Americanos contratam "treinadores de vida" em busca de motivação

Karen S. Peterson
USA Today

O crescimento pessoal é um assunto que agrada. Já os diagnósticos não.

Esse é um dos motivos pelos quais os Estados Unidos estão presenciando um grande aumento do número de pessoas oferecendo os seus serviços como "treinadores de vida". Essas pessoas fornecem aos seus clientes a confiança para se "desatolarem" -- mudando de profissão, consertando os seus relacionamentos ou simplesmente "juntando as peças" de suas vidas para começarem a reagir. Esses "profissionais" também são vistos por muita gente com certa desconfiança, já que trabalham em uma área que praticamente não é regulamentada.

Os treinadores de vida são uma nova opção para os indivíduos preocupados, mas que estão bem -- aqueles cujas vidas passam apenas por ligeiros problemas. Eles não precisam mais de um diagnóstico feito por um psicoterapeuta que remexe nos seus passados. Usando o telefone ou a Internet, essas pessoas podem marcar consulta com um treinador de vida otimista, que se transforma em um parceiro para a definição de um futuro melhor.

Os treinadores são especialmente populares entre os homens, que respondem favoravelmente a um termo derivado dos esportes, afirma o treinador Patrick Williams, cujo Instituto para Instrução de Treinadores de vida fica em Fort Collins, no Colorado. "Setenta por cento dos casos em psicoterapia são de mulheres; no treinamento de vida, 60% são homens", diz ele.

"Para um homem, não há problema em consultar um treinador de vida", diz Martha Beck, uma profissional conhecida da área que participou do programa de televisão "The Oprah Winfrey Show" e que escreve uma coluna para a revista "O -- The Oprah Magazine". "No entanto, os homens não gostam da idéia de ter consultas com psicoterapeutas".

A mais recente novidade é o treinamento de vida para adolescentes, diz Williams. Ele encoraja os terapeutas a cursar o seu programa e mudar de profissão, passando a ser treinadores de vida. "Estamos preparando pessoas para fazerem treinamento familiar, treinamento paterno e materno e treinamento de aposentadoria. Há muitos nichos para especialização".

Nos Estados Unidos há cerca de 10 mil treinadores de vida atuando, segundo uma avaliação da última edição da revista Psychoterapy Networker, dirigida para profissionais. Vários deles entraram nos últimos cinco anos para uma indústria crescente -- e não supervisionada -- que empolga alguns observadores, mas faz com que outros fiquem profundamente preocupados.

Embora vários treinadores façam cursos longos, muitos outros não possuem quaisquer credenciais. Praticamente ninguém pode afirmar que é um treinador de vida, afirma David Fresco, professor de psicologia na Universidade Estadual Kent. "Não existem qualificações, uma abordagem unificada nem uma comissão supervisora. Eles basicamente passam por debaixo de qualquer esquema de fiscalização". E as virtudes daquilo que muitos oferecem não são comprovadas, diz ele.

Vários especialistas também se preocupam com a possibilidade de que treinadores sem formação não sejam capazes de perceber o que está acontecendo quando lidarem com pacientes realmente problemáticos, que precisam de mais do que "um bom plano de vida e de um conselheiro entusiasmado", escreve o editor da revista Psychoterapy Networker, Richard Simon. "Os treinadores não desejam nos encontrar naqueles pontos em que estamos mais desesperados, solitários, furiosos e amedrontados -- o terreno tradicional para a maioria dos psicoterapeutas".

A necessidade de reconhecer as pessoas perturbadas é um dos motivos pelos quais Williams encoraja os especialistas em saúde mental a entrarem para o campo. "Um treinador precisa ser capaz de reconhecer quando está sendo solicitado a entrar no reino da terapia -- ou da cura e revelação -- ao invés de naquele da descoberta e criação". Tem que estar claro que não se está oferecendo uma psicoterapia.

O treinamento de vida começou como um instrumento motivacional para o universo empresarial. "O fato de se contar com um treinador para executivos por algum tempo era visto com bons olhos", afirma Jim Naughton, da revista Psychotherapy Networker.

O conceito de negócios se baseou em pesquisa organizacional com "um peso intelectual", diz ele. A prática se proliferou para se tornar o equivalente a ter um personal trainer, diz ele.

Os treinadores de vida se concentram em melhorar as vidas dos seus clientes, muitas vezes falando sobre balanceamento ou "integração" de vida, conforme Beck gosta de colocar.

Eles geralmente começam fazendo perguntas extensas e específicas e se concentrando em um conjunto preciso de metas. O dever de casa pode incluir escrever algo para um jornal, fazer vários exercícios, incluindo a elaboração de um "projeto de vida", e responder ao progresso com vários "planos de ação".

Porém, Williams adverte que não há nenhuma solução rápida. O treinamento muitas vezes se desenrola por vários meses, geralmente em sessões semanais de meia hora. Os preços variam muito. Williams diz que alguns treinadores cobram US$ 300 (cerca de R$ 934) por hora, enquanto o preço de outros varia entre US$ 350 e US$ 600 (R$ 1.090 e R$ 1.870) por mês. A maior parte dos planos de saúde não cobre tais despesas.

O treinamento de vida é "orientado para a ação e a solução, e se concentra em um movimento para frente, não se focalizando no passado", explica Laura Berman Fortgang, treinadora de vida da cidade de Montclair, em Nova Jersey, e autora do livro "Vivendo a Sua Melhor Vida". Ela diz que os seus clientes "são pessoas educadas e inteligentes que querem fazer mudanças radicais em suas vidas". Muitas dessas pessoas estão atualmente reavaliando as suas metas, após os ataques de 11 de setembro. "Não estou me referindo a pessoas fracas ou incompetentes", diz Fortgang. "Falo de gente comum e normal, que tem a vida sob controle. Essas pessoas descobrem o valor de se contar com alguém que as ajude a pensar os seus egos de uma perspectiva externa".

Christina Sauers, de 33 anos, afirma que Fortgang a ajudou a "dar um salto de fé" rumo a uma outra profissão. Ela está deixando o emprego de vendas em uma companhia de móveis para voltar a estudar, se concentrando em "algo na área de psicologia de esportes". Ela planeja ajudar a encontrar atletas locais, o que vai auxilia-la a "retornar à comunidade".

Ela se sente "como se tivesse mais a oferecer. Laura me ajudou a descobrir o meu próprio gênio interno, aquilo para o qual sou naturalmente boa".

Uma outra cliente de Fortgang está reavaliando a sua vida após o 11 de setembro. Ela própria foi treinadora de vida, mas decidiu mergulhar mais profundamente nas profissões de auxílio. "Laura me ajudou a formular as perguntas que eu não consegui fazer a mim mesmo durante 22 anos", diz Jennifer Van Zandt, de 37 anos, de Princeton, Nova Jersey. "Ela me ajudou a ouvir o meu chamado interno". Van Zandt vai entrar para um curso de teologia na Universidade de Princeton dentro de seis semanas.

Vários profissionais de saúde mental estão discutindo se devem acrescentar o treinamento de vida aos seus serviços. Eles são atraídos para o campo em parte porque não é necessário lidar com papéis, planos de saúde ou outros fatores burocráticos, diz Williams. Esses profissionais não precisam "fingir que há algo de errado" com um paciente para satisfazer a exigência do plano de saúde para que haja um diagnóstico, diz ele.

Os treinadores podem ficar com o valor integral do seu trabalho, acrescenta Fresco. O setor algumas vezes é maculado por treinadores que dizem que a profissão dá muito dinheiro. "Fico ofendido com o fato de essas pessoas enfatizarem a lucratividade em detrimento da eficácia de sua profissão", critica.

Williams diz que o treinamento de vida vai "mudar a face da psicoterapia, ajudando as pessoas a terem uma vida melhor sem o estigma de precisar de um diagnóstico ou de uma visita a um psicoterapeuta que eles não querem ou do qual não precisam".

Outros são muito mais céticos e se preocupam com clientes que podem não saber que necessitam de muito mais do que um "conserto rápido", diz Naughton. "O pensamento positivo tem os seus limites".

Tradução: Danilo Fonseca

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