Aos 92 anos, Peter Drucker ainda é respeitado como o guru do mundo dos negócios

Bruce Rosenstein
USA Today
Los Angeles (EUA)

Aos 92 anos de idade, o guru dos negócios, Peter Drucker, já viu de tudo -- o despencar das Bolsas de Valores, escândalos de contabilidade nas corporações e todo tipo de comportamento anti-ético no mundo empresarial.

Afinal, ele começou a trabalhar como jornalista econômico no seu vigésimo aniversário, no dia 19 de novembro de 1929, menos de um mês após o grande crash de Wall Street.

"A sua primeira pergunta é se já houve algo similar à atual série de escândalos financeiros que são manchete nos Estados Unidos. Eu respondo que o fenômeno é normal", afirma Drucker, no início de uma entrevista. "Esta é a quarta vez na minha vida em que passo por isso, e todos esses episódios são semelhantes".

A vida profissional de Drucker passou pela Grande Depressão e pela Segunda Guerra Mundial; pelos anos de prosperidade na década de 50 e início da de 60, pela bolha do mercado de ações dos anos 90 e, finalmente, pelos escândalos das corporações ocorridos este ano.

Neste percurso, Drucker escreveu um vasto trabalho sobre gerenciamento que lhe valeu uma Medalha Presidencial da Liberdade, a maior condecoração concedida para civis nos Estados Unidos. A medalha lhe será entregue no final deste mês pelo presidente Bush. Ao anunciar o prêmio, a Casa Branca descreveu Drucker como sendo "o mais importante pioneiro mundial da teoria de gerenciamento" e um defensor imbatível de idéias como "privatização, gerenciamento por objetivos e descentralização".

Drucker vê a situação atual de algumas companhias que já foram poderosas como o mais recente exemplo de um ciclo que ele já viu se repetir várias vezes.

"Tratam-se de empresas que começam de forma legítima e acabam crescendo demais para, a seguir, começar a entrar em jogos arriscados", diz ele.

"Tudo começa com o pessoal de gerenciamento tendo uma idéia brilhante", argumenta. "As idéias brilhantes são sempre as que têm sucesso. E as novidades geradas por essas idéias são sempre os sucessos dos próximos períodos -- depois de expurgadas de seus excessos e riscos".

Warren Bennis, professor de administração de negócios da Universidade do Sul da Califórnia, e uma das maiores autoridades mundiais sobre liderança, conhece Drucker há 50 anos. "Jamais seria um exagero afirmar que ele fez com que o gerenciamento se tornasse respeitável, tanto como profissão quanto como campo de estudo", afirma. "A pergunta de Peter é sempre: para que? Liderança para que? Trabalho de equipe para que?".

"O que faz dele uma figura tão maravilhosa é o fato de ser um profeta sem nada para vender. Ele fala a verdade para o poder", diz Bennis.

Mesmo na décima década da sua vida, Drucker ainda não se furta de manifestar a sua opinião, de fazer palestras e de escrever. E ele ainda não planeja se aposentar (e tampouco a sua mulher, que "tem mais ou menos a mesma idade e ainda participa de torneios de tênis -- e vence", diz ele).

O livro que lançou recentemente, "Managing in the Next Society" ("Gerenciando na Próxima Sociedade" - Truman Talley Books, US$ 29,95), é uma coletânea de artigos escritos para o "Economist", a "Harvard Business Review" e outras publicações. Outro livro seu deverá ser lançado em novembro, "A Functioning Society" ("Uma Sociedade Funcional"), que será um conjunto dos seus melhores escritos sobre ciências sociais. Ele planeja ainda escrever um livro de história, "Contrarian's History of the 20th Century" ("A História dos Contrários do Século 20"). Além disso, Drucker lançará "dispositivos didáticos online" para a Corpedia, uma empresa de ensino pela Internet.

No decorrer de uma entrevista, no mês passado, antes de falar a um grupo de bibliotecários, o pai do gerenciamento moderno admitiu que fez uma concessão à idade avançada.

"Eu diminuí o ritmo; não viajo mais. A única coisa que me cansa muito é viajar", diz ele. "Atualmente faço todas as minhas palestras em vídeo. Falei para uma platéia de Toronto esta semana, e falarei para uma das maiores agências internacionais de ajuda humanitária na semana que vem; tudo isso em vídeo".

Los Angeles fica a cerca de 64 quilômetros da sua casa, em Claremont, na Califórnia, e essa é a sua única exceção com respeito a viagens.

Ele não dá mais aulas regulares na Escola de Pós-Graduação em Gerenciamento Peter F. Drucker, na Universidade Claremont, mas logo iniciará uma série de 12 palestras públicas lá e em Los Angeles. Drucker ainda está mantendo contatos com empresas comerciais e sem fins lucrativos, mas os representantes dessas companhias precisam viajar para vê-lo. Ele tem um problema no joelho, o que faz com que ande vagarosamente e com dificuldade.

"Caso você quiser fazer um diagrama do meu trabalho, em primeiro lugar vem a escrita, depois a consultoria, e, a seguir, as aulas. Nunca fui preponderantemente um acadêmico. Gosto de ensinar porque é dessa forma que aprendo".

Para a entrevista, Drucker está vestido em um terno cinza, típico de um funcionário de organização, com uma camisa de desenhos marrons e brancos, sem gravata e usando sapatos de camurça escovada. Ele fala devagar e com firmeza, com pausas freqüentes, tendo, porém, uma voz alta e cativante, e sendo dotado de um fino senso de humor. Drucker usa aparelhos de audição em ambos os ouvidos, mas, durante a entrevista, apenas um deles está funcionando. O seu corpo está um pouco curvado para frente, e ele anda com o auxílio de uma bengala. Drucker tem um sorriso fácil.

Ele ainda possui um carregado sotaque alemão, um reflexo da sua nativa Viena. Drucker se estabeleceu nos Estados Unidos em 1937, trabalhando como jornalista para publicações britânicas e norte-americanas, e mais tarde se tornou professor e consultor. Ele escreveu mais de trinta livros e incontáveis artigos. O seu primeiro livro, "The End of Economic Man" ("O Fim do Homem Econômico"), publicado em 1939, recebeu um comentário favorável de Winston Churchill.

O seu livro escrito em 1954, "A Prática do Gerenciamento", é considerado uma das obras mais importantes sobre o assunto de todos os tempos, e ele introduziu vários conceitos fundamentais no mundo dos negócios, tais como gerenciamento por objetivos e a importância de se contar com trabalhadores educados.

John Flaherty, ex-reitor da Escola de Negócios da Universidade Pace, em Nova York, e autor do livro "Peter Drucker: Shaping the Managerial Mind" ("Peter Drucker: Moldando a Mente Gerencial"), afirma que Drucker "ainda é relevante porque os seus fundamentos ainda são relevantes. Não existe nenhum outro pensador vivo que tenha criado um trabalho melhor e mais nítido sobre os fundamentos da disciplina".

Flaherty reconhece que ler e compreender Drucker exige um certo esforço: "Como disse Dickens: Nem todo o aprendizado é divertido; é necessário escavar o saber".

Durante a entrevista e a palestra para os bibliotecários, Drucker fala sempre da mulher, Doris, física, inventora, empresária, agente de patentes e escritora. Eles são casados há 65 anos. Após a primeira parte da entrevista, Drucker deixa uma mensagem para ela na secretária eletrônica, que começa assim: "Alô, minha querida...".

Se Drucker é um workaholic, trata-se de um workaholic equilibrado.

Ele está terminando um projeto de três anos de releitura das peças de Shakespeare -- faltam apenas "Um Conto de Inverno" e "A Tempestade" -- e há muito tempo coleciona peças de arte japonesa, um assunto no qual é considerado uma autoridade. As organizações sem fins lucrativos atraem a sua simpatia, e ele é o presidente honorário da Fundação Peter F. Drucker para o Gerenciamento sem Fins Lucrativos, fundada em 1990.

"Faço mais consultorias do que nunca, mas creio que trabalhei mais para organizações sem fins lucrativos. Mas o que aconteceu foi que presenciei uma grande quantidade de clientes antigos de grandes companhias retornando a mim. Europeus, japoneses e norte-americanos; eles queriam saber como se reposicionar na economia mundial".

"Não tenho sequer uma secretária", diz ele. "Há somente uma mulher para digitar tudo, e mantenho contato com todos os meus clientes, mesmo quando não faço negócios com eles há 20 anos. Eles ainda são meus amigos".

Ele sente um prazer especial em trabalhar com pequenas empresas, "onde dá para ver resultados. O meu primeiro cliente foi a General Motors; comecei pelo topo e fui trabalhando rumo aos escalões inferiores".

Uma das histórias de sucesso relativas aos alunos de Drucker é a do deputado David Dreier, republicano da Califórnia, chefe do Comitê de Regulamentos da Câmara, que teve a sua primeira aula com Drucker como estudante de graduação, na Faculdade Claremont McKenna.

Dreier afirma que Drucker "possui um tremendo conhecimento histórico e a capacidade de aplicar esse conhecimento aos desafios diários. Ele é um dos seres humanos mais brilhantes que já conheci".

Nancy Baxter, gerente de investimentos regionais da Wells Fargo, em Pasadena, na Califórnia, é uma ex-aluna de Drucker, com um MBA na Claremont. Atualmente, ela está cursando um programa de doutoramento nesta faculdade.

Ela afirma que, como professor, Drucker é "absolutamente notável -- nunca o vi dar aulas a partir de anotações".

Gary Hamel, diretor de da firma de consultoria Strategos, e co-autor de um livro importante sobre negócios, "Competing for the Future" ("Competindo para o Futuro"), afirma que Drucker possui a rara habilidade de "misturar pensamentos revolucionários e aplicações práticas. A sua mais importante contribuição foi profissionalizar o trabalho de gerenciamento", diz Hamel. "Ele é o raro indivíduo capaz de fazer uma ponte entre a teoria e o mundo da prática".

Em um momento de reflexão, próximo ao fim da entrevista, Drucker diz, "Na minha idade, ninguém reza por uma vida longa, e sim por uma morte fácil".

"Estou no ramo 24 horas por dia, sete dias por semana, desde que tinha 20 anos", diz ele ao grupo de bibliotecários, cuja Associação de Bibliotecas Especials, especializada em comércio e negócios, foi fundada em 1909, o ano do seu nascimento. "Sou viciado em trabalho. E a minha mulher também é, graças a Deus. Caso contrário o nosso casamento não teria durado 65 anos".

Durante a sua palestra -- que durou quase 90 minutos -- ele se sentou sozinho no palco, em uma cadeira acolchoada, segurando o seu relógio e, ocasionalmente, verificando as horas. Ele balançava o relógio com a mão direita, quando gesticulava.

Drucker não tomou um gole sequer de água durante a palestra e falou com o ritmo de um comediante. Ele manteve a audiência atenta e recebeu o tratamento de um astro de rock, com aplausos de pé, antes e depois da sua fala. Um grupo de admiradores o acompanhou pela porta a fora.

Ao final da sessão de perguntas e respostas, enquanto aconselhava o público a levar uma vida que não fosse inteiramente ligada ao trabalho, ele deu uma dica final: "Sou um velho consultor; façam o que eu digo e não o que faço".

Tradução: Danilo Fonseca

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