Após morte da rainha mãe, realeza conquista os corações dos britânicos

Ellen Hale
USA Today
Em Londres

A severa matriarca, que sempre deu mais impressão de fazer caretas do que de rir, usa agora chapéus alegres e derrama lágrimas durante eventos públicos. O filho mimado, que passou semanas sem falar com a mãe, agora telefona para ela quase todos os dias e a chama afetuosamente de "mummy", não se importando que todos o ouçam. A esperta divorciada que estaria de olho no herdeiro real agora é bem aceita como uma possível nora.

Conheça a nova realeza. A família que a imprensa britânica afirma ser a menos funcional do país redescobriu a alegria e, ao faze-lo, resgatou a monarquia. A "Fria Britannia", a imagem sóbria que o governo tentara vender como símbolo do país, está fora de moda. No seu lugar entra a "Poderosa Britannia". Resumindo, este é um mau momento para os republicanos, que gostariam de destronar a monarquia que reina há mil anos.

"Fomos novamente seduzidos pela Casa de Windsor, e temos que admitir o fato", afirma o colunista da "Times", Tim Hames, uma voz conhecida no coro dos inimigos do trono.

Menos de cinco anos após a forma desastrosa como lidaram com a morte da princesa Diana, quando a popularidade da família real chegou ao fundo do poço, os Windsor se reinventaram e transformaram a Rainha Elizabeth na figura pública mais popular do país - à frente até do astro do futebol, David Beckham. Até mesmo o presidente Bush deve ter inveja do índice de aprovação de 82% exibido pela rainha. E esta popularidade provavelmente é ainda maior agora, após o esplendoroso Jubileu de Ouro, no início do mês.

O sisudo príncipe Charles também caiu na simpatia do povo, devido à sua devoção paternal aos dois filhos que perderam a mãe. No entanto, o mais surpreendente parece ser a nova popularidade desfrutada pela mulher que é sua amante há 30 anos, a divorciada Camilla Parker Bowles, que há muito tempo é acusada de ser a culpada pelo fim do casamento de conto de fadas entre Charles e Diana. Quem poderia acreditar que na cerimônia de jubileu, duas semanas atrás, ela se sentaria na sacada real do Palácio de Buckingham, a apenas alguns metros da rainha? (Aparentemente, nem mesmo Charles e Camilla, que não sabiam que a namorada do príncipe havia sido convidada, até que o convite chegou pelo correio). No concerto de música pop no palácio, ela cantou alegremente a música "You Can't Hurry Love".

Foi a morte da amada rainha mãe, de 101 anos de idade, em abril, que abriu o caminho para o renascimento da realeza, e que demonstrou ter sido um fator de liberação para a rainha - mesmo se sabendo que ela e a mãe eram muito amigas.

"As peças se moveram no tabuleiro de xadrez", afirma o biógrafo da família real, Hugo Vickers. "A rainha estava presa por detrás da rainha mãe, sendo eclipsada pela figura desta última. Agora, pela primeira vez em 50 anos, ela é a cabeça da família, a matriarca do país".

"É difícil ser uma filha de 75 anos de idade. A rainha Elizabeth está agora relaxando mais e demonstrando as suas emoções. Ela está adotando o seu próprio estilo", acrescenta William Shawcross, autor do livro "Queen and Country" ("Rainha e País").

A prova de fogo para a família real, ocorrida com a morte de Diana, em 1997, quando o público clamou que a rainha retornasse a Londres do Castelo Balmoral, na Escócia, e exigiu que, de forma sem precedentes, a bandeira do Palácio de Buckingham fosse abaixada, aparentemente ensinou aos Windsor uma lição crucial de relações públicas. A década de 90 foi amarga - com o incêndio devastador no Castelo de Windsor, a morte de Diana, o divórcio da Princesa Anne e do Príncipe Andrew, as fotos da mulher de Andrew, Sara Ferguson, tendo os dedos sugados pelo amante, e a impressão generalizada de que a família real era distante e que não se importava com ninguém. A rainha foi forçada a "reavaliar o seu estilo", segundo Robert Lacey, autor da nova biografia, "Monarch: The Life and Reign of Elizabeth II" ("Monarca: A Vida e o Reinado de Elizabeth 2ª").

Com o auxílio de experientes assessores, os Windsor desde então vêm reconstruindo a sua imagem. O resultado, segundo um comentarista da mídia, foi "o relançamento de maior sucesso de um produto na história dos negócios".

Entre outras coisas, a rainha começou a pagar impostos, reduziu drasticamente as despesas e abriu os livros de contabilidade da família real para a inspeção pública - fazendo com que o seu patrimônio se tornasse mais transparente do que aquele do governo do primeiro-ministro Tony Blair. (Os contribuintes dão à rainha cerca de US$ 50 milhões [cerca de R$ 138 milhões]. A maioria dos especialistas argumenta que os lucros obtidos com os turistas mais do que justificam tal despesa). Atualmente ela aluga chalés na sua propriedade em Balmoral e abriu o Palácio de Buckingham para a visitação de turistas. Os membros da família real também não voam mais em jatos particulares para os encontros da realeza. Agora eles pegam o trem.

E o mais importante, a rainha e Charles, que mantinham um relacionamento difícil há anos, finalmente se reconciliaram.

"Estamos vendo Charles e a mãe a descobrir que precisam se relacionar bem a partir de agora", diz Lacey. "Eles atualmente trocam telefonemas e se falam como nunca o fizeram anteriormente".

Certamente a ascensão de Camilla não teria ocorrido se a rainha mãe ainda estivesse viva. Na semana passada, o jornal "Daily Mail" anunciou que a família adotou uma política não oficial de convidar Camilla para todas as cerimônias públicas da realeza. Trata-se de uma grande mudança em relação a cinco anos atrás, quando 57% da população dizia que a monarquia estaria em perigo caso a plebéia fumante se casasse com Charles. Atualmente, metade da população acredita que Charles deveria fazer dela uma mulher honesta (embora a maioria não concorde com a possibilidade de Camilla vir a ser chamada de "rainha").

No mês que vem, no seu sínodo anual, a Igreja Anglicana deve adotar novas regra para permitir que pessoas divorciadas se casem na igreja - uma reforma crítica, caso Charles algum dia almeje ser rei. Mas será que ele vai se casar?

Foi certamente com o conhecimento e a aprovação de Charles que a rainha Elizabeth anunciou ao Parlamento, em maio deste ano, que não tem a menor intenção de abdicar do trono e que está ansiosa por fazer o seu reinado. Cheia de vitalidade aos 76 anos, e dado o histórico de longevidade da família, é possível que Elizabeth seja rainha pelos próximos 15 anos, dando a Charles, que atualmente tem 53 anos, um período pequeno para ficar no trono. (Segundo Lacey, este período pode ser ainda menor, caso ele continue a fazer coisas estúpidas, como, por exemplo, jogar pólo). Mas ele parece estar conformado com a idéia de ser um monarca de curto reinado, se é que algum dia será rei, afirmam os observadores da corte.

Na verdade, cerca de um terço dos britânicos acham que o príncipe William, que faz 20 anos na próxima sexta-feira, deve se tornar rei, e não o seu pai, segundo recentes pesquisas realizadas pela BBC. E, entre os jovens, William é o favorito para ocupar o lugar da rainha Elizabeth.

O belo príncipe pode ser a arma secreta da monarquia para combater aqueles que querem acabar com ela. Saudações frenéticas e gritos dignos de uma platéia de show de rock o acompanharam a cada aparição sua no Jubileu, este mês. E quando ele se aventurou corajosamente em meio a multidão e se misturou ao público - algo que nunca havia feito anteriormente - William fez lembrar a habilidade única da mãe em se relacionar com a plebe.

"Ele leva jeito", diz Vickers. "O príncipe traz em si o que há de melhor em cada um dos seus genitores e demonstra ser um foco de atração para a juventude, que vinha demonstrando pouco interesse pela monarquia. Eles nunca poderiam tê-lo inventado".

"William é o pior pesadelo dos republicanos", afirma o especialista na realeza, Shawcross.


Tradução: Danilo Fonseca

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