Aids matará 68 milhões até 2020, prevê relatório da ONU

Steve Sternberg
Usa Today

A Aids matará pelo menos 68 milhões de indivíduos até 2020, a menos que as nações ricas invistam bem mais na prevenção global.

"Atualmente, é claro para mim que estamos presenciando apenas o começo da pior epidemia da história da humanidade", afirma Peter Piot, diretor do Programa Conjunto das Nações Unidas para a Aids (Unaids).

Segundo Piot, a doença vai não abalar somente a África, como também afetar a estabilidade política e econômica de nações de todo o planeta, especialmente quando a epidemia atingir níveis críticos em países como a China, a Índia e a Rússia.
Reuters
Voluntária da ONU presta assistência na cidade de Malota, na Zâmbia



O relatório de atualização da Unaids, divulgado antes do início da Conferência Internacional sobre a Aids, no dia 7 de julho, em Barcelona, indica que, atualmente, existem 40 milhões de indivíduos no mundo com a doença, o que significa um aumento de seis milhões de casos em um período de dois anos. O índice de infecção continua a crescer na Índia, na China, na Rússia e na Europa Oriental. Segundo o relatório, essas são áreas onde a epidemia de Aids está apenas começando.

A epidemia continua a crescer até mesmo em países já saturados com casos da doença, como Botsuana, onde, em 2001, quase 45% das mulheres grávidas eram portadoras do vírus HIV.

"Este é um outro lembrete, como se ainda precisássemos de lembretes, de que estamos lidando com uma pandemia global que continua a superar as piores previsões e a nos confundir", afirma Keith Hansen, que gerencia os programas do Banco Mundial voltados para o HIV e a Aids na África.

Ainda assim, mesmo quando se considera que os preços dos medicamentos abaixaram e que aumentou em seis vezes a verba de doadores nos últimos quatro anos, somente 4% dos pacientes de Aids no mundo conseguem obter tratamento.

Segundo Piot, ao todo, 730 mil pessoas estão recebendo tratamento, metade das quais nos países ocidentais, onde, no ano passado, 25 mil pessoas morreram de Aids. Na África, somente 30 mil pessoas estão recebendo tratamento apropriado, e 2,2 milhões de indivíduos morreram no continente em 2001.

O relatório diz que cerca de dois terços dos africanos tratados estão recebendo medicamentos por meio do programa Acesso Acelerado, da Organização Mundial de Saúde. A maioria das drogas se constitui em versões genéricas dos remédios desenvolvidos no ocidente, e que agora são fabricados por empresas que as copiam na Índia. Os medicamentos genéricos custam cerca de US$ 1 (cerca de R$ 2,85) por dia, o que representa a metade do custo daqueles remédios que recebem maior desconto, fabricados pelas grandes empresas farmacêuticas.

Nenhuma das drogas oferecidas pelas grandes companhias a preços reduzidos se constitui em um medicamento para combater especificamente a Aids, diz Piot. Ao invés disso, essas drogas são utilizadas para tratar as várias infecções que atacam os pacientes aidéticos, que contam com pouca ou nenhuma defesa imunológica. A droga Nevirapine, vendida nos países desenvolvidos com um desconto apreciável, não é usada para o tratamento da doença, e sim para proteger os recém-nascidos de infecções contraídas de mães portadoras do HIV.

Pesquisadores da Universidade Harvard e da Unaids calcularam que o tratamento efetivo de prevenção e os programas de cuidados com os órfãos gerados pela doença custariam cerca de US$ 10 bilhões (algo como R$ 28,5 bilhões) por ano. Até o momento, o fundo, criado pelo secretário-geral da ONU, Kofi Annan, só conseguiu arrecadar US$ 2 bilhões (cerca de R$ 5,7 bilhões).

Piot diz que o crescimento explosivo da Aids não teria ocorrido -- e, nesse caso, o combate à epidemia não seria tão caro -- caso as autoridades não tivessem demorado tanto a responder ao desafio representado pela doença. "Um dos motivos pelos quais temos uma epidemia tão grande é o fracasso das lideranças", denuncia Piot. "Perdemos um tempo precioso. Um tempo que vai se traduzir em milhões e milhões de mortes".

O recente encontro das oito nações mais ricas do mundo, no Canadá, foi um grande desapontamento para os especialistas na Aids. Embora os participantes tivessem frisado que o avanço da Aids provavelmente vai prejudicar o desenvolvimento africano, "nenhum compromisso foi assumido no sentido de apoiar a África", diz Piot.

No entanto, segundo Piot, no ano passado, vários líderes mundiais falaram publicamente sobre a Aids, uma mudança de atitude que, para ele, significa "um grande ponto de inflexão" na história da Aids.

Tradução: Danilo Fonseca

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