Guerra contra a Al Qaeda se transforma em uma caçada global

Jonathan Weisman
USA Today
Em Washington

Na guerra contra a Al Qaeda, a parte mais difícil está apenas começando.

O plano de retirada das forças britânicas e canadenses do Afeganistão neste verão assinala um fim da fase militar da guerra contra a rede extremista de Osama bin Laden, segundo oficiais do Pentágono e especialistas em terrorismo. Depende agora dos agentes operacionais de inteligência, forças policiais e unidades militares secretas procurar pelas células da Al Qaeda dispersas pelo mundo.

Segundo oficiais militares, a fase da campanha no Afeganistão foi o trabalho mais fácil. As forças lideradas pelos Estados Unidos tinham um país para atacar, um governo hostil para derrubar e os líderes da Al Qaeda para capturar ou matar. A missão militar dos Estados Unidos era clara: obter o controle do Afeganistão.

"O Afeganistão era um perigo para o nosso país. O governo do Taleban e a Al Qaeda estavam usando aquela nação para realizar treinamentos terroristas", disse na semana passada o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld. "Por isso fomos até lá e tomamos as providências necessárias".

Agora o inimigo está se refugiando em nações que são aliadas dos Estados Unidos na guerra contra o terrorismo. As forças armadas americanas não podem atacar focos de militantes da Al Qaeda no Paquistão, no Iêmen ou na Arábia Saudita, afirmou um oficial de alta patente do Pentágono. Assessores militares dos Estados Unidos ou pequenos contingentes de forças de operações especiais poderiam ajudar, mas a maior parte da tarefa ficará a cargo dos serviços das agências de inteligência e de polícia.

O ministro britânico da Defesa, Geoff Hoon, anunciou na semana passada que o Reino Unido daria início à retirada dos seus 1,7 mil fuzileiros navais do Afeganistão em 4 de julho. Os fuzileiros britânicos se constituem na segunda maior força de combate estrangeira no Afeganistão, depois dos 7 mil americanos. Os canadenses anunciaram em maio que vão retirar os seus 800 soldados por volta de agosto.

Em resposta a essa conjuntura, o coronel do Exército dos Estados Unidos, Roger King, um dos porta-vozes do comando militar da país no Afeganistão, anunciou que suas tropas vão continuar em solo afegão por pelo menos mais um ano. Mas oficiais militares reconhecem que o Pentágono vem reduzindo a quantidade de soldados americanos no Afeganistão há meses. A Marinha, por exemplo, possui apenas um porta-aviões e uma unidade expedicionária de fuzileiros navais na região. No inverno passado, ela tinha quatro porta-aviões e dois navios de assalto anfíbio dos fuzileiros navais mobilizados no Oceano Índico. As forças remanescentes são suficientemente numerosas para conter as ameaças dos comandantes tribais ao novo governo afegão e para responder a ameaças inesperadas. Mas não se trata de um contingente elaborado para tomar a ofensiva, afirma um outro alto oficial do Pentágono. Unidades dos Boinas Verdes continuam a operar no leste do Afeganistão e no oeste do Paquistão, mas as suas ações se constituem mais em operações policiais.

O Pentágono gostaria de reduzir ainda mais as suas forças, mas isso não seria logisticamente praticável. O Campo Raio-X, o centro de detenção de prisioneiros da Al Qaeda e do Taleban, na base da Marinha na Baía de Guantanamo, em Cuba, está totalmente lotado, com 540 detentos. Por isso, vários outros prisioneiros precisam ser mantidos no Afeganistão.

A fim de guardar esses prisioneiros e defender os centros de detenção nas bases aéreas de Candahar e Bagram, o Pentágono está mantendo na região tropas que pretendia trazer de volta para casa, afirmou um oficial do Pentágono.

A estada prolongada está forçando o Pentágono a melhorar as bases, a fim de proporcionar aos soldados um estilo de vida relativamente confortável. Os britânicos e canadenses não estão dispostos a disponibilizar tropas ou a pagar pelos custos de uma missão de longo prazo, afirmam oficiais do Pentágono. Embora estejam longe de ser luxuosas, as bases de Bagram e Candahar possuem agora lojas com estoques bem guarnecidos, quadras de esportes e salões com telões onde são exibidos filmes e eventos esportivos ao vivo.

Mas a guerra contra o terror se deslocou para novas localidades. "A atividade no Afeganistão provocou nitidamente uma dispersão dessa gente", afirmou Rumsfeld. Um oficial das forças armadas afirma que a Al Qaeda está agora "por toda parte, de Bruxelas a Bagram".

Segundo Vincent Cannistraro, ex-chefe de contra-terrorismo da CIA, essas são notícias boas e ruins para a guerra contra o terror. A Al Qaeda parece estar vulnerável e em fragmentação. Nas últimas semanas, foram anunciadas prisões e detenções de líderes importantes e simpatizantes da Al Qaeda em Marrocos, Síria, Arábia Saudita, França, Noruega e Bósnia. As ações policiais também estão em andamento contra agentes operacionais da Al Qaeda no Iêmen, Sudão e Paquistão, afirmou um oficial militar.

Mas, à medida que se dispersam, os extremistas parecem estar escolhendo alvos vulneráveis e lançando ataques em pequena escala, como o recente ataque com um carro-bomba contra o Consulado dos Estados Unidos em Karachi, no Paquistão. Segundo especialistas em terrorismo, tais ataques nunca vão causar o número de baixas ou o dano psicológico dos atentados de 11 de setembro. Mas eles provavelmente se tornarão mais freqüentes e mais difíceis de ser combatidos.


Tradução: Danilo Fonseca

UOL Cursos Online

Todos os cursos