Afegãos sem-teto vivem em buracos na rocha das estátuas de antigos Budas

Mark Memmot
USA Today
Em Bamiyan (Afeganistão)

As estátuas gigantes dos Budas que observaram estes vales durante séculos não existem mais. No seu lugar há apenas enormes buracos.

Mas as famílias que moravam em algumas das centenas de cavernas em torno dos buracos retornaram. Quatro anos após ter fugido da batalha travada aqui, que atingiu o seu clímax quando o Taleban destruiu as estátuas, no início de 2001, eles estão de volta às suas casas sujas, lotadas e primitivas.

Não há eletricidade nem água corrente e o perigo constituído pelas minas e munição não detonada, abandonadas pelo Taleban em frente às suas portas, está sempre presente. As suas casas são literalmente buracos na rocha - alguns escavados pela chuva e pelos ventos, outros cortados em um processo manual que levou décadas, ou até séculos, para ser concluído.

A maior parte das cavernas não é grande o suficiente para um automóvel esporte, mas elas abrigam famílias de até dez pessoas. Quase todas as crianças que nelas moram parecem sofrer de doenças respiratórias e resfriados, que são causados pelas geladas noites de inverno e pela poeira sufocante do verão.

Aqueles que moram aqui dizem que não têm para onde ir. Eles são pobres demais para conseguir algo melhor. Os moradores acham bom que não tenham que morar ao relento ou em residências abandonadas, conforme muitos tiveram que fazer após terem fugido das batalhas entre as tropas da Aliança do Norte e do Taleban, no final dos anos 90.

"Aqui, não existem outras habitações para nós, portanto não temos escolha", afirma Hashimi, de 45 anos, que mora há muito tempo nas cavernas. Assim como a maioria dos outros moradores das cavernas, Hashimi e a família retornaram às cavernas nesta primavera.

Ninguém sabe ao certo há quanto tempo existe gente morando nos rochedos avermelhados que dominam este vale montanhoso, na região central do Afeganistão, que está a 2,5 mil metros acima do nível do mar. Os especialistas dizem que as duas estátuas do Buda, uma de 52 metros de altura, e a outra de 39 metros, provavelmente foram esculpidas nos séculos três e cinco da nossa era.

Há indicações de que monges budistas moraram e meditaram nessas paredes rochosas até o século sete. As paredes da montanha são pontilhadas de aposentos escavados, que antigamente continham altares para meditação. Vários deles servem agora de moradias.

A maior parte dos moradores atuais chegou nos últimos dez ou 20 anos. Pobres e sem terra, eles necessitavam de uma área para morar enquanto ganhavam a vida cultivando pequenos trechos de terra ou trabalham no mercado de Bamiyan, que fica em um vale a cerca de 1,6 quilômetros de distância.

Essas pessoas foram capazes de improvisar casas toscas colocando uma simples porta de madeira na abertura de cada caverna.

Nunca foi realizado um censo para determinar quantas pessoas moram nas cavernas. Uma pesquisa feita este ano pela Cruz Vermelha descobriu pelo menos 56 famílias vivendo no local, segundo Hashimi.

Devido ao fato de ser comum que as famílias afegãs tenham cinco ou mais filhos, o número de moradores nas cavernas pode chegar a 500.

O interior das cavernas é espartano. A casa de Hashimi, onde ele vive com a mulher e sete filhos (o mais velho com cerca de 16 anos, e o mais novo com aproximadamente três) consiste de um único aposento. O teto abobadado tem pouco mais de dois metros de altura na sua parte mais alta. A área total do aposento é de cerca de 9m². Um pequeno fogão está instalado junto à porta. Esterco seco de animais, recolhido nos campos vizinhos, é utilizado como combustível. Não existem árvores suficientes na região para se fazer lenha.

Um pequeno buraco foi escavado na parede da caverna de Hashimi. É ali que a família armazena a comida; cerca de 20 batatas do tamanho de bolas de golfe, dois pequenos sacos de arroz e farinha de trigo, e um pouco de querosene para lamparinas. Quando não estão sendo usados, cobertores e almofadas ficam empilhados contra a parede. O chão de terra é coberto por um tapete fino e gasto. A única luz vem de uma pequena lamparina a óleo ou dos poucos raios de sol que conseguem penetrar através da pequena porta.

A história da família Hashimi é típica daqueles que moram nas cavernas. Sem teto e desesperados por encontrar abrigo, eles se mudaram para cá 12 anos atrás. Um proprietário de terras no vale permitiu que Hashimi cultivasse batatas e outras culturas em um pequeno terreno, em troca de uma parte da colheita.

Algumas vezes há trabalho no mercado de Bamiyan. E às vezes a família aceita dinheiro dos visitantes ocasionais que vêm ver os Budas.

Cerca de quatro anos atrás (ele não se lembra do mês; só sabe que era inverno), Hashimi pegou a mulher e os cinco filhos que tinha na época e fugiu. A luta entre o Taleban e a Aliança do Norte chegou a Bamiyan. A família deixou para trás quase todas as suas posses. Eles levaram "somente o tapete e as roupas", segundo Hashimi.

A família caminhou durante seis dias, rumando para noroeste através das passagens nas montanhas, até chegarem à vila de Dara-I-Suf, na província de Samangan. Em linha reta, a distância é de cerca de 129 quilômetros. Devido aos precipícios, paredões rochosos, rios e outros obstáculos que bloqueavam o seu caminho, a família andou muito mais do que isso.

"Vi 120 pessoas mortas por congelamento durante a minha marcha para o norte", conta Hashimi.

A família conseguiu chegar em segurança. Em Dara-I-Suf, eles ocuparam uma cabana de estuque abandonada. Em troca de comida e um terreno cultivável, Hashimi deu aulas sobre o alcorão às crianças da vila.

Durante o seu primeiro ano em Dara-I-Suf, choveu um pouco, e Hashimi conseguiu colher comida suficiente para alimentar a família. Mas, depois, a maior parte do Afeganistão, incluindo Dara-I-Suf, foi atingida por uma seca.

Devido à escassez de chuva nos últimos três anos, Hashimi e outros moradores da vila mal conseguiram comida para sobreviver Em novembro o Taleban foi derrubado do poder. Parecia seguro retornar a Bamiyan, e, portanto, a família fez a caminhada de seis dias de volta à região.

A situação não é melhor aqui do que em Dara-I-Suf, mas pelo menos eles estão no seu lar.

Bamiyan se transformou em um conhecido símbolo internacional do reinado rude do Taleban depois que os moradores das cavernas partiram. O Taleban acreditava que o Alcorão proibia a reprodução da forma humana em qualquer tipo de obra de arte e, portanto, os seus líderes ordenaram a destruição das estátuas do Buda.

Apesar dos protestos internacionais, as tropas do Taleban, utilizando explosivos e disparos de artilharia, demoliram as estátuas em março do ano passado.

"Ficamos muito tristes ao ver o que aconteceu", afirma Ghulan Eshan, pai de dez filhos, que mora com a família em uma das cavernas. Ele calcula a sua idade entre 50 e 55 anos.

Ele afirma que os Budas "eram propriedade do Afeganistão" e deveriam ter sido protegidos. E eles atraíam visitantes, alguns dos quais davam dinheiro às crianças.

Os moradores das cavernas estão conscientes de que há quem fale em reconstruir as estátuas de alguma maneira, mas eles não acreditam que isso ocorra tão cedo. A população local está bem mais preocupada com o seu futuro imediato e em como vão conseguir obter alimentos.

A ajuda internacional começou a chegar. Uma organização humanitária francesa, a Solidarite, pagou a Hashimi e outros homens US$ 2 (cerca de R$ 5,64) por dia para recuperarem uma estrada. O trabalho durou cerca de um mês.

A Cruz Vermelha forneceu gêneros de primeira necessidade, como arroz, óleo, ervilhas e toldos plásticos para janelas. Um grupo de trabalho com sede em Maryland, o CHF International, está avaliando se uma fonte de águas mais limpas que fique mais próxima pode ser encontrada. Atualmente os moradores precisam andar 15 minutos até um rio para pegar água. Equipes de trabalhadores vasculham todos os dias as montanhas, estradas e os campos, em busca de minas terrestres.

Outros tipos de auxílio são mais informais. As famílias conseguem algumas sobras de comida dos chefes das milícias locais e grupos de ajuda humanitária que atuam na região.

Mas as necessidades dos moradores das cavernas são maiores. Para a família de Hashimi, o café da manhã consiste em pedaços de pão que conseguem com as milícias, molhados em chá. O almoço pode ser composto de algumas batatas cozidas. Para o jantar há arroz, também conseguido das milícias.

Há uma escola que as crianças podem freqüentar. Mas se chover, elas não podem deixar as cavernas para ir às aulas. É muito perigoso porque a água que desce as montanhas pode carregar minas ocultas para os caminhos que se pensava ser seguros. Eles precisam esperar que as equipes caça-minas retornem e façam uma nova varredura da área.

"Temos muitas necessidades", queixa-se Hashimi. "Escolas, um posto de saúde, terra para cultivarmos, comida. Atualmente, não temos nada. Por favor, peça a comunidade internacional para nos ajudar".


Tradução: Danilo Fonsec

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