Museu de espionagem será inaugurado em Washington

Kitty Bean Yancey
USA Today
Em Washington

Nem tudo neste museu é aquilo que parece ser.

Aquele batom vermelho, por exemplo, é, na verdade, uma diminuta pistola chamada de "o beijo da morte", e era portada por agentes do KGB do sexo feminino.

E quanto à tradicional caixa de correio azul do US Postal Service? Esta é a que foi utilizada pelo traidor da CIA, Aldrich Ames, para entregar documentos sensíveis aos seus contatos soviéticos.

E aquela foto, inocentemente colocada sobre uma mesa? A moldura é equipada com um dispositivo eletrônico de escuta, o que demonstra como objetos aparentemente inócuos podem ser usados para a coleta de inteligência.

O material utilizado por espiões da vida real, como George Washington, Mata Hari e outros, provenientes do mundo todo, está no novo Museu Internacional da Espionagem, instalado em cinco prédios que ficam em um quarteirão inteiro do centro de Washington. Considerado o maior museu público dedicado à história da espionagem internacional, o complexo, financiado por capital privado, e que deve ser inaugurado no dia 19 deste mês, contém a mais completa coleção de artefatos de espionagem já exibidos.

Entre eles:

- A lendária Enigma, a máquina criptográfica utilizada pelos alemães na 2ª Guerra Mundial, cujos mistérios foram desvendados pelos aliados.

- Um aparelho de escuta soviético, colocado no salto do sapato de um indivíduo.

- Uma câmera utilizada pela polícia alemã oriental para tirar fotografias através de paredes durante a Guerra Fria.

- Uma carta escrita por George Washington, a fim de recrutar um homem para espionar os ingleses.

- Uma réplica do Aston Martin DB5 prateado de James Bond, completo, com o escudo retrátil contra balas, metralhadoras duplas e protetores de pneus, conforme visto no filme "007 contra Goldfinger".

Entre os artefatos mais incomuns para espionagem está o "kit retal" da CIA - uma cápsula contendo ferramentas de corte, que podiam ser ocultas em uma cavidade do corpo e utilizadas em caso de captura. O kit era fornecido aos oficiais e agentes de inteligência envolvidos com missões perigosas na década de 60.

Mas o museu - feito de tijolos no exterior, e de aço inoxidável reluzente, vidros escuros, espelhos e madeira no interior - fornece mais do que apenas uma chance para se observar os artefatos do mundo secreto da espionagem.

"É uma experiência de imersão", afirma o diretor-executivo Peter Earnest. O seu currículo inclui 36 anos como funcionário da CIA, vários deles passados em operações clandestinas.

"Tentamos entrar na mente dos espiões, a fim de elucidar a mentalidade e a metodologia da espionagem", acrescenta Kathleen Coakley, vice-presidente do complexo.

A imersão começa próximo à entrada do museu, com exibições interativas chamadas de "escola de espionagem". Os visitantes podem selecionar uma identidade fictícia de cobertura, memorizar detalhes-chave sobre ela e, a seguir, serem interrogados por um guarda de fronteira em uma tela de vídeo - cujos olhos se apertam de maneira ameaçadora quando o visitante dá a resposta errada.

Outros aparelhos no estilo de videogames desafiam o visitante a quebrar um código, apontar locais onde um espião pode ter deixado um objeto sensível, ou detectar atividades suspeitas em um cenário aparentemente tranqüilo de um parque público.

As 24 salas de exibição, que exigem pelo menos três horas do visitante para que as explore, também mostram a história da espionagem através dos tempos. Uma seção de espiões famosos inclui Julia Child, que processou documentos classificados no Ceilão para a precursora da CIA, o Departamento de Serviços Estratégicos (OSS). "Ela gostava de aventuras", afirma Coakley, mostrando uma foto de Child, charmosamente reclinada em uma cama de campanha.

Para os fãs de cultura popular, há clipes de filmes e shows de televisão nos quais a espionagem desempenhou um papel, além de produtos de consumo inspirados pela atividade. Exibições mais sérias giram em torno de erros de inteligência envolvendo o ataque a Pearl Harbor, do uso de propaganda nos tempos de guerra e de satélites espiões.

"É algo realmente empolgante", afirma Milton Maltz, o dinâmico fundador do Museu Internacional de Espionagem, de 72 anos, apontando para uma câmera miniatura que era amarrada a pombos para tirar fotos daquilo que ocorria no solo. "Não foi difícil formar um conselho de consultores com oficiais de inteligência aposentados da CIA, do FBI, do exército, da Otan e do KGB, e conseguir os artefatos também foi fácil, tão logo as pessoas entenderam que eu estava sendo sincero e possuía os recursos financeiros necessários", conta Maltz, que começou a carreira como proprietário de estações de rádio e televisão, e cuja Malrite Company atualmente desenvolve museus.

Maltz, que participou da criação do Museu da Fama do Rock and Roll de Cleveland, está investindo US$ 40 milhões (cerca de R$ 112,44 milhões) nesta aventura de espionagem, que será administrada pela sua companhia. Ele trabalhou para a super-secreta Agência de Segurança Nacional (NSA) durante a Guerra da Coréia e sempre quis "fazer com que o público se conscientizasse da importância da inteligência para a segurança nacional".

"Sempre existiu esse interesse em segredos", acrescenta o diretor executivo, Earnest. "Mas, atualmente, estamos presenciando um renascimento do interesse na espionagem e no contra-terrorismo, um fenômeno nitidamente estimulado pelos episódios de 11 de setembro e suas conseqüências".

Coakley acredita que espiões reais também se interessem pelo museu, "mas eles se preocupam em serem vistos por aqui - devido a questões de segurança".

Portanto, não tente saber a identidade real de qualquer indivíduo suspeito que for visto espreitando em um canto escuro deste museu. Se te falar quem realmente é, ele pode ter que te matar depois.


Tradução: Danilo Fonseca

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