Dois novos exames de câncer de mama começam a ser usados nos EUA

Rita Rubin
Usa Today

George Papanicolaou é mais conhecido nos círculos médicos por ter desenvolvido o teste que leva o seu nome, e que diminuiu drasticamente o número de mortes por câncer de colo de útero.

Mas alguns cientistas citam uma área de pesquisa na qual o cientista é menos famoso. Quase 50 anos atrás, ele sugeriu que células extraídas de fluido dos canais de leite dos seios -- o local onde se origina a maior parte dos tumores nessa região -- poderiam fornecer pistas sobre os riscos de uma mulher vir a ter câncer de mama.

Atualmente, uma empresa de Massachusetts está comercializando um teste baseado nesse conceito, e uma companhia de Nova York procura vender a sua própria técnica para a extração de fluido dos seios.

Os médicos estão divididos quanto ao valor de tais tecnologias. Os seus defensores dizem que ela fornece informações úteis para as mulheres que se sentem inseguras quanto a usar uma medicação que poderia reduzir o risco de terem câncer da mama. Mas outros especialistas argumentam que se sabe muito pouco sobre a relação entre células anormais presentes no fluido da mama e o risco de câncer.

"Interesses financeiros muitas vezes superam julgamentos clínicos", afirma Allan Korn, chefe do setor médico da Blue Cross-Blue Shield Association, de Chicago, cujo Centro de Avaliação Técnica concluiu recentemente que, pelo menos por agora, essas novas tecnologias só devem ser utilizadas para fins de pesquisas. "Temo que tudo isso não passe de uma solução procurando por um problema".

Atualmente, as principais ferramentas utilizadas pelos médicos para avaliar os riscos de as mulheres desenvolverem câncer de mama são exames que buscam mutações genéticas herdadas que as predispõe a ter a doença, e uma fórmula denominada modelo Gail, que leva em consideração fatores como a idade da primeira menstruação e do primeiro parto. Menos de 10% dos casos de câncer da mama se devem a mutações congênitas. Portanto, o modelo Gail serve como base para a maioria das avaliações de risco da doença.

As mulheres que possuem um alto risco, segundo o modelo Gail, têm poucas opções para reduzir a chance de desenvolverem o câncer de mama. Elas podem tomar a medicação Tamoxifen, ou participar de um estudo de âmbito nacional, em andamento, que compara os resultados do Tamoxifen com os da Raloxifente, uma medicação contra a osteoporose, vendida nos Estados Unidos com o nome comercial de Evista.

A menos que possuam um histórico bem marcado de câncer na família, a maioria das mulheres não toma nenhuma das duas providências, afirma Joyce O'Shaughnessy, do Centro Baylor-Sammons de Câncer, em Dallas, no Texas.

"Devido aos efeitos colaterais do Tamoxifen, as mulheres raramente desejam fazer uso da droga", afirma O'Shaughnessy. Esses efeitos colaterais podem incluir um maior risco de câncer do útero e coágulos sanguíneos. "O modelo Gail não é uma força motivadora". Mas o fato de saber que os canais de passagem de leite contém células anormais pode ser um fator bastante persuasivo para as mulheres, diz ela. No estudo que levou à aprovação do Tamoxifen para a redução do risco de câncer de mama, os benefícios pareceram ser maiores para as mulheres nas quais se detectou a presença de células anormais em uma biópsia do seio. Em geral, o Tamoxifen diminui pela metade o risco de câncer de mama, mas nas mulheres que apresentam resultados anormais em biópsias, esse risco pode ser reduzido em até 85%.

Com o dinheiro que financia as suas pesquisas, O'Shaughnessy coleta células dos canais de leite das mulheres com alto risco de contrair a doença, inserindo uma agulha fina na região em torno dos mamilos. Segundo ela, as cerca de doze agulhas necessárias no exame podem fazer com que as mulheres sintam dores por vários dias.

O'Shaughnessy diz que prefere usar uma técnica menos dolorosas para extrair células dos seios, chamada de lavagem do canal, mas poucos planos de saúde cobrem o custo do exame, que chega a US$ 700 (cerca de R$ 2.000).

Desenvolvida pela Cytyc, mesma companhia que desenvolveu o teste ThinPrep Papanicolaou, a lavagem do canal de leite é feita com a introdução de um cateter da espessura de um fio de cabelo na abertura natural do mamilo. Uma solução salina é injetada através do cateter. Ao ser expelida, a solução traz células do canal, que são analisadas em laboratório.

Patrícia Dote, 54, teve duas lavagens de canal pagas pelo seu plano de saúde. Do lado da família da sua mãe, a avó, duas primas e três tias de Dote tiveram câncer de mama, aparentemente devido a uma mutação genética herdada. A sua mãe tem 75 anos e é saudável, mas Dote ainda se preocupa com a possibilidade de vir a desenvolver a doença.

A sua médica recomendou que ela procurasse um mastologista. O especialista mencionou duas coisas sobre as quais Dote jamais ouvira falar. Uma delas foi a lavagem ductal para avaliar o risco que corria, e a outra foi o uso do Tamoxifen para reduzir este risco. A lavagem ductal revelou a presença de células anormais, ou atípicas, em ambos os seios. Por isso Dote substituiu a sua terapia de reposição hormonal, cujo uso em longo prazo parece aumentar o risco de câncer de mama, pelo Tamoxifen.

"Após descobrir que possuía células atípicas, pensei comigo mesmo 'Sabe como é, não vou mais dar chance ao azar'", conta Dote, que recentemente se aposentou de um emprego burocrático em um sindicato. "Ninguém me disse que as células atípicas vão se transformar em câncer. O que me foi dito é que havia a possibilidade de isso ocorrer".

Essa incerteza é a razão pela qual alguns médicos questionam a utilização da lavagem ductal.

"Não creio que nenhuma das duas técnicas (lavagem ductal ou o método do cateter) deva ser considerada como tecnologia de ponta e não acho que devam ser necessariamente pagas em situações que não envolvam testes clínicos", afirma Carol Fabian, diretora da Centro de Prevenção de Câncer de Mama do Centro Médico da Universidade do Kansas, em Kansas City.

Fabian estuda há muito tempo o método da agulha fina para a extração de células dos canais de leite. Em uma pesquisa divulgada em 2000, Fabian e outros pesquisadores utilizaram este método para extrair células de 480 mulheres que tinham alto risco de desenvolver o câncer de mama. Três anos após as células terem sido analisadas, 15% das mulheres com células anormais desenvolveram câncer do seio, comparadas a apenas 4% daquelas que não apresentaram esse tipo de células.

Esse estudo é citado com freqüência pelos defensores da lavagem ductal. Mas há quem afirme que tais descobertas podem não se aplicar à técnica. Ninguém monitorou as pacientes que se submeteram ao exame para determinar se elas desenvolveram câncer de mama. E uma comparação entre as duas técnicas demonstrou que a lavagem ductal localizou um maior número de células ligeiramente anormais.

"Não se sabe com certeza se a presença de células atípicas é sempre um fator significante", afirma a especialista em câncer de mama, Susan Domchek, da Universidade da Pensilvânia. "Eu realmente não sei como isso afetaria o risco de se contrair a doença".

Assim como no caso do colo do útero, as células anormais, especialmente aquelas ligeiramente atípicas, geralmente se transformam em células normais, ao invés de progredirem para um câncer. Por outro lado, mulheres nas quais a lavagem ductal não gera anormalidades poderiam ainda assim sofrer de câncer de mama, observa Margaret Piper, consultora do Comitê de Avaliação da Blues' Technology. Mas, segundo ela, ninguém estudou como resultados positivos ou negativos têm impacto sobre a decisão das mulheres quanto a usar ou não o Tamoxifen.

O'Shaughnessy, autora principal de um artigo sobre a lavagem ductal, publicado na edição de janeiro deste ano do jornal especializado Cancer, diz que médicos acadêmicos são muito conservadores quando se trata de interpretar dados resultantes de pesquisas sobre câncer de mama. "Trata-se de pessoas extremamente rigorosas quanto a pesquisas nessa área", diz ela.

David Hung, ex-diretor-executivo da Pro-Duct Health, a subsidiária da Cytyc que comercializa a lavagem ductal, afirma que a companhia instituiu um banco de dados para responder a questões mais importantes sobre a técnica. Cerca de mil pacientes já consultaram o sistema, segundo Hung, consultor da Cytyc. "Pretendemos acompanha-las pelo tempo necessário, a fim de obtermos todas as informações de que precisamos".

Os céticos quanto à lavagem ductal elogiam a iniciativa da Cytyc em instituir o banco de dados, mas eles se perguntam porque a companhia não tentou responder a pelo menos algumas das questões antes de colocar a técnica no mercado. "É um pouco incomum partir para a aplicação clínica generalizada antes de se contar com dados resultantes de pesquisas de acompanhamento", afirma Domchek.

Tradução: Danilo Fonseca

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