Prisão abandonada atrai turistas, Hollywood e caçadores de fantasmas

Jayne Clark
USA Today
Em Mansfield (EUA)

Nesta cidade na região central do Estado de Ohio, descobrir o que fazer nas sextas-feiras à noite não é problema. Neste verão, aumentou o número de visitantes a uma prisão abandonada que está ganhando nova vida como atração turística.

Ao anoitecer, um grupo de indivíduos que pagaram US$ 50 (R$ 150) por pessoa se concentra próximo ao portão frontal do ex-Reformatório Estadual de Ohio, aguardando por uma farra movida a cerveja e pizza que deve durar até o nascer do sol, ou até que a exaustão vença a todos. As caçadas a fantasmas de final de semana são a mais recente invenção para preservar a imponente fortaleza, com arquitetura de castelo, que outrora encerrava por detrás das suas paredes e grades prisioneiros de alta periculosidade. Desde que foi fechada, em 1990, a prisão adquiriu notoriedade como cenário de filmes como "Um Sonho de Liberdade" e "Força Aérea Um".

Ao abrir as portas ao público, o complexo entrou para uma lista de algumas ex-prisões que encontraram nova vida como atrações turísticas. E as autoridades de Mansfield esperam fomentar o turismo nesta cidade operária de 52 mil habitantes.

Desde o início, a cidade depositou esperanças na prisão. Em 1886, quando os pedreiros começaram a obra, o jornal local anunciava o fato como sendo "O Mais Importante dos Dias para Mansfield". Os arquitetos que elaboraram o complexo conceberam um grandioso projeto eclesiástico, a fim de transmitir uma sensação de espiritualidade aos jovens detentos que cometeram o primeiro crime e que foram a princípio encarcerados lá. Mas, em 1990, a penitenciária superlotada já tinha há muito tempo se tornada anacrônica com relação a tais experiências sociais nobres. O Estado já tinha destruído algumas das estruturas da prisão e planejava demolir o restante, quando um pequeno mas determinado grupo de conservacionistas entrou em cena. Eles começaram a organizar visitas em 1996 e, em 1999, compraram o local por US$ 1.

O grupo não só reconheceu a importância arquitetônica do complexo mas, assim como muita gente em Mansfield, nutria um sentimento quase familiar com relação ao local.

"Cresci nesta cidade e me imaginava como uma princesa no castelo", diz a gerente de turismo Jan Demyan. "Sei que isso soa estranho, mas eu seria capaz de morar aqui".

Ela ainda não se mudou. Mas Demyan vem para cá todos os domingos para as visitas diurnas. Ela também está presente do entardecer à aurora, para participar das caçadas intermitentes a fantasmas e de um número crescente de eventos especiais. Entre eles: noites de "assassinatos misteriosos", a exibição de um vídeo musical e um jantar que está sendo planejado para os participantes. Há até um casamento marcado para o verão do ano que vem.

Dmyan, uma loura forte, que usa calça jeans, passa por um conjunto de seis celas. Décadas de descascamento da tinta deram às paredes uma aparência decadência colorida. Verde-hortelã, caramelo, marrom sujo e rosa pálido oferecem uma cronologia vívida das mudanças de teorias sobre como as cores afetam o humor de condenados confinados em pequenos espaços. Nas celas, restam destroços de vidas passadas -- um sapato solitário, um esfarrapado cobertor de lã, uma barra de sabão usada pela metade.

As visitas se constituem em uma grande fonte de renda para a Sociedade de Preservação do Reformatório Mansfield, que oferece várias modalidades de filiação, desde a "Detento" (US$ 25), até a "Prisão Perpétua" (US$ 5.000). Uma lojinha vende souvenires da prisão, tais como um brinco em forma de algemas e copos de estanho. O grupo quer, um dia, criar um museu e construir instalações para abrigar turistas. Mas a meta de curto prazo é manter o monólito inteiro, afirma Dan Seckel, arquiteto e presidente da sociedade.

"Muita gente pensou que fôssemos doidos, mas, de maneira geral, a cidade está aceitando bem aquilo que fazemos", diz ele. "Esta é uma parcela importante do passado que não pode ser esquecida".

O estilo arquitetônico da prisão, uma mistura de gótico vitoriano, romanesco e Rainha Ana, é "totalmente único", diz ele.

De fato, com a sua estrada de acesso, uma alameda que leva a uma fachada de colunas e torres, o Reformatório do Estado de Ohio poderia ser confundido com um castelo do Velho Mundo, uma universidade da Ivy League ou os domínios de um barão. Mas, em uma noite escura como esta, o local é impressionante, chegando a ser assustador.

Um policial avisa ao grupo que é proibido levar bebidas alcoólicas ou drogas ilegais para o interior do complexo. Um homem que afirma ser parapsicólogo diz que não se devem usar ouija boards (quadros com letras que, supostamente, permitiriam a comunicação com espíritos). Um guia alerta que, por detrás deste complexo escuro, há uma penitenciária em funcionamento (Instituto Correcional Mansfield), com detentos de carne e osso. "Portanto, se vocês se perderem, caminhem para o escuro!".

E, embora haja crédulos em seres do além-mundo entre os visitantes, nem todos estão procurando fantasmas. O técnico do laboratório Akron, James Curtis Smith, de 37 anos, trouxe cinco membros da família.

"Temos conosco um agnóstico, um ateu e dois cristãos", diz ele. "Mas, para mim e minha mulher, o mais empolgante é a história do lugar".

Outros vêm experimentar a imponência bizarra do pavilhão de celas. Fãs do filme "Um Sonho de Liberdade" fazem peregrinações aos locais das filmagens. Mas muita gente, diz Seckel, fica "simplesmente enamorada pela desintegração do local. É difícil dizer porque as pessoas vêm até aqui. Só sabemos que elas não param de chegar, em número cada vez maior".

Após várias horas explorando as profundezas da prisão, desde a solitária até a torre da guarda, o grupo sente um cheiro que faz com que todos se dirijam ao grande refeitório, da mesma forma como um carcereiro faria com que detentos marchassem de volta as suas celas.

Lá, 20 pizzas quentes estão empilhadas sobre a mesa. A caçadora de fantasmas Jennifer Bowers trouxe um bolo decorado com um cenário de cemitério, para comemorar o seu 24º aniversário. Após cantarem em coro o "Happy Birthday", a caçada recomeça.

Por volta das seis da manhã o último dos caçadores de fantasmas deixa a prisão. As paredes de pedra cinzenta da fortaleza voltam novamente a contrastar com um céu acinzentado. Se houver espíritos de prisioneiros do passado rondando, é a hora de eles voltarem aos recônditos de sua privacidade. As próximas caçadas de fantasmas serão nos dias 16 e 30 de agosto. O preço é US$ 50 (R$ 150).

Tradução: Danilo Fonseca

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