Novo livro tenta explicar por que as religiões são desvirtuadas

Chuck Raasch
USA Today
Em Washington (EUA)

Onze meses após o 11 de setembro, a lacuna que impede o entendimento entre o islamismo e o resto do mundo parece ser mais ampla do que nunca.

Um novo livro que será lançado nos Estados Unidos no mês que vem, escrito pelo professor da Universidade Wake Forest, Charles Kimball, pastor batista com formação em estudos islâmicos pela Universidade de Harvard, tenta fornecer uma resposta a essa questão.

No livro Why Religion Becomes Evil ("Por que as Religiões se Tornam Malignas"), Kimball afirma que os islamismo é a mais recente religião a sofrer a tentativa de apropriação por parte de indivíduos com intenções corruptas.

Desde 11 de setembro, alguns líderes religiosos tentaram aumentar o grau de entendimento. No mês passado, por exemplo, representantes da Liga Mundial Muçulmana, com sede na Arábia Saudita, visitaram cidades norte-americanas, pedindo às audiências que não julgassem o islamismo sob a ótica das ações de terroristas que agem em nome da religião.

Mas algumas das mais famosas histórias publicadas pela mídia sobre figuras religiosas, desde o 11 de setembro, têm sido polêmicas e desconcertantes. O ex-chefe da organização Maioria Moral, Jerry Falwell, sugeriu que os ataques terroristas foram causados pelos pecados dos norte-americanos. Já o pastor Jerry Vines, ex-presidente da Convenção Batista do Sul, afirmou que o islamismo é uma religião inferior, e que o profeta Maomé foi um "pedófilo possuído pelo demônio".

Clérigos muçulmanos muitas vezes pareceram apoiar o terrorismo em nome da jihad (a guerra santa muçulmana). A aplicação de leis islâmicas por regimes fundamentalistas pode ser cruel e arbitrária.

"Em círculos ecumênicos, aliança inter-religiosas e conselhos de igrejas em cidades e Estados, houve muitos esforços para superar tais problemas", afirma Kimball, que esteve entre os poucos norte-americanos que visitaram os reféns dos Estados Unidos no Irã, após a revolução fundamentalista naquele país, há mais de 20 anos. "Mas esse tipo de notícia não costuma ser manchete nos jornais".

Kimball diz que alguns muçulmanos temem a intolerância, tanto interna quanto externa a sua fé. "Há muitos muçulmanos que conheço que ficaram horrorizados por esses eventos e se pronunciaram contra eles", afirma Kimball. "Mas outros temeram ser tachados, de forma acrítica, de pró-americanos ou pró-israelenses, caso fizessem comentários negativos a respeito do islamismo".

Kimball, que também é chefe do Departamento de Religião da Universidade Wake Forest, estuda a ascensão do fundamentalismo islâmico há mais de 20 anos. No seu livro, Kimball descreve cinco sinais de alerta, que são sinais de uma "religião corrupta":

Alegação de ser a dona da verdade absoluta. "Grandes problemas surgem quando fontes exclusivistas da autoridade e da lógica se juntam a um fervor missionário elaborado para impor o conformismo", escreve Kimball.

Obediência cega. Os exemplos, segundo Kimball, variam dos seguidores de seitas, como as de David Koresh e Jim Jones, até a adesão absoluta, exigida pelos mulás do Irã atual.

Estabelecimento de um "momento ideal". "Quando qualquer grupo determina o que Deus deseja para os seus membros e todos mais e essa visão se relaciona com os poderes do Estado, surge uma receita para o desastre", escreve Kimball. "Os exemplos incluem muçulmanos que procuram criar um Estado islâmico, colonos judeus e extremistas em Israel, e o movimento Reconstrução Cristã, nos Estados Unidos".

Os fins justificam quaisquer meios. "Indivíduos religiosos são capazes de cometer atos malignos indescritíveis quando resolvem justificar o resultado final", explica Kimball. Os exemplos vão além dos atentados de 11 de setembro: a violência hindu e muçulmana na Índia; os atentados suicidas a bomba no Oriente Médio; a limpeza étnica nos Bálcãs.

Declaração de uma guerra santa. A polêmica quanto à interpretação moderna da jihad é um exemplo. "Embora haja vários extremistas violentos entre os muçulmanos, defendendo e realizando atos repugnantes sob a bandeira da jihad, esses indivíduos representam uma pequena minoria às margens do islamismo", escreveu Kimball. Ele afirma que, após 25 anos de estudos, "posso dizer sem hesitação que a esmagadora maioria dos muçulmanos fica tão horrorizada e chocada com o extremismo violento quanto a maior parte dos cristãos, judeus, hindus, budistas e pessoas que não se identificam com nenhuma religião".

O livro de Kimball lembra aos leitores que uma seita religiosa cometeu um grande ato de terrorismo no Japão em 1995. A seita secreta Aum Shinrikyo foi responsável pela morte de 12 pessoas e por lesões em mais de 5.000, em um mortífero ataque com o gás sarin no metrô de Tóquio.

Tradução: Danilo Fonseca

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