teorias conspiratórias, afirma que os atentados de 11 de setembro foram orquestrados e executados pelo governo dos Estados Unidos com aviões controlados por controle remoto e bombas, em uma tentativa de justificar a guerra com o Afeganistão e o Iraque. Para o francês, Bin Laden trabalha para a CIA. O seu livro, "L'Effroyable Imposture" ("A Impostura Horrorosa") é um best-seller na França.

Sete meses atrás, Mahmoud disse à revista "New Yorker" que os sobreviventes do grupo Branch Davidians e "pessoas ligadas a Timothy McVeigh" eram os responsáveis pelo 11 de setembro, Segundo ele, esses indivíduos teriam sido auxiliados pelo Mossad.

Mas isso foi antes de o escritor francês o ter convencido de que o culpado é o próprio governo dos Estados Unidos. "O ataque aos Estados Unidos é obra dos Estados Unidos", acusa Mahmoud, que escreve freqüentemente como colaborador para o Al-Ahram, o maior e mais influente jornal diário do Egito.

Ao se levantar para deixar o escritório do templo, Mahmoud cambaleia, a seguir pára e conclui: "Não acreditamos no que dizem os jornais do seu país, afirma furiosamente, cutucando com firmeza o braço de um repórter norte-americano. "O terrorismo é uma obra do seu país, para acobertar as obscenas agressões feitas pelos Estados Unidos".

Segundo Deeb, existe um aspecto positivo nesta espécie de discurso de negação. Os egípcios, sauditas, kuaitianos, e outros povos da região que não são capazes de acreditar que árabes tenham sido os responsáveis pelo 11 de setembro estão revelando o seu repúdio ao ataque.

"É bom que as pessoas achem um ato desses tão terrível a ponto de não poderem se imaginar associadas com ele", diz ela.

Após Mahmoud ter partido, o seu assessor, Ahmed Adel Nor El-Din, confessou que não concorda com o patrão. "É claro que os Estados Unidos não planejaram tudo isso", diz El-Din, um cirurgião plástico que estudou durante um ano na Universidade do Michigan, em 1991.

"Gosto muito dos Estados Unidos. Adoro o estilo norte-americano. Gosto do povo americano. Todos os que visitam o país deveriam admira-lo", afirma.

Mas, então, quem é o responsável pelo 11 de setembro?

"Talvez Atta e o seu grupo", diz El-Din. A seguir ele diz que Bin Laden não participou dos atentados. "Você acha que ele tem o poder para planejar algo desse tipo? Acho que não. Um ato desses o transformaria em um super-astro e ele não é um super-astro".


Tradução: Danilo Fonseca

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