No Afeganistão, a liberdade convive com o temor de represálias

Steven Komarow
USA Today
Em Cabul (Afeganistão)

Tahir, o meu tradutor, possui o hábito irritante de inserir comentários pessoais quando traduz sentenças do dari ou do pashto para o inglês. Geralmente, trata-se de algo inócuo, como, "Ah, isso é importante!", ou, "Boas notícias!".

Mas ele também introduz sentenças incômodas.

"Ela vai ser morta", disse ele secamente, após a ministra de Questões das Mulheres ter sugerido que as crianças usassem lápis e papel e parassem de brincar com armas, imitando os seus pais, os "guerreiros da jihad".

Ele fez uma previsão semelhante quando o governador da província de Candahar sugeriu que a palavra "Islâmica" fosse removida do nome oficial da nação, "Estado Islâmico do Afeganistão".

"Vão mata-lo", afirmou Tahir.

Até o momento, essas duas autoridades foram poupadas. Mas dois outros altos membros do governo, o vice-presidente Haji Abdul Qadir e o ministro do Turismo, Abdul Rahman, foram assassinadas nos últimos seis meses. Isso apesar da presença de uma força de segurança composta de 4,5 mil soldados ocidentais e de centenas de tropas "especiais" dos Estados Unidos, que circulam por Cabul em veículos Chevy Suburban blindados e dotados de vidros escuros. A morte de Qadir ocorreu no último final de semana.

A missão de longo prazo dos aliados ocidentais e defensores de mudanças no Afeganistão, além de exterminar a Al Qaeda, é garantir a paz e uma democracia estável. Há um novo governo que, embora não tenha sido diretamente eleito pelo povo, foi pelo menos instalado por uma assembléia representativa composta por anciões, chefes tribais e outros indivíduos poderosos no país. Em menos de dois anos haverá eleições.

Mas, conforme demonstram as advertências de Tahir e os assassinatos dos membros do governo, planos cuidadosamente elaborados e ideais democráticos pouco significam nas ruas poeirentas de Cabul.

O Taleban proibiu a música ocidental e a arte. Mas elas retornaram com um ímpeto vingativo.

Os cinemas estão funcionando. Fitas de vídeo e CDs piratas são vendidos em toda parte, acompanhados de pôsteres apelativos com fotos de mulheres semi-nuas e de homens musculosos. Centenas de motoristas e ciclistas de Cabul instalaram buzinas eletrônicas musicais em seus veículos. O minha favorita é a de um táxi que toca "Noite Feliz" quando o motorista dá marcha-ré. É estranho houver a música de natal em um país onde os cristãos precisam praticar a sua religião escondidos.

Essas buzinas são necessárias. O trânsito no Afeganistão praticamente não possui regras. A polícia ainda está às voltas com questões básicas como saber de que lado da estrada os motoristas devem dirigir.

Se o tráfego está engarrafado no seu sentido (as pessoas "geralmente" dirigem do lado direito da pista), respire fundo e tente a contramão. Você não será multado por isso.

Vários observadores associam as vestes ocidentais com liberdade. O símbolo da repressão no Afeganistão tem sido a "burca", uma veste usada pelas mulheres adultas em locais públicos, que as mantém ocultas da cabeça aos pés. Quem as usa enxerga através de uma pequena tela. Não é de se surpreender que é desproporcional o número de mulheres atropeladas na cidade.

A burca é um traje tradicional na região e o seu uso se tornou obrigatório pelo Taleban. Desde a derrota do movimento fundamentalista no ano passado, mais mulheres muçulmanas estão saindo às ruas sem a burca, usando apenas xales para cobrir os cabelos, mas mantendo as faces descobertas. "Moças bonitas", diz regularmente Tahir. Mas a maioria das mulheres ainda usa as burcas.

Uma mídia livre é um outro símbolo de liberdade. Abdul Samad, de 35 anos, um comerciante, deseja receber notícias confiáveis, ao invés da propaganda dos jornais e estações de televisão afegãos. Como a maioria da população local, ele depende de fontes estrangeiras e da "fábrica de boatos" para descobrir o que está se passando. Ele diz estar cansado de pagar propinas para conseguir permissões do governo para trabalhar.

Ghulim Raswol, de 33 anos, também reclama da corrupção. Há uma grande desconfiança quanto ao governo, talvez por bons motivos. "Homens usando uniformes do governo me pararam e, antes que eu fizesse qualquer pergunta, me espancaram e roubaram US$ 2 mil (cerca de R$ 5,7 mil) que eu tinha nos bolsos", reclama.

Às vezes, peço a Tahir que vá ao mercado sem mim, a fim de falar com as pessoas e ouvir as fofocas. Sem a presença de um ocidental, os indivíduos respondem às perguntas de forma mais natural.

Mas o sucesso de Tahir em me fazer compreender o que se passa é apenas parcial. O significado e as entonações das palavras nem sempre podem ser traduzidos. Portanto, às vezes ando sozinho, tentando absorver o espírito das coisas. Dá para sentir a tensão em Cabul. Os indivíduos podem defender a liberdade, mas a sociedade vive com medo de represálias.

De todas as melhorias físicas ocorridas em Cabul nos últimos oito meses, a mais impressionante diz respeito aos muros, especialmente aqueles que cercam os quintais das casas.

Eles dão privacidade às famílias e permitem que marquem os seus territórios. A maioria é feita de tijolos cobertos de estuque, com um único portão de madeira ou metal levando ao quintal. O interior é um santuário. Pode não haver comida suficiente, mas, dentro dos muros, as mulheres não precisam usar as burcas, e as crianças brincam sem medo de serem atropeladas.

O palácio real, no centro da cidade, atualmente ocupado pelo presidente Hamid Karzai, sempre teve muros. Um dia, eu estava sentado em frente aos portões, esperando a hora de uma entrevista que faria no palácio. Uma mulher idosa que usava uma burca chegou com documentos que desejava que fossem vistos por Karzai. Segundo ela, os documentos atestavam que o governo lhe devia uma indenização.

Os guardas riram da mulher e a ameaçaram com um bastão de aço. Ele gritou com eles, não conseguiu entrar e terminou partindo. Fiquei pensando se a burca era o seu muro; se a veste protegia a mulher contra os insultos que lhe foram dirigidos.


Tradução: Danilo Fonseca

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