Empresas de tabaco sabotaram vendas de remédios contra o fumo

Dan Vergano
USA Today

As companhias de tabaco utilizaram a sua influência financeira junto a empresas que fabricam chicletes e adesivos com nicotina a fim de prejudicar a venda desses produtos anti-tabagismo, segundo documentos internos da indústria.

Esses mesmos documentos indicam que, em um caso, as divisões farmacêuticas e de tabaco da mesma empresa sueca, a Procordia, vendiam, respectivamente, um chiclete com nicotina a fim de ajudar os fumantes a se livrarem do vício e um outro chiclete, de tabaco, elaborado para consolidar o hábito.

Na mais recente edição do Journal of the American Medical Association, um relatório feito por Bhava Shamasunder e Lisa Bero, da Universidade da Califórnia, descreve 187 documentos de firmas de tabaco, divulgados como parte dos acordos feitos pela indústria com relação a processos de indenização.

Dois dos produtos de combate ao tabagismo mencionados no estudo -- o chicletes Nicorette e o adesivo cutâneo Habitrol -- são atualmente produtos bem conhecidos, que tentam suprir a necessidade de nicotina motivada pelo vício, permitindo que os pacientes abandonem o cigarro. No ano passado, as vendas de chicletes Nicorette chegaram a US$ 299 milhões.

Segundo Bero, os documentos revelam três casos de surpreendentes ligações financeiras entre as empresas de tabaco e as farmacêuticas que fabricam produtos com nicotina, destinados a livrar os tabagistas do vício.

Chicletes Nicorette. Em 1984, a empresa de tabaco Phillip Morris cancelou as compras de produtos químicos da Dow Chemical, reclamando do chicletes, que à época era fabricado por uma das divisões da Dow, e que atualmente é vendido pela GlaxoSmithKline. Em resposta, a Dow encerrou a publicação de um jornal anti-tabagismo que era parte da campanha de vendas do chicletes e cancelou doações para grupos como o Conselho Nacional Interagências de Fumo e Saúde. Depois disso, a Phillip Morris retomou a compra dos produtos químicos.

Adesivos Habitrol. Em 1992, a Novartis, à época pertencente à Ciba-Geigy, percebeu que a sua divisão de produtos químico-agrícolas, que sofria lobby das empresas de tabaco, estava furiosa quanto aos adesivos. As divisões farmacêutica e agrícola da empresa estabeleceram "regras básicas" quanto à propaganda do Habitrol, de forma que as suas propagandas não veiculassem mensagens explícitas contra o cigarro, segundo os documentos internos.

Masterpiece Tobacs. Em 1987, a firma sueca Procordia AB possuía ações preferenciais de uma empresa de tabaco que vendia esses chicletes com nicotina, dirigido a fumantes, para aqueles períodos nos quais os tabagistas estivessem impossibilitados de fumar, e de uma companhia farmacêutica que fabricava um outro chicletes com nicotina.

"Esses casos são históricos, mas não há motivos para acreditar que tais laços financeiros tenham sido cortados", afirma Bero. "Não vejo nenhuma evidência de que a responsabilidade das corporações tenha aumentado ultimamente", diz ela, lembrando de recentes escândalos na indústria.

As empresas farmacêuticas discordam.

"Creio que o relatório é enganoso", diz Lori Kraut, da Aventis, ex-Marion Merrel Dow, a subsidiária da Dow que comercializava o Nicorette. "A natureza agressiva do nosso mercado indica que sempre houve um esforço muito grande para alcançar os pacientes". Em 1992, as vendas dos adesivos Nicoderm feitas pela firma foram tão intensas que o produto teve que ser racionado, diz ela.

A GlaxoSmithKline, que atualmente vende o Nicorette, não possui vínculos com empresas de tabaco, sendo uma companhia especializada na venda de produtos de saúde, afirma Brian Jones, porta-voz da empresa. Ele diz que a companhia ajuda a financiar a Sociedade Americana do Câncer e "dezenas" de outros grupos dedicados a ajudar os fumantes abandonar o vício.

O relatório é "realmente um pedaço sombrio da história médica", afirma John Kelly, da Pharmaceutical Research e Manufactures of America. Ele diz que, independentemente de quaisquer ligações entre empresas, as companhias farmacêuticas fizeram um grande esforço para divulgar tanto o Nicorette quanto o Habitrol junto aos médicos, conforme ficou evidenciado pelo apoio da firma a dezenas de estudos sobre o tratamento do tabagismo, propagandas em jornais de medicina e em outros meios.

"Ainda assim, o fato de que companhias de tabaco tenham influenciado indústrias farmacêuticas é muito preocupante", diz Richard Levinson, presidente da Associação Americana de Saúde Pública. A cada ano, o tabaco é o responsável pela morte de uma em cada cinco pessoas, segundo o Instituto Nacional do Câncer.

Tradução: Danilo Fonseca

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