Casais que moram juntos antes do casamento têm mais chances separar

Karen S. Peterson
USA Today

Um especialista que participará da conferência "Casamentos de Sucesso", esta semana, divulgará uma pesquisa que pode gerar polêmica.

A tese do pesquisador Scott Stanley é a seguinte: As mulheres que moram com parceiros com os quais não são casadas, esperando que, no fim das contas, contarão com um casamento sério, deveriam reavaliar suas opções. As pesquisas demonstram que os homens que vivem na mesma residência com as mulheres com quem um dia vão se casar são menos comprometidos com o casamento do que aqueles que nunca moraram com as futuras esposas antes do casamento.

Uma série de casos será apresentada na próxima quinta-feira em Washington, D.C., na conferência patrocinada pela Coalizão para o Casamento, a Família e a Educação de Casais.

Mas, ao invés de dar respostas definitivas para os mais de cinco milhões de casais americanos que vivem juntos sem serem casados, a pesquisa provavelmente gerará muita polêmica. Ela vai ainda trazer novas questões sobre quem é mais descuidado quando se trata de assumir compromissos: o homem ou a mulher.

Stanley, co-diretor do Centro de Estudos Conjugais e da Família, da Universidade de Denver, afirma que as evidências exibidas pela sua pesquisa são tão fortes que as mulheres que vivem com os parceiros, sem serem casadas, "deveriam passar a avaliar com cuidado até que ponto estão dispostas a ficar com um determinado homem, caso ele não demonstre possuir um forte compromisso para com o casamento e um futuro em conjunto".

A pesquisa demonstra que são os homens os que mais fincam o pé quando o assunto é ir ao altar.

Stanley afirma que os resultados encontrados não significam que não existam "vários super-homens" no mundo, que conviveram e são dedicados a suas mulheres, tanto antes quanto depois do casamento. Mas as suas descobertas são relativas à média, diz ele, e são reforçadas por um outro dos seus atuais projetos.

A mulher que convive com o namorado, segundo o pequeno, mas pioneiro, trabalho de Stanley, não demonstra diferenças quanto ao compromisso para com as uniões, antes ou depois do casamento.

Ele acredita que os homens que desejam "fazer primeiro um teste de como será o casamento" têm menos compromisso para com a união conjugal e para com as suas parceiras, do que aqueles homens que se casam diretamente, sem antes terem vivido com as namoradas. Ele acha que as mulheres ainda são socializadas de forma a colocar o relacionamento acima de tudo e possuem a tendência a ser tão compromissadas depois do casamento com a união e com o parceiro quanto o eram antes de se casar.

Os resultados da pesquisa vão interessar aqueles que monitoram as tendências conjugais. Morar na mesma casa antes de casamento é uma tendência comum. Atualmente, entre 50% e 60% dos novos casamentos envolvem casais que moraram juntos antes de se casarem.

Muitos daqueles que moram juntos acreditam que tal prática é uma verdadeira vacina contra o divórcio. "Tenho namorado com a mesma pessoa por três anos, e o casamento parece ser a progressão natural do nosso relacionamento, o próximo passo a ser tomado", afirma Scott Tolchinsky, de 23 anos, de Bethesda, Maryland. "A gente vê tanta gente se divorciando que acaba tentando fazer de tudo para que o casamento dê certo".

"O divórcio é realmente uma questão muito importante para a minha geração", afirma Rosanne Garfield, de Arlington, Virginia. A minha família não teve muito sucesso com o casamento. Eu morava com meu namorado no ano passado. Quando eu lhe disse que tomasse uma decisão quanto ao casamento, o relacionamento acabou. Mas eu nunca teria pensado em deixar de viver com uma pessoa antes de me casar com ela".

Ironicamente, o índice de divórcios entre aqueles que já moraram juntos é maior do que entre os que não o fizeram. Os especialistas dizem que isso se deve ao fato de aqueles que escolheram morar juntos antes do casamento não acreditarem, desde o princípio, na viabilidade do casamento.

Já Stanley identifica outros fatores. Nos seus estudos com namorados que viviam juntos antes de se casar, os homens menos religiosos eram especialmente propensos a se comprometer menos com as parceiras. Pode ser que os altos índices de divórcio entre os casais que moraram juntos antes de se casar se deva "à presença de homens menos dedicados, menos religiosos e mais negativos, do que aqueles que não viveram com a namorada sob o mesmo teto", diz ele.

Co-autor do livro "Fighting For Your Marriage" ("Lutando pelo Seu Casamento"), Stanley auxiliou a desenvolver um curso de técnicas de comunicação para casais, baseado em 20 anos de pesquisas no centro. Grande parte do seu trabalho é patrocinado pelo Instituto Nacional de Saúde Mental.

O seu estudo atual se baseia em um grupo de 207 homens e mulheres casados há menos de dez anos e em pesquisas com 950 adultos de todo o país. Avaliações padronizadas de compromisso foram empregadas durante as entrevistas feitas por telefone.

O seu estudo será publicado em uma futura edição do periódico "Journal of Family Issues".

Stanley afirma que os seus resultados se coadunam com aqueles de um estudo controverso realizado pela Universidade Rutgers, divulgado em 25 de junho. A pesquisa, feita pelo sociólogo David Popenoe, se tornou uma questão polêmica. Popenoe vai explicar melhor as suas descobertas na conferência em Washington.

O estudo da Rutgers revelou que os homens jovens demonstram relutância em se casar porque simplesmente morar com uma mulher é bem mais fácil. Eles temem o preço de um divórcio. Esses jovens não demonstram entusiasmo pela idéia de dividir as tarefas diárias de cuidar de filhos com as futuras mulheres. Além disso, eles gostariam de, primeiro, atingir a estabilidade financeira.

De acordo com Stanley, tanto ele quanto Popenoe concordam que, "a transição da condição de solteiro para a de casado representa uma mudança maior para o homem do que para a mulher. E, os homens demonstram mais relutância em fazer tal mudança".

Segundo Stanley, as mulheres são mais dispostas a se sacrificar por outros e a suportar o peso e a responsabilidade representados por bebês. Além disso, os anos férteis da mulher são limitados. Elas ouvem os seus relógios biológicos batendo, enquanto que os homens ouvem apenas o "som do silêncio".

Vários especialistas concordam que os homens são indecisos quando o assunto é o casamento. Frank Pittman, psiquiatra de Atlanta, autor do livro "Grow Up!" ("Cresça!"), afirma que os homens não foram criados para serem bons candidatos para os casamentos igualitários atuais. "O casamento é, por natureza, total, permanente e igualitário. Neste sentido, ele é diferente de qualquer outro relacionamento ou atividade". Os homens ainda relutam em se mover rumo a tal relação estreita, diz ele.

Mas o estudo da Universidade Rutger está causando alvoroço em outro lugar. O Projeto Alternativas ao Casamento desmonta a idéia de que os homens prefeririam ter uma amante com quem morassem do que uma esposa. Marshall Miller e Dorian Slot, que não são casados e vivem juntos, sendo fundadores do grupo sem fins lucrativos que presta assistência aos parceiros não casados, dizem que "os homens na verdade tendem a ser mais interessados do que as mulheres no casamento". Entre as pesquisas e entrevistas eles citam:

- Uma pesquisa de 1996, do Instituto Gallup, demonstrou que 39% dos homens solteiros prefeririam estar casados; para as mulheres solteiras esse número era de 29%.

- Uma pesquisa com estudantes do segundo grau, patrocinada pelo governo, de 1996 a 2000, revelou que 59% dos homens solteiros entre 18 e 35 anos queriam se casar, contra 48% das mulheres desta faixa etária.

Segundo Miller, os homens são comprometidos com as mulheres. "A sua única hesitação diz respeito a se comprometerem com a instituição do matrimônio".

Steve Penner, de Brighton, Massachusetts, ligou para o "USA Today", a fim de contestar a pesquisa da Universidade Rutger. Ele diz que nos últimos 20 anos entrevistou mais de 21 mil solteiros, como chefe da LunchDates, uma empresa que auxilia indivíduos a encontrar parceiros da área de Boston.

Para ele, tanto os homens quanto as mulheres de hoje buscam o compromisso. "Acho realmente que estamos sendo injustos com os homens. Homens e mulheres estão buscando de forma igual o relacionamento".

O fato de alguém querer assumir ou não um compromisso sério depende da idade, situação financeira e experiências de vida, e não de ser homem ou mulher, dizem vários outros.

"As pessoas estão sempre dizendo que todos os homens são uns cachorros", afirma Tolchinsky. "Mas há vários homens legais que estão querendo se estabelecer na vida. Talvez as mulheres estejam procurando nos lugares errados".

Segundo Penner, atualmente ambos os sexos estão adiando o casamento por motivos financeiros. "Ambos querem primeiro comprar uma casa. Ambos querem garantir uma carreira. Esses são os filhos da geração "baby boom", e os homens e as mulheres são muito semelhantes".

De fato, ambos os sexos tendem a se casar mais tarde. A idade média do primeiro casamento para os homens é 27 anos, e, para as mulheres, 25 anos.

A sua geração está esperando, diz Garfield. "Tivemos experiências com famílias funcionais e problemáticas à nossa volta. Um compromisso duradouro depende realmente de um processo de tentativas e erros", diz ela. E morar primeiro juntos é uma boa opção.

Talvez, diz o pesquisador Scott Stanley. Mas, ainda assim, há as suas descobertas quanto aos homens que moram primeiro com as namoradas, versus aqueles que não o fazem, e dos homens que moram com uma mulher, mas, dez anos após o casamento, não se sentem solidamente comprometidos com ela. Ele diz às mulheres: "Se você quer alguém com quem se casar, procure um homem que não moraria com você antes do casamento".


Tradução: Danilo Fonseca

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