Maioria das vítimas de abusos sexuais por padres é do sexo masculino

Janet Kornblum
USA Today

A maior parte das vítimas de abusos sexuais é do sexo feminino. Mas, no caso da Igreja Católica, o que ocorre é o inverso: a esmagadora maioria dos indivíduos que relataram ter sido abusados sexualmente quando crianças por padres católicos é formada de pessoas do sexo masculino. Um banco de dados com análises de relatórios de mais de 1.200 supostas vítimas, identificado pelo USA Today, demonstra que 85% das vítimas são homens.

Os especialistas -- entre os quais estão psicólogos, advogados e grupos de defesa dos direitos das vítimas -- afirmam que vários fatores podem explicar por que há um número maior de relatos de vítimas ddo sexo masculino. O fator mais óbvio é que um número maior de garotos sofreu abusos.

Barbara Blaine, fundadora e presidente da Rede de Sobreviventes de Abusos Cometidos por Padres (SNAP), diz acreditar que esse seja o caso -- ainda que a metade dos membros da SNAP seja composta por mulheres. Blaine diz que as mulheres são mais propensas do que os homens a participar de grupos de apoio.

Embora certas pessoas tenham dito que as raízes de tais abusos estariam no homossexualismo, Blaine acrescenta que, muitas vezes, o abuso sexual está ligado a tentativa de encontrar os alvos mais fáceis. "Tradicionalmente, os padres sempre tiveram mais acesso aos meninos", explica Blaine. No passado, somente os garotos podiam prestar serviços auxiliares no altar; as "meninas de altar" são um fenômeno recente. E ninguém manifestava estranheza quando padres levavam meninos em viagens; já com as meninas, eles não podiam fazer o mesmo.

Para alguns dos padres pedófilos, o sexo das vítimas não importava: Bridget Lyons afirma que ela e o irmão mais novo sofreram abusos por parte do mesmo padre durante dois anos. Ela tinha 14 anos, e o irmão nove. "A questão não se refere a padres homossexuais e sim a poder e controle -- da mesma forma que o estupro", diz Lyons.

E há quem diga que mulheres adultas também foram vítimas de padres.

Susan Archibald, do grupo de apoio a vítimas The Linkup, tinha 18 anos quando procurou um padre para buscar conselhos. Ao invés disso, ela diz que acabou envolvida em um relacionamento sexual com o sacerdote. Infelizmente, ela acrescenta, a sua história é muito comum. "Quer a vítima tenha 12, 16 ou 20 anos, o padre ainda tem a responsabilidade de dizer não".

Mas fazer a acusação é uma decisão que cabe à vítima. E pode ser que as mulheres possuam menos tendência a acusar publicamente aqueles que delas abusaram.

"Para muitos jovens, há uma sensação de poder advinda do fato de estarem identificando publicamente os perpetradores", diz Jason Berry, autor de "Não nos Deixe Cair em Tentação", um livro escrito em 1992 sobre abuso sexual cometido por padres. "Para as mulheres, parece ser mais difícil tomar essa atitude pública".

Além disso, pode haver uma tendência que se autoperpetua, que acidentalmente encorajaria mais vítimas do sexo masculino do que do feminino a denunciar os abusos. Quando as vítimas vêem histórias semelhantes às suas expostas na mídia, elas apresentam maior probabilidade de também se manifestar.

E a maioria das histórias se concentrou nos homens, seja porque mais vítimas do sexo masculino reclamaram publicamente, seja porque as histórias de padres que abusam de garotos são intrinsecamente mais sensacionais do que aquelas envolvendo meninas e mulheres, afirma o diretor da SNAP, David Chohessy.

Além do mais, as vítimas do sexo masculino e feminino têm tratamentos diferenciados.

"A maior parte das mulheres que tentam contar o seu caso, só o fez porque foram tratadas como se tivessem seduzido um sacerdote", afirma Sheila Poettgen, de 31 anos. Poettgen, que diz ter sofrido abusos de um padre quanto tinha dez anos, perguntou às mulheres do Web site da SNAP pelo que essas haviam passado, antes de relatar publicamente o seu próprio caso de abuso.

"Se estivermos lidando com uma adolescente, é quase certo que ela será tida como a sedutora na história", diz Gary Schoener, diretor-executivo de um centro de aconselhamento de Minneapollis, que trabalha freqüentemente como especialista em casos de abuso.

"Nunca vi um garoto que fosse acusado de seduzir um padre", diz ele. "Já as meninas são freqüentemente acusadas. É um fato. Há quem chegue a lhes perguntar se gostaram da experiência e se tiveram orgasmos".

Tradução: Danilo Fonseca

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