Ideólogos da extrema direita trabalham para derrubar Colin Powell

DeWayne Wickham
USA Today
Em Washington (EUA)

Será que Colin Powell vai deixar o governo?

O boato que circula na capital dos Estados Unidos é que o secretário de Estado da administração Bush pode em breve deixar a sua função. Dezoito meses após ter assumido o cargo mais importante da política externa de George W. Bush, Powell estaria planejando renunciar, possivelmente após as eleições parlamentares de novembro.

Por que? Aparentemente devido à interferência de ideólogos da direita, membros ou não do governo Bush, sobre o seu trabalho. Esses elementos estariam conquistando espaço para se imiscuir em questões de política externa e minando a diplomacia cultivada por Powell. O grupo de direita recebeu toda a atenção de Bush em várias questões importantes de políticas externas, forçando Powell a reverter as suas posições.

Na semana passada, Powell esteve no centro de uma decisão da administração Bush de reter o pagamento de US$ 34 milhões (cerca de R$ 108 milhões) ao Fundo das Nações Unidas para a População, um grupo que fornece serviços de planejamento familiar e saúde reprodutiva a 142 países. A medida foi tomada porque a China, que obriga mulheres a fazer abortos, é uma das nações que recebem auxílio da agência da ONU.

O dinheiro foi retido, apesar de haver uma lei norte-americana que proíbe a agência da ONU a aplicar fundos obtidos nos Estados Unidos na China. A medida também veio apenas dois meses após uma equipe de averiguação enviada por Powell à China ter relatado que não há provas de que existe envolvimento do fundo com abortos ou esterilizações forçados -- e 18 meses após o secretário ter elogiado o trabalho da agência, durante o seu discurso de posse, no Senado.

Acredita-se que a decisão de reter a verba tenha sido imposta pelos assessores de Bush, que estão mais preocupados em dinamizar a base conservadora do Partido Republicano nas eleições de novembro do que em fornecer planejamento familiar para moradores de países remotos.

Powell também parece ter saído enfraquecido devido ao pedido de Bush para a retirada de Iasser Arafat da liderança da Autoridade Palestina. Menos de duas semanas antes, Powell disse em uma entrevista a um jornal que a administração Bush não concordava com a recusa do primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon, em reconhecer Arafat como o líder do povo palestino. A rejeição de Arafat por Bush parece estar enraizada em esforços para cortejar votos de judeus da Flórida, onde o seu irmão, o governador Jeb Bush, deve enfrentar uma árdua disputa pela reeleição em novembro.

Powell merece um tratamento melhor. Ele é um estadista-soldado, e não um político profissional. A sua saída do governo seria uma perda enorme para Bush, cuja presidência se beneficiou bastante da presença do general da reserva de quatro estrelas no gabinete. O ex-chefe da Junta de Comandantes do Estado Maior é visto pelos aliados dos Estados Unidos como um internacionalista em uma administração dominada por isolacionistas. O seu índice de aprovação entre os norte-americanos rivaliza com o do presidente Bush e o apoio que tem dos eleitores negros -- dois quais somente 10% votaram para Bush na campanha presidencial de 2000 -- é motivo de inveja para os estrategistas políticos do Partido Republicano.

De forma matreira, Powell, um afro-americano, foi o primeiro dos ministros a ser nomeado por Bush, após as confusas eleições presidenciais na Flórida terem exacerbado as divisões políticas e raciais do país.

Mas, quaisquer que sejam as vantagens que Bush possa ter conquistado com a sua decisão, elas se dissiparam à medida que importantes decisões relativas à política externa foram seqüestradas das mãos de Powell por ideólogos conservadores e agentes políticos republicanos.

Como o bom soldado que foi durante os seus 35 anos de carreira militar, Powell não demonstrou publicamente nenhum sinal quanto ao seu descontentamento. Ele não reclamou quanto à influência que outros indivíduos estão tendo na arena política internacional que ele escolheu gerenciar. Porém, os boatos quanto a sua saída persistem.

Colin Powell não é de se entregar. Mas, às vezes, no calor da batalha, é mais sábio recuar para continuar com a luta um outro dia. Um ano antes da eleição presidencial de 2000, acreditava-se que Powell teria uma boa chance de ser o indicado nas convenções republicanas para disputar a Casa Branca. Ele se retirou do páreo, alegando que não tinha gana suficiente para disputar a corrida presidencial.

Devido à forma vulgar como tem sido tratado, Powell pode muito bem se retirar da administração Bush e repensar as suas opções políticas.

Tradução: Danilo Fonseca

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